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  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton



Meu pai nasceu em Conceição do Mato Dentro, interior das Minas Gerais, em 1921. Era branco, da pele muito clara, quase albino e de olhos azuis. Porém, se gabava do cabelo crespo, grosso, duro e anelado, herdado de um bisavô negro. Mantinha-o sempre muito curto, bem rente ao coro cabeludo, penteado para trás. Na época era comum os homens portarem uma escova de bolso. Uma alça para encaixar o dedo do meio, mantinha-a firme na mão. Era usual ver alguém sacando sua escova, assim, no meio de uma conversa, e dando um trato na juba.

Era um homem de visão além do seu tempo, ao contrário do nosso vizinho de frente, pessoa dura, rigorosa e inflexível. Com os filhos então, nem se diga. Certa vez, da janela de fundo, observei seu filho descendo o morro do Grajaú numa correria desenfreada. Seu pai o esperava de cinta na mão. Não sei o motivo, mas me lembro da tristeza que senti por ele pois, nesse dia, levou uma surra daquelas, apresentada em forma de show para toda a vizinhança. Doeu forte em meu coração o sofrimento daquele garoto ao som de choros e gritos retumbando com cinto que franzia como um chicote.

Em uma manhã ensolarada meu pai lavava sua Vemaguet azul escura, quando o tal vizinho lhe aborda.

– Ô Zé Rosa, você lavando carro com dois homões dentro de casa?

– Calma, cada coisa no seu tempo. Em breve o farão por si só e com o maior prazer.

Dito e feito. Na adolescência estabeleci um ritual bem demorado. Primeiro lavava a Vemaguet com água e sabão. Depois passava cera em todas as partes. Esperava secar e, em seguida, lustrava, no muque, com uma estopa. Trabalho pesado que fazia com gosto. A recompensa? Uma voltinha no quarteirão pilotando a Vemaguet.

Eu sempre gostei de carros. Acompanhava meu pai na troca de óleo no Seu Jair. Nessas ocasiões o enchia de perguntas sobre o funcionamento do motor, da embreagem, das marchas. Ele explicava com o maior orgulho. Na verdade, não entendia tudo mas, antes de aprender a dirigir, já sabia um bocado sobre automóveis.

Brincava de simular a direção enquanto meu pai pilotava. O ar era o volante. Punha as duas mãos à frente do peito com os braços esticados e girava para um lado ou para outro acompanhando as curvas do trajeto. Idealizava o câmbio com a mão direita e os pedais tentando realizar essas manobras ao mesmo tempo em que meu pai conduzia. Adorava essa brincadeira!

Era um domingo. Eu tinha uns doze anos de idade. A Vemaguet estava estacionada. Meu pai me chama e pede para tirá-la da garagem. Era craque em dar a partida mas, dirigir de verdade mesmo, nunca. Relutei dizendo:

– Acha mesmo pai? Será que consigo?

O portão da garagem era grande e largo. Mesmo assim, era preciso boa noção espacial para não esbarrar. Eu, que mal alcançava os pedais, pouco conseguia ver do entorno. Sabia tudo o que fazer em teoria, mas pegar aquele carrão de verdade era outra coisa.

Ele insistiu.

– Vai que você consegue.

Entrei, liguei a Vemaguet, debreei e, movimentando a alavanca presa ao volante, engatei a primeira marcha. Fui acelerando lentamente enquanto soltava a embreagem. O carro andou devagarzinho. Virei o volante e saí da garagem, lateralmente ao muro da casa.

Consegui! Desci do carro feliz e satisfeito pelo feito inédito. Afinal, era a minha primeira experiência no volante. Só que o carro ficou atravessado na rua. Seria necessário mais uma manobra. Meu pai disse.

– Entre novamente, coloque a ré e acerte.

Previ a dificuldade e disse:

– Não sei se consigo!!!

Ele insistiu.

Entrei de novo no carro e engatei a ré puxando a alavanca para dentro e depois para cima. Quantas e quantas vezes fiz isso na imaginação. Mas agora era de verdade e o declive da rua tornava a operação ainda mais complexa. Imagine alguém que nunca havia dirigido dar uma ré na subida! Na primeira tentativa o carro morreu. Meu pai instruiu.

– Assim que tirar o pé do freio, acelere rápido e solte a embreagem devagar.

Fácil falar, mas vai fazer. De novo o carro morreu. Enquanto a vizinhança rodeava a Vemaguet tentei convencer meu pai de ele mesmo manobrar. Ele insistiu. O carro morreu de novo, mais umas três vezes. Na quarta ou quinta tentativa, acelerei mais e quando soltei a embreagem senti um tranco mais forte . TEC!!! Desci do carro todo envergonhado sob o olhar dos muitos à minha volta. O estrago era grande e sem conserto para um dia de domingo. Tim, um dos vizinhos, entendedor de carros e caminhões, anunciou.

– Ele quebrou a cruzeta!!!

 

Atualizado: 11 de dez. de 2019

Gielton




Escorregou ventre abaixo e fluiu para o mundo. Trouxe consigo esse jeito arredondado de tratar a vida.

A capoeira caiu como uma luva e, na juventude, a vestiu . Tomou-a para si. Virou estilo de vida.

Aproveitei a deixa e, em canção, fiz essa homenagem ao filho do meio.

Te amo Tu!!!

 

Atualizado: 18 de set. de 2025

Gielton


Bicicleta Monareta antiga


Arthur Souza Matos, dele, lembro nome e sobrenome. Fomos colegas desde o grupo escolar até o 2º grau. Morava no Prado, bairro vizinho — mais chique, mais longe da favela, mais elitizado. Ficava do outro lado da Av. Amazonas.

No início, meu pai me conduzia, mas, em pouco tempo, ganhei autorização para caminhar sozinho. Feito uma criança boba, pisoteava folhas caídas, chutava castanhas — absorto, como se o tempo fosse desnecessário.


Nessa época, Arthur já possuía sua bicicleta. Apesar de toda generosidade, tinha inveja da sua magrela. Foi nela que aprendi a me equilibrar em duas rodas. Poucos devem ter sido os tombos, pois deles me esqueci. No entanto, a fissura pela bike é viva ainda hoje em meus afetos.

Ainda me pergunto, o que tanto me atraía? Talvez a magia do equilíbrio precário. Ou a sensação de liberdade pelo vento no peito. Só sei que o desejo de ter a própria bicicleta crescia a cada dia.


Nunca passei fome, mas na minha casa, tudo era muito regrado. Sonhar com minha própria bike era um despropósito absoluto. Chances mínimas, pois dezenas de prioridades ocupavam o topo da lista.



Há lembranças que, como pedras no leito do rio, resistem ao fluxo do tempo.

Estava na casa dos Cainãna. Era um fim de tarde, véspera de Natal. Brincávamos de... nem sei o quê. Provavelmente, forte apache! De repente, me convocaram por cima do muro.


— Ô, Gielton! Mamãe tá te chamando!


Subi as escadas “num pau só”, tamanha a raiva que senti. Que saco! Já estou de férias. Só falta minha mãe mandar catar matinhos na horta.


Adentrei o alpendre esbravejando.


— O que foi? Precisava gritar desse jeito?


A voz foi amolecendo. A cara de bravo deu lugar à expressão de surpresa, com um leve suspender de sobrancelhas. De repente, os passos passaram ao modo câmera lenta. Fui entendendo devagar, ficha caindo, olhos marejando até que...


Lá estava ela. Uma Monareta dobrável, verde-claro e novinha em folha. As rodas pequenas combinavam com o quadro ultramoderno. Ela brilhava tanto quanto meus olhos. Olhos castanhos que se esverdearam com o reflexo de sua pigmentação.

O queixo caiu. O coração disparou. Perplexidade. Algo indescritível — um zumbido ao longe — me tirou do ar. Tinha uns treze anos e confesso: foi o melhor presente da minha infância.


Reunidos em torno da bicicleta vieram as regras e restrições. Primeiro, a bicicleta não era minha, era nossa, dos três irmãos que teriam direitos iguais. Segundo, andar só na nossa rua. Terceiro, quarto... Já nem ouvia mais.


Peguei a bichinha e dei a primeira volta. Desci e subi a rua exibindo toda a minha destreza com a máquina. Foi paixão à primeira pedalada. Felicidade é pouco para medir a largura da emoção.


No início tive mesmo que dividi-la com os irmãos, mas passada a euforia inicial, a assumi como minha, tanto no tempo que permanecia montado, quanto nos cuidados. Aprendi a desmontar e montar todas as suas peças: ajustar o freio de borrachinhas, engraxar as esferas das rodas… Torcia, encaixava, apertava e desapertava parafusos como um mecânico de verdade.


Foram anos de peripécias em cima dela. Tornamo-nos amigos inseparáveis. Com ela, extrapolei limites de velocidade e explorei horizontes geográficos proibidos. Um dia, escapuli de casa e, com alguns amigos, fui baixar em Betim. A bronca foi do tamanho da viagem.


Meu corpo cresceu, as pernas ficaram longas para aquelas rodinhas e os desejos foram mudando de lugar. Agora, o coração palpitava por outras formas de amar.

A Monareta foi mais do que uma bicicleta. Foi meu passaporte para o vento. Não sei onde foi parar, em qual ferro velho foi enterrada, mas sei que ainda pedalo em suas lembranças.


Assim, a vida. Feita de vento, rodas e memórias.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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