- Gielton

GIELTON
SAMBA EM FAMÍLIA
- Gielton

Atualizado: 3 de set. de 2025
Gielton

Adoro ler, mastigar as palavras, uma a uma, bem devagar. Saboreá-las como quem cultiva gostos raros em cada canto da boca. A língua toca o céu e alcança os recônditos das páginas, desvendando sílabas e sons como um músico explora notas e ritmos.
Após os paladares mundanos, é
hora de digerir
decantar, encantar
Olhar para o nada, como quem deixa o vazio entrar.
Pois sentir
é a antimatéria do sentido
é o amálgama das emoções
Não importa!
Pode ser turbilhão ou alumbramento
conexão entre a alma e o inefável
ou simplesmente gozo.
Em alguma dobra dos livros que li está a chave que liberta a intuição. Uma vez solta, basta dar linha que se encontra, nas entrelinhas, tesouros escondidos dentro de nós.
É deste esconderijo que apresento, neste destaque, meu olhar singelo de alguns livros dos quais me enamorei.
Sinta-se à vontade para saborear comigo.
- Gielton

Atualizado: 12 de mar.
Gielton

O capacete tatuado com figurinhas infantis é lindo. Ela nem fazia ideia, mas era seu presente de oito meses. Mais meu do que dela. Um sonho de futuro. Era ainda muito jovem para se sustentar na cadeirinha da bicicleta. Teria que esperar. Não sabia quanto.
A demora parecia infinita. Quando chegaria a vez das bicicletadas deitadas na fantasia? Os arranjos cotidianos não confluíam. Aqui dentro, o coração apertado ancorava certa resiliência. Talvez não será como imaginei.
— Pai, estamos pensando em mudar as coisas. Você poderia ficar com a Malu às quartas?
Um mês depois nos tornamos cúmplices do vento. Era só fazer o gesto com as mãos em punho, girando feito pedal, que seu semblante desabrochava.
Seu temor pela altura do chão foi cuidadosamente respeitado. Aos poucos, a confiança nos abraçou até nos tornamos uno: vô, neta e bike.
— Vovô, o que tem atrás deste muro?
— Sabia que essa foi a escola que estudei quando criança?
— Era ali seu parquinho, vovô?
— Não tanto, mas... é isso!
— E a mamãe, onde estava?
— Ah... ela não tinha nascido. Eu nem tinha conhecido sua vó!
Sem entender direito, mas mantendo a tagarelice...
— Onde a mamãe estava?
— Deixa eu ver... Lá no céu.
— Junto do seu papai? Ele também não está no céu?
— É, mais ou menos.
— E eu, onde eu estava?
Pausa para pensar.
— Lá no céu também.
— Vovô, como a gente vem do céu?
— Imagina um amor que vai crescendo, crescendo... Quando ele fica do tamanho do céu, a criança nasce dentro da barriga da mamãe.
Malu, de pé sobre seus três aninhos, tem a língua solta que agarra de longe ideias inimagináveis. Permanece presente em cada instante e fala, fala, fala... Nessa toada, em papos profundos, passamos pela pracinha, descemos a "rampa da velocidade", até alcançarmos o açaí. Adora o sorvete de morango com algumas guloseimas extras. Acho que é a parte mais aguardada do passeio: dia do vovô.
De cima, enquanto as pernas volteiam em círculos, vejo o presente: o capacete roxo, com luas, pirâmides e estrelas roçam meu peito. As mãozinhas abraçando seu guidão e os pés firmados no apoio. Suas palavras tão bem articuladas nos enlaçam, atingem meus tímpanos e expandem corpo adentro. A alma, sem esforço, vibra em regozijo.
Enquanto ela tomava seu sorvete de morango, lembrei: meu pai subiu ao céu antes de seus netos descerem. Nunca ouviu “vovô”. Quem sabe, tenham se cruzado por lá?
Assim, a vida! Um passeio entre o céu e a terra.
