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  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 3 de mai. de 2023

Gielton





E lá vem ele, de novo, falar dos netos! Vai gostar...É que o dia foi tão especial! Não resisti.


Quase madruguei na casa da Malu. Estava em uma soneca profunda quando cruzei a porta. Permaneceu em sonho enquanto a mãe partia para seu compromisso matutino. Meu papel era aguardar, mas tínhamos hora marcada.


É, o jeito vai ser acordá-la. Ficará brava ou mal humorada? Reclamará pela mãe? Ai, vamos lá.


— Maluu!


Disse bem baixinho. Remexeu!


— Vamos acordar, menina?


Sussurrei de novo cutucando suavemente sua barriguinha. Espreguiçou abrindo os olhos. Me viu. A reação foi um sorriso aberto e logo apontou para o móbile no alto.


— Que lindo! São os brinquedos da Malu?


Exclamei.


— E o beijo do vô?


Chegou pertinho para me presentear.


Foi tão fácil. Me senti amado!


Elegeu o macacão amarelo estampado de bichinhos e descemos na promessa de buscar o José, seu primo, mais do que amado: venerado.


Aceitou de boa o cinto da cadeirinha - avô tem "uma moral"!.


O encontro com José foi amoroso. Pulou no meu pescoço. Agarrei-o com força até os corações se tocarem. Esplêndido afeto tecido com fios de ouro ao longo desses quase cinco anos. O menino está crescido.


Bikes no carro, partimos.


Ao volante só escutava gargalhadas no banco de trás. Os dois vieram numa sintonia, numa "risaiada", numa tagarelice... Eu quase não me cabia. Facilitar essa benquerença, essa conexão, essa proximidade é perpetuar laços e memórias na direção da eternidade.


Um dia, há algum tempo, José surpreendeu.


— Vô, agora que eu tô grande vamos passear nós três. Eu vou na minha bike e você leva a Malu na cadeirinha.


Crescido e autônomo, cedeu seu lugar à prima mais nova no banquinho da bike onde desfrutou longas e deliciosas "bicicletadas" comigo. Muito lindo! Ele pode até ter esquecido, mas eu não...


Ajeitei tudo para pagar a promessa e desenhar a realidade com o pincel do sonho. Antes, porém, alguns combinados.


— José, fica perto de mim. Não atravessa nenhuma rua e blá, blá, blá...


Avô tem "uma moral" danada. Porquê será? De fato, foram apenas dois quarteirões em calçadas largas e pouco movimentadas até a praça. José brilhou!


Aí nos esbaldamos. O neto se mostrava. Em pé na bike pedalava com destreza. Às vezes brecava repentinamente derrapando a roda traseira. Ziguezagueava serpenteando os obstáculos do largo. Enquanto isso, Malu do alto de seu trono herdado, vibrando perto do meu coração, admirava. Nos amamos enquanto o Sol traçava aquele pedaço de céu.


Fico pensando: de onde vem e como cabe tanto amor!


Assim, a vida. Netos? Das melhores coisas que aconteceram na minha vida.


 

Atualizado: 3 de set. de 2025

Gielton





Línguas lânguidas se emaranharam e o tesão ardente subiu dos pés às partes. Desceu do sussurro ao pé do ouvido até entre as pernas. Aquele beijo era apenas a preliminar das preliminares. Dos amantes, nem te conto onde mais as línguas perpetraram.


Nem percebemos, mas a língua se estica para receber a colherada. É o começo do saboroso lamber os beiços, ou dissabor do tempero apimentado. Há quem goste! De garfo em garfo conduz a vianda a preencher o vazio da fome. Em muitos esse vácuo é rotina...


Essa tramela fala, dá dicção e sotaque. Respeita territórios e reafirma convicções. Deita-se sobre a boca ou enrola-se no céu para pronunciar. Vibra para "ra", relaxa-se para "pa", mas trava quando a frase é dita rapidamente. Nem tempo de ir e vir tem, para no frigir, exprimir espremendo-se aquilo que deveria ser dito. Os línguas presas que o digam!


Há quem tem a língua tão comprida que após a morte precisará de dois ataúdes. Um para a pessoa e outro para a própria língua. Dizem as más línguas que esse tipo de gente é língua de cobra e não mede em colocar a língua nos dentes. E mais, suas línguas afiadas cortam como facas. Detalhe, para os dois lados.


Ai que ardência quando se queima a língua no café quente na beirada da xícara esmaltada. Os línguas de trapo dizem que não esquenta. Mentira pura de perna curta e língua de fora para zombar do bobo que acreditou como pateta.


De tudo que ela dá ou tira "pagar língua" é o mais lucrativo. Não necessita poupança, basta humildade. Exige reflexão e mudança de ótica. Alterar ângulos. Abaixar ou inclinar para que os mesmos olhos enxerguem o que antes era sombra. Acionar outros sensores e fisgar a velha rigidez escondida no fundo do baú.


Às vezes é preciso apanhar. Tipo, socos que a vida dá. Manter o discurso e a ação costuma piorar as coisas. Ficar na berlinda é sinal. Percebe quem quer. O preço pode ser alto e na queda a decepção pode esmagar a língua. Para tudo há paliativos, mesmo para língua mordida.


Mas, se reconhece o erro e transforma, a evolução é certa. O caminho se abre em trilhas inimagináveis. Abranda o custo que agora cabe no bolso, na mente e na consciência. Aí, sai barato pagar língua!


Assim, a vida! Quem nunca pagou língua põe o dedo aqui (que já vai fechar).


Imagem do post em <https://pin.it/5AwcTU6>

 

Atualizado: 3 de mai. de 2023

Gielton





O trabalho online foi interrompido por uma gritaria danada lá fora. Largou o computador. Inclinado sobre o beiral da janela espiou.


O rapaz abandonou o carro no meio da rua. Desceu, com aquela valentia toda, e foi em direção a uma mulher na calçada berrando feito louco.


— Eu vi! Você já está com outro... Que merda! Acabo com sua raça.


Ela, apavorada e indefesa, com as mãos em oração suplicava.


— Calma, calma.


Com seus trinta e poucos anos, transtornado como barata tonta, parecia não ter domínio sobre sua própria razão. Era como se um estrondo em volume ensurdecedor tomasse conta de sua audição. Uma luz sobrenatural ofuscasse sua visão. Um beliscão absurdo lhe anestesiasse. Incapaz de ouvir, ver e perceber permanecia atônito.


A coisa tomou outro rumo quando voltou com um taco de baseball escondido no veículo que ainda atravancava o trânsito. Em passos largos e apressados partiu, agora armado, para o ataque de nervos que poderia ser fatal.


Gritos de horror, misturados a pedidos de socorro eram acompanhados de "chamem a polícia". A vizinhança pavorosa sentia o prenúncio de um trágico fim.


Foi quando, no meio do caminho, o valentão levou uma rasteira de dois transeuntes, entre os vários que pararam para assistir tamanha estupidez. Uma intervenção providencial. Sensata. Que alívio! Salva no último badalar do gongo.


Imobilizado e sem reação sentou-se ao meio-fio. A intrepidez deu lugar à humilhação. Apoiou a cabeça entre as pernas e chorou de derramar baldes de imaturidade. Não havia auto-imagem que revelasse tamanho desatino.


Pele branca, de "boa" aparência, cabelo liso de corte curto tradicional, bom tênis, camisa de marca, largou todo o seu constrangimento e mostrou publicamente sua fragilidade emocional. Uma criança no porte de adulto. Um indefeso mental, sem lógica, sem respeito, sem noção.


Como um farrapo humano de sentimentos aflorados e descontrolados repetia entre soluços.


— Vocês não têm ideia do que estou passando... Vocês não tem ideia do que estou passando...


Não temos mesmo, meu caro. Sua dorzinha de macho ferido é ridícula. Seu estardalhaço possessivo um fiasco. Seu destempero um buraco sem fundo. Pena? Não! Que honra é essa que lhe autoriza tamanha atrocidade? Encolha-se à sua insignificância. Vá se tratar!


Os monstros andam à solta. Não são mulas sem cabeça, lobisomens, curupiras, ou boitatás que povoaram nossa imaginação infantil. Têm carne e osso, são reais, estão por perto e são perigosos.


Assim, a vida! Até quando?...


Imagem do post em <https://pin.it/2SkLWx4>

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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