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Atualizado: 7 de mai. de 2025

Gielton



Escorredor de louça sobre a pia



Eles não sabiam, mas estavam prestes a descobrir um novo jeito de amar…


Andavam grudados, agarrados um ao outro. Assim foi, desde o primeiro encontro até após muitos e muitos anos de casados. Dormir juntinhos e agarradinhos era o jeito único de ser do casal. Produziram muitas conchinhas. Lógico, na madrugada se desligavam. Afinal, sonhos são vivências próprias.


Escolheram profissões que lhes permitiam viajar juntos. Reuniam as crianças nas férias escolares e "cascavam fora" para as praias de Minas Gerais. Quem não conhece os mares no entorno de Belo Horizonte?


Hoje, a síndrome do ninho vazio, recheou o bolo da vida com calda e coberturas saborosas. Ele se aposentou, mudou-se para um canto de terra nos arredores da capital e a convidou. Ela, ainda presa à venda da "mais-valia", declinou o convite e permaneceu na antiga morada, apenas nos dias "úteis".


Eram agora um casal "moderninho": casamento híbrido. Ah, se a "moda pega" nesse modelo referência da pós-pandemia? Sei não!


No caso deles, o semipresencial vai indo. Igual a surpresa ao abrir um presente, sentimentos jamais imaginados são revelados. Como somos presos a molduras criadas por nós mesmos!


Chamadas de vídeo são atendidas em plena terça. É certo, que chegam na hora do disponível, já passado algum mau humor de qualquer energia ruim do dia.

Olhares e afetos são transmitidos. A câmera do smartphone revela uma beleza para além dos olhos. Acolhem-se mutuamente nos dramas de cada um. Há maciez e serenidade. Há disponibilidade no ouvir e desejo na língua.


Como antigos namorados, após horas de encontro à distância, despedem-se. Cada qual abraça o travesseiro do outro e o sono que vem é aquele que lhes cabe.


A saudade bate forte quando a sexta-feira se aproxima. O desejo do encontro se expande do tamanho da montanha à frente, vista da janela. Ele a espera de portões escancarados.


Na nova casa, esbarram os cotovelos sem rusgas. Da cozinha, cúmplice de parcerias culinárias, nascem banquetes a quatro mãos. O ronco da furadeira é sinal de entrega e contentamento a cada novo quadro pendurado. Ele lê para ela sua última crônica antes de ligarem a Netflix.


Mais tarde, o ranger da cama se mistura ao som do prazer quando, como em um passe de mágica, tornam-se um novamente.


Assim, a vida! O inimaginável agora é realidade.


 

Gielton




Um rio que flui para os dois lados


Esses dias pra trás subia a serra. Era noite e os faróis lumiavam a dianteira dessa estradinha encurvada que nem serpente no galho. Cada pirambeira que dá medo só de olhar. Se vacilar, já era. O tanto de luzinha da cidade, lá embaixo, embaralhava as vistas de tanta beleza. Ainda mais com o céu limpinho que tava, lotado de estrelas.


Lá ia mais lento que o normal. Era a primeira viagem de Kira, a filhote da cadela mãe que resolvemos ficar. Sabe como é, tem injeção de vacina pra dar, comprimido pros vermes... Melhor é resolver esses trens na cidade grande. Tinha medo da bichinha passar mal de tanta curva e desacelerei bem.


Aí, sô, um farol de todo tamanho encosta na minha bunda e de tão perto parecia que ia entrar no veículo porta-malas adentro. Deu uma irritação, que só vendo. "Sujeito atrevido, não tá vendo que a cachorrinha tá no chão do carro morrendo de medo?" - pensei no interior do umbigo. Ele nem reagia aos meus pensamentos e tilintava de um lado para o outro querendo passar. Só que a estreiteza da pista não dava largura.


Só sei que, quando cheguei no topo, quase parei pra ele passar. Foi que nem um foguete. "Quanta pressa moço"? Deve ter seus motivos...


Me veio uns pensamentos. E se fosse ao contrário? Vixe... Tem gente mais braba no trânsito que eu, mas também não sou aquela calmaria toda. Sei que não deixaria meu para-choque chegar tão perto. Ia esperar minha vez em vez de molestar. É assim mesmo, eu sei, tem hora que a paciência tem ir na frente. Já esperei demais por trás de caminhão com criança chorando no banco de trás.


E se o sujeito da frente tá levando uma grávida cheia das contrações. Sei lá, pode ser que esteja carregando um monte de vidraria. Ou então, apenas belezeando as vistas com o brilho das luzes da capital. Ah, também pode estar carregando uma filhote de cão pela primeira vez, né?


Aprendi um bocado dessas coisas com meu pai. Quando for virar, feche bem a curva para que sua traseira não impeça a passagem do outro. Vai parar no cruzamento? Chegue perto do meio fio. O outro pode entrar e fazer a curva sem dificuldades. Está mais lento? Use a faixa da direita. Quem precisar de pressa passa sem competição. Deixa ir... cada um no seu tempo. Se o sinal fechou, reduza lentamente para não incomodar o passageiro. A luz esverdeou? Arranque rápido (não precisa cantar pneus) para tudo fluir. É bom pra você, é bom para todos...


Ah, só pra dizer, chegamos bem. Eu, Kira e sua mãe.


Assim a vida! Um toque de paciência...


 

Atualizado: 26 de mar. de 2025

Gielton



A casca de banana e a balança judiciária


Narração em vídeo


O semáforo ficou vermelho. O giro das rodas foi diminuindo gradativamente. Tudo normal, trânsito leve, sem pressões. O horário, escolhido a dedo, era a razão.


De repente, do carro à frente, objetos voam até a calçada. Será que foram lançados pelo passageiro? Não acredito!


Fixei o olhar para me certificar. A idade embaçou minha vista de perto, mas, àquela distância, identifiquei com nitidez. Eram cascas de banana. Pensei alto: que absurdo! Continuei pensando pela língua: será que não tem miolos na cabeça?


Meu primeiro impulso foi largar o carro no meio da rua, sair, caminhar até a calçada e, calmamente, recolher as cascas. Na volta, olhar fixamente para o arremessador, em tom de julgamento. Ou então, atirá-las com força pelo vidro do passageiro. Seria uma lição!


Só que... Meu termômetro da indignação subiu junto ao do medo. Ponderei: e se ele portar alguma arma? Quem faz esse tipo de coisa não é flor que se cheira. Nos dias de hoje...


E se algum transeunte escorregasse? Seria um bom motivo para dar uma bronca daquelas de deixar o outro sem ação. Queria um pretexto para sair da Inércia. Passou um homem de calça jeans. O fone grudado ao ouvido e o balançar do corpo indicavam uma profunda viagem musical. Nem se tocou. Uma senhora grisalha passou raspando nas cascas e continuou seu caminho. Poucas chances de alguém deslizar.


A saliva secou na garganta.

Seu "bunda mole", faz alguma coisa? Vai deixar barato? Diante de seu nariz, tamanha atrocidade ficará impune? A essa altura, já torcia para a lanterna do sinal trocar para a cor verde. Livre-me dessa agonia, por favor. Vou embora disfarçado de "nem te vi".


A fila andou. O veículo da frente, o mesmo do lançamento das cascas, em vez de arrancar, estacionou. Estranho! Será o que estou pensando? Me movi bem devagar e espiei pelo retrovisor. A porta se abriu. Uma mulher desceu do carro, foi até a calçada e recolheu o tal invólucro da fruta.


Segui pensativo…


Assim, a vida! Tanto a aprender em cada instante.


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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