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  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 14 de fev. de 2023

Gielton





Você já se colocou no lugar de uma árvore? Imagine o que sente? Se sente! Pois é, arrisquei esses dias um aconchego. Tive uma grata surpresa.


Primeiro, antenei. Notei! Foquei pensamento e observância. Engraçado como a vida norteia nosso olhar quando estamos abertos.


A Mata Atlântica de brejo de altitude, no interior da Paraíba, veio até nós. Meio que por acaso, atraídos pela exuberante simplicidade de casinhas coloridas à beira do asfalto, paramos. Em pouco tempo adentramos o Parque Estadual do Pau-de-Ferro. Pau-de-Ferro? Sabe o que é? Uma árvore de tronco duro como ferro, muito comum na região.


Enquanto o guia discursava, eu anotava. A barriga da Macaúba a faz grávida de si mesma. O Mata Calado ou Boquinha de Moça produz um fruto venenoso. Seu tom arroxeado em forma de boca insinua um beijo. Vai, bobo! Os frutos do imponente Jatobá são expectorantes. A Sambacuim é fina e comprida como ela só. Orelha de pau são cogumelos incrustados em árvores mortas. A resina extraída da Almecega ajuda na cicatrização de ferimentos e libera um delicioso perfume. A Gameleira, grande e vistosa, desprende lindas flores.


Queria mais. Entrar no âmago delas. Sentir sua seiva. Beber da sua fonte. Experimentar de dentro. Calma... É preciso tempo para a energia se manifestar.


Aquele outro bosque, na Ponta do Seixa, dois dias depois, prometia. As árvores imponentes estavam ali, receptivas a um contato de primeiro grau. No entanto, a presença humana e a poluição sonora eram perturbadoras. Porque as pessoas acham que todos querem ouvir suas músicas? Impossível se concentrar em ambiente tão carregado. Fiquei no desejo. Desisti.


A praia deserta, poucos quilômetros dali, talvez fosse uma oportunidade. Mas, onde elas estão? Vislumbro apenas coqueiros ao longe. Deixa pra lá. Vamos caminhar? Andamos, andamos... A areia dura e a maré baixa davam solidez e liquidez aos nossos passos. Uma espécie de serenidade invadia-me. A pressa ficou para trás. Os humanos distantes tornaram-se pequenos pontinhos. As falésias ao fundo compunham o cenário.


De repente, uma pequena clareira sombreada de árvores frondosas abriu-se à beira da praia.


Que coisa! De novo interligam desejo, interesse e oportunidade como um todo condensado para a experiência. Sincronicidade?


O clima de paz facilitou a conexão. Sentei-me ao pé de um tronco e fechei os olhos. Deixei as coisas acontecerem por si, livres, sem força, sem planos. O diálogo principiou.


— O repouso é nossa grande virtude. Meditamos e sentimos as energias todo o tempo. Como as ondas, o mundo vem e volta até nós. Basta paciência. A brisa é, por vezes, tão carinhosa. Lambe nossas folhas que respiram agradecidas. Há movimento nesse balançar suave e doce. A chuva molha a Terra. Limpa poeiras. Escorre caule abaixo como choro de alegria. Não temos sensores de frio ou calor. Nem medo do escuro nem fotofobia.


Continuou, depois de captar minha interrogação.


— Estamos conectadas à Terra. Isso, por si, nos bastaria. Entranhamos nas profundezas. As pontas de nossas raízes, são como tentáculos captando vibrações de um todo. De baixo para cima miramos o céu. Assim, como o todo único, ligamos dois mundos distintos em um só.


Não era preciso expressar meu pensamento. Como se estivesse dentro de mim, dizia ao pé do meu ouvido.


— Somos colaborativas. Vê aquelas raízes parecendo galhos emaranhados uns aos outros? São mangues e necessitam de muita água. Na abundância todas nós sugamos. Na falta, esmaecemos. Pouco para todas é melhor que muito para poucas. Não há ganância, apenas frescor no viver!


— Não tememos a morte! Ela é ciclo de vida. Faz parte da existência. Às vezes, envelhecemos por anos a fio. Outras, minguamos ainda jovens. Não há problema. Em qualquer caso, continuamos na essência das que ficaram. Voltamos à Terra de onde viemos e, de novo, recrudescemos para os céus!


Emocionado pedi um abraço. Envolvi seu tronco de casca grossa tocando cada célula de minha frágil pele. Dei minha face amorosamente. Cuidadosamente ela deixou marcas em baixo relevo nos meus antebraços. Sabia que iriam desvanecer, mas sobreviveriam eternamente em minha memória.


Assim, a vida. Sabedoria para se saborear!



 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 3 de mai. de 2023

Gielton







Tem gente cujo desejo é tão forte que até faz parar de chover. Eu conheço!


Difícil mesmo, muitas vezes, é saber o que se quer. É que, queremos mais de uma coisa ou queremos e não queremos a mesma coisa ao mesmo tempo. Complexo isso, não é?


Amar então, é possível amar duas ou mais pessoas simultaneamente? Não digo sobre tesão, desejo ou sexo. Falo de cumplicidade, trilho e desafios a dois. Tenho minha resposta na ponta da língua. Doce como arroz doce.


Lucidez e discernimento ajudam, mas nem sempre temos a mente límpida e clara para identificar. É comum estarmos enfumaçados, em meio à confusão mental, como em uma serração onde não se avista além de um palmo diante do nariz. Cuidado, o precipício pode estar bem adiante!


Esses dias irrompeu uma oportunidade. Aí você pensa: que bom, tem que aproveitar, agarrar e não deixar escapar esse presente do destino.


Porém, como tudo na vida, a chance pintada de boa, traz prejuízos. Nem tudo são flores, há espinhos nos talos.


Por um lado queria. Experiência promissora. Novo desafio. Certamente agregaria aprendizados e evoluções. Sinto prazer quando instigado!


Meu outro lado arrazoava. Isso vai bagunçar a sua vida. Retirar seu sossego. Afastá-lo dos cuidados com a terra, as plantas, os netos. Ocupar espaços dedicados ao seu eu.


Acho que, no fundo no fundo, sabia o que queria. No entanto, havia uma pressão de dentro para fora e de fora para dentro. Algo "inidentificável"! Apenas um sentimento solto em um turbilhão, como uma pequena folha seca desarvorada em um vendaval. Uma intuição nas palavras alheias e um aperto no coração.


Aí, a pressão arterial elevou-se. É o coração clamando por cuidados. O cardiologista ofereceu-lhe uma dose extra de Losartana. Mais calmo, ele se recupera de mais um pequeno desencontro entre a alma e a lógica.


Assim, a vida. Certezas duvidosas são sombras do desalento.


Imagem do post em <https://pin.it/7Go2KL9>


 

Atualizado: 3 de mai. de 2023





Pessoas são pessoas. Indivíduos que respiram. Pensam. Agem. São e estão!


Alguém aí já parou para pensar no mundaréu de gente que vive em nosso planeta? Quando me deparo com essa cifra desarvoro. É gente que não acaba mais. Andar pelas ruas do centro traz essa sensação de ilimitado. Exaure! Gera uma espécie de cansaço. Um excesso de energia. Um esgotamento. Cada pensamento é uma onda que emana em todas as direções. Captamos muitas. Algumas indesejadas.


Mas, quando a multidão se reúne por uma causa justa... Aí, é outra coisa! Lá de cima, do alto mesmo, acima dos helicópteros, perto das nuvens, vê-se luzinhas brilhando no asfalto. Afinal, "gente é para brilhar, não para morrer de fome". Somos luzes. Cada qual com sua cor, com sua frequência. Uns mais amarelados, outros vermelhos intensos, lilases, azuis... Cada qual com suas preferências, suas crenças ou incredulidades. Seus anseios e demandas. Necessidades e traumas...


Não importa. Há vida aí dentro. Desejo e paixão. Raiva e indignação. Há humanidade. É por essas e por outras que, vez ou outra, nos juntamos. Dessa vez, impelidos por mais de 500.000 mortes fomos às ruas protestar!


Todos mascarados. Olhares atentos. Sobre corpos, dizeres. Palavras de ordem. Muitos, conhecedores dos seus limites e poderes. Fizemos a nossa parte. Alertando, clamando, bradando um grito ainda contido na boca tapada.


Alimento para a esperança. Sopa para aquecer o frio e derreter o gelo dos que, envoltos em uma rede de pertencimento, insistem em negar a vida. Permanecem no escuro da caverna onde o Sol clareia a entrada logo adiante.


Precisamos de gente. Muita gente para romper esse estado entorpecido em que navegamos. Estado de ódio pelos amores alheios. Estado de indiferença à dor que dói no irmão do lado. Estado de obscurantismo, de vista guiada e cérebro lavado.


Ainda bem que já somos muitos. Mostramos isso quando juntos caminhamos de olhos dados pelas avenidas. Cansaço? Não! Esperança!


Assim, a vida! Lutar...


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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