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    Gielton

Gielton




A Lua arredondada espiava lá de cima. Bem de perto uma estrela brilhante acompanhava seu movimento. Qual seria?


Cá de baixo sua branquitude nítida desvendava mistérios de uma grande celebração. Que combinação!


A reza conduzida por mulheres de força espiritual transcendente reverenciava, no sincretismo, a santa: Nossa Senhora do Rosário.


A pequena procissão em círculo passou para beijá-la e, assim, receber a graça em vida e morte aclamada por vozes de potência sobre-humana!


Enquanto isso, a fogueira ardia. Toras de madeira inflamadas cintilavam clareando o entorno e aquecendo os coros dos Tambus dispostos ao redor da quentura.


A bandeira em mastro era elevada por "músculos másculos" ao som afinado de cantigas: "Tá caindo fulô". Quanta simbologia, quanta crença, quanta aproximação com outas dimensões.


No céu, a tal Lua dava seu tom de alegria que, oposta à fogueira trazia cores de tom avermelhado à linda bandeira, agora de pé. Os vivas aclamavam a santa adorada.


Ao som dos Tambus, tocados por mãos carinhosamente firmes, a multidão de turistas, como eu, sente a vibração e força dos ritmos. Esses, sim, ondulam o terreiro, especialmente cuidado nessa data, e transmitem aos corações ali presentes toda a sua bondade.


Evocados os cantos que expressam a beleza e dureza de um cotidiano vivido pelo povo local, nos fazem refletir sobre a herança dessa tradição vinda de remotos tempos de muito sofrimento do povo negro.


De portas, janelas e corações, a "Casa Aberta" acolhe com caldos, chás e quitutes, preparados a inúmeras mãos com o esmero que só elas conhecem. Os turistas adentram a cozinha e servem-se desse alimento para além do corpo. Energia que se transmite nos olhares e sorrisos de quem deu seu melhor para aquele momento.


A madrugada já avançava pela noite quando nos despedimos de Nossa Senhora do Rosário. Estupefatos com tamanha recepção e generosidade dessa gente que carrega na alma coletiva a força ancestral, nos retiramos em silêncio.


A Lua, ainda soberana, clareou nossa rota pela estrada de terra batida ao som distante das batidas dos Tambus que prometiam festa até o amanhecer.


Até a próxima!


Assim, a vida! Obrigado Nossa Senhora do Rosário!


 

Atualizado: 27 de jun. de 2025

Gielton

Desenho a mão de uma pessoa no convés de um navio


Às vezes a gente só quer silêncio, você me entende?


Deixei a dor penetrar e adentrei em mim. Não quero conversa. Falar, não quero. Amuei!


Convergi aos afazeres. Dessa vez, labor com as mãos e ferramentas. Claro, na tarefa há pensamentos, formas, sequências. Estas, perpassam o humano em todas as suas dimensões.


O estado de espírito afetou-se. Apelei com a mangueira vazia que insistia em enrolar-se. Como eu, embrulhado em mágoas e atado ao ontem, fiz do remorso meu modo. Triste perdurei, enquanto o tempo precisava.


Virei-me na cama. Do lado preferido enconchei-me a mim mesmo. As mãos aquecidas entre as coxas não diminuíram a frieza desolada do estar. Bateu saudades de quem se foi há pouco. Inerte e melancólico deixei algumas lágrimas molharem o travesseiro.


Não me lembro dos sonhos, mas clareei mais disposto. Brinquei com a cadela e testei meu invento regando hibiscos novos recém-mudados. Catuquei, mexi e virei. Entranças de um novo dia.


Nada de falar ainda. Não quero. Fiquei no trivial, no estrito, nada mais do que o inescusável. O baque fora grande. Ainda recuperando da "traulitada".


Li. Li Riobaldo. Estremeci com suas filosofias. Continuei lendo. Páginas voam em asas de papel e palavras encharcam nosso estado — amálgama dos bons ares. Seus dramas, digo de Riobaldo, eram outros, diferentes dos meus, mas alentaram. E como!


Fui me redimindo. O coração acabrunhado e encolhido soltou levemente as amarras, como se fosse possível navegar novamente. Ainda dói, mas a desesperança, que antes era corpo todo, agora é só ponta de braço — esvai-se pelas bordas dos dedos igual raio em descarrego.


Encontro-me aqui com polegares em frenesi, de letra em letra, buscando aquilo que o sentir sente. Difícil tradução. Confusa sensação. Nem sei a língua que fala.


Deixo a pálpebra sobre os olhos esmaecer a claridade. Entorno em mim. Ainda perturbado, estremecido e tenso, enxergo por dentro um aguardo de dias melhores.


Assim, a vida. A letra que salva.

Imagem do post em <https://pin.it/60ZcaRL>


 

Gielton



A vida se encarrega dos próprios encargos. O peso leve, sem cruz a carregar, traz de volta o que nunca se foi.


Estou em fase de reflexão. Fatos me fazem pensar. Emoções me fazem sentir. Transformações têm afetado meu estar. Um estar orgulhoso em um mundo carente de filosofias.


Meu caçula está indo... Pintou seu próprio lar com as cores que apetecem o casal.


A primogênita saiu primeiro para entrar em sua própria vida e fecundou dentro de si.


O segundo encontrou sua companheira, ali pertinho, para erguer sua linda família.


É hora de estarmos sozinhos. Eu e ela. Ela e eu. Parece solitário? Um pouco, mas não tudo.


Em épocas, como as de hoje, em que o debaixo das asas promete segurança, ocupantes inseguros, como em casulos, permanecem imaturos. Encapsulados, sentem medo, vergonha e escassez de coragem. Na dúvida, melhor não arriscar. Os filhos vão ficando, vão ficando... A vida vai indo, vai indo...


Vejo um quarto vazio e sinto meu coração inflar de orgulho. Encarar o mundo de frente, estufar o peito, reunir os centavos para administrar os boletos e escolher essa porção da vida a enfrentar, são elementos que elevam a dignidade.


Estou feliz por eles. Esperançoso. Envaidecido com os pais e mães amorosos que se tornaram. Feliz pelos netos ao redor. Por essas pessoinhas que nos tiram do sério e brincam com o íntimo de nossas crianças.


A sensação de uma das missões cumpridas não diminui os aprendizados futuros. Pelo contrário, ampliam o compromisso de continuar furando a mesmice. Contornar a trilha predefinida, esvaziar o consumismo que nos consome, limpar as crostas que dificultam o fluir são apenas formas de elevar as vibrações do nosso mundo. Ah, como é preciso!


Agradecido, permaneço.


Assim, a vida! Do vazio ao cheio há esperança.


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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