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Mulheres conversando em um banco de praça

Mohamed lambia os beiços ao mordiscar seu pão árabe. Por dentro, se dividia entre os sabores e a pressa de brincar. Tinha seus dez anos, mas pelo corpanzil as pessoas lhe davam uns três a mais. 


Ao lado de Mohamed, sua mãe de burca e três vizinhas ocupavam o banco da quina da pracinha. Daquele ponto os olhos atentos das mulheres acompanhavam os movimentos de seus filhos e filhas que desfrutavam dos brinquedos com a pequena multidão. Lanchavam suas comidas típicas, papeavam futilidades, trocavam receitas. 


A pracinha estava lotada naquela noite, com gente escapando pelo ladrão. Pode parecer estranho, mas já passavam das 23h e dezenas de crianças ainda brincavam. As menores desciam em duplas ou trios no escorrega de metal. De braços para o alto deslizavam ao vento. Nas gangorras, o frio na barriga era a mistura de medo e prazer. Mais prazer do que medo pelos uivos estridentes que molestavam os tímpanos de qualquer transeunte. Uma gritaria de doer. 


Era comum, nas temperaturas amenas de  abril, famílias de imigrantes se reunirem nessa pedonal. O Sol se punha depois das 21h e a noite era uma criança. 


Um casal de brasileiros, há dois meses, morava no prédio em frente: "Plaza del pés de la Palla". Ela viera para o pós-doutorado em Barcelona. Ele, aposentado, a acompanhava. Sujeito metódico, de poucas palavras. Deixaram filhos e netos na terra natal para viverem na maturidade o grande amor de um pelo outro. Apaixonados até o último fio de cabelo, caminhavam saltitantes, como crianças que não se contém. 


Nessa noite, os dois passeavam pelo entorno tateando o chão onde pisavam. Suas bússolas internas estavam descalibradas e o fuso horário os tonteava. Tudo era novo, mas a pracinha em frente ao apartamento já lhes era familiar. O saco de empanadas fumegantes adquiridas na esquina em uma "tienda" argentina queimava as mãos.


Quase em casa, ouviram o movimento na praça: o pau quebrando em gritos, risos e conversas. De repente, ao lado do tal banco de quina, quase tropeçaram em um menino inerte, caído no chão. Curiosos em volta observavam e uma mulher de burca com as mãos na cabeça gritava: ajuda, meu filho!

 

Num relance, o brasileiro passou as empanadas para sua mulher e, subvertendo sua própria natureza, levantou Mohamed, abraçou-o por trás e apertou com força sua barriga. Uma, duas, três vezes… De repente, o menino cuspiu o pedaço de pão. Respirou. Um suspiro de alívio passou por seu pulmão, atravessou o espaço e chegou em sua mãe. Em prantos, ela tocou a face do filho com olhar incrédulo e o acariciou.


— Obrigada. 


— Vi essa manobra outro dia mesmo na internet. 


Ela entendeu bulhufas. Nem precisava.


Mohamed voltou a brincar. O casal entrou no elevador e foi comer suas empanadas ainda quentinhas.


Assim, a vida. Às vezes engasga.


<imagem gerada por IA>

 

Atualizado: 25 de nov. de 2025

Gielton



Escritora




Entre namoro e noivado, foram mais de cinco anos. Casal admirado que "esperançava" a vida dos outros como espelho de sonhos pessoais. Tudo corria segundo o figurino. A vida no interior do sertão mineiro a esperava: dona de casa, filhos, família...


Só que a ânsia por outros mundos revirou o prognóstico. Ah, por que as mulheres precisam estudar? Viu? Nisso que dá!


Foi a conta de pisar no chão da universidade e um mundo de caminhos se abrir. Também, foi mexer com teatro! Onde já se viu? Um antro de perdição!


Seu décimo sentido projetava longe, longe outras perspectivas. Ainda nebulosas, mas magnéticas como forças ocultas, a impeliram para um lugar conhecido, apesar de incerto: a metrópole.


A mente consciente da pequenez da trilha demarcada naqueles cafundós, o desejo pulsante pelo fervor do mundo, os sonhos projetados e certa liberdade intrínseca não deixaram dúvida: largou o noivo, embasbacado, à beira do altar.


No lugarejo, o espanto abriu espaço para devaneios. A mesquinharia levou a jovem de família para o puteiro. Afinal, atriz e prostituta são uma coisa só. Escolheu a vida fácil, diziam línguas venenosas.


Que nada, seu palco foi a sala de aula. Seu público, estudantes encantados. Atuou com maestria entre carteiras e pessoas. Estudou e pesquisou movimentos sociais. Aprofundou os entendimentos e abriu portas para a compreensão de si e do outro.


Aposentou-se.


As lembranças da infância, os afetos cultivados e a terra plantada a trouxeram de volta. Hoje, em sua casa, o quintal e o jardim, cuidados com mãos de escritora que agarra o lápis e solta ideias, floresce.


Recentemente reencontrou Afonso, o ex-noivo. Enlaçou outra noiva e, como no figurino, germinaram três crias. Estavam à beira do rio. Parentes presentes entre copos de cerveja e tira-gostos, instigaram tal encontro. Ele apresentou lembranças vivas e marcantes daquele tempo: recitou em público versos escritos ao punho dela. Sorriu afetuosamente, enquanto ela, espantada, nem se lembrava de suas próprias palavras.


O WhatsApp da moça tocou cedo no dia seguinte. Foi delicado, sensível e amável. Propôs um encontro para abrir o baú de guardados.


Deveria ela aceitar o convite?


Assim, a vida! Esperando o inesperado.

 

Gielton



Água caindo de um chuveiro



Na manhã seguinte, Moacir deito- se novamente na mesma posição. Deixou os ombros relaxarem enquanto as energias do corpo eram mobilizadas. Sentia cada vez mais a tal fluidez que vinha junto a um enorme bem estar.


O sonho acordado desta vez o levou a um castelo medieval. Sobre uma mesa, muita comida, farta e variada. Homens barbados riam em gargalhadas sobejas. Os sons se misturavam ao emaranhado de mãos agarrando coxas de frango, pés de porco e taças metálicas de vinho.


Moacir ao centro participava e tinha domínio da cena. Ele, então, se levanta. Caminha até o canto. Os sons se distanciam. No cômodo ao lado mulheres seminuas se mostram. Moacir escolhe uma. A rejeita. Escolhe outra. Não a quer mais. Os olhares melancólicos não escondem a farsa de movimentos sensualizados. Quando uma mulher de semblante apaziguador lhe estende a mão, Moacir retorna. Abre os olhos. O teto está no mesmo lugar. Os pulmões continuam respirando.


Algo lhe impeliu para um banho matinal. Estava conectado consigo, com os outros, com o mundo, com as vidas... A água quente e volumosa caía sobre os ombros. O estado de perplexidade ainda lhe tomava o ser. A protuberância de sua barriga vista de cima lhe causou estranheza. Estava maior do que o normal. A água descia. A barriga começou a contrair-se, como se um filho dali fosse nascer. Sentiu náuseas. O ser deveria ser expulso pela boca. Tomado por uma intuição maior, Moacir expele pela boca, através de uma força intensa, algo não visível. A barriga murchou... Moacir não teve medo. Enfrentou. A voz vinda do alto da cabeça comunicava sua enorme decepção. "Somos companheiros de anos. Você vai me abandonar agora". Em um relance de lucidez Moacir ouviu de si mesmo "vamos abrir mais uma".


Compreendeu tudo e falou por dentro da cabeça. "Amigo, é para o nosso melhor. Temos que nos despedir agora. Não estou contra você, estou a favor de mim, de nós." Moacir sentiu uma rajada de raiva. O tom da voz interna eloquente e imperativa afirmou: "fraco como é, julga-se capaz de se libertar de mim?"


Com calma e astúcia Moacir repete. "Caro amigo, é chegada a hora de nos despedirmos. Preciso continuar minha marcha. Você, a sua. Sei que estará amparado. Adeus."


Ao entrar na cozinha ainda de cabelos molhados Clarisse espantada diz.


— O que houve com seu rosto? Quem te arranhou desse jeito?


Moacir disse.


— Quero apenas ser eu. Não bebo mais.


<Imagem gerada por Inteligência Artificial>

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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