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Gielton

Meus pais sempre foram muito organizados. Mamãe gosta, até hoje, de cada coisa no seu lugar. Tirou, voltou. Ai se deixar fora do lugar!! As decisões eram tomadas em conjunto e havia coerência. Não dava para fazer aquele jogo de criança: “Vou pedir ao papai, que ele deixa”. A resposta de ambos era sempre a mesma: vamos conversar primeiro para ver.

Não éramos pobres, nem passamos fome, mas tudo era regrado. O bife do almoço? Um para cada. Maçã? Só quando ficava doente. Refri, só nas festas. Brinquedos? A gente tinha que esperar um ou dois meses, ou até anos, para ganhar, quando o dinheiro economizado desse.

Quando percebi, com oito anos de idade, eles já tinham comprado a casa própria. A pensão familiar já tinha cumprido seu papel, os primos já formados. Vida nova que começava na Nova Granada. Infância feliz que se anunciava, não sem seus problemas de adaptação. Era uma casa grande, três quartos, sala e copa. Descendo as escadas da cozinha, havia um quintal. Nem tão grande, pois era um lote normal, mas para mim era enorme. Brinquei muito de caubói no milharal que minha mãe plantava. Eram árvores gigantes, dava até pra gente se esconder. Dos milhos verdes, mamãe fazia um delicioso mingau. Eu vivia tirando pedaços, na geladeira, às escondidas. Ah, se minha mãe me pega! Não gostava quando ela doava vasilhas do mingau de milho verde para parentes. Queria tudo só pra mim.



O bairro era longe pra caramba. Nossa rua era a última, de terra batida. Ainda não tinha esgoto. Meu pai cedia água para os vizinhos do fundo, onde a Copasa ainda não tinha canalizado. Havia um único acesso, que dava uma volta grande pela avenida Amazonas. Às vezes, ficávamos horas esperando o ônibus para ir ao centro da cidade, morávamos praticamente no interior. Os vizinhos se conheciam e se ajudavam.

Depois de longa espera e custo bem alto, adquirimos um telefone fixo, que era partilhado com todos. Ao lado, gritávamos, "Nai, telefone!” Em frente, mamãe pedia: "Gielton, chama a dona Gracinha para atender o telefone..." Todo mundo conhecia todo mundo.


Hoje seria chamado de bullying, mas, no meu tempo, era brincadeira de criança. Logo que mudamos, me apelidaram de "pó de arroz", por ter a pele um pouco mais clara e pela minha fragilidade. Tinha só oito anos e, por mais descolado que fosse - até ia de ônibus sozinho para o grupo escolar - não tinha as manhas dos meninos da rua. Odiava esse apelido. Às vezes, me debruçava na mureta da escada da cozinha, que dava para o quintal. Dali podia ouvir quando algum moleque, passando na rua, me via meio que deitado no corrimão e gritava: “ô, pó de arroz!” Nossa! Meu sangue fervia...


Ao lado da nossa casa, muro com muro, moravam várias famílias em barracos alugados. Dentre elas, a do Seu Zé, carroceiro. Isso mesmo, ele tinha uma carroça e prestava serviços de transporte de todos os tipos de materiais na região. Tinha vários filhos. O Raimundinho, um pouco mais velho do que eu, baixinho e patola, que, nessa época, já ajudava o pai com a carroça. O Edinho, mais novo que eu, e o Zé, mais velho que os dois e com problemas mentais. Ele não batia muito bem da cabeça, não falava coisa com coisa, mas não era agressivo. Tadinho, foi foco de muitas gozações da turma.


Um dia, descemos todos para o campinho. Deviam ser uns quinze meninos, a maioria mais velha que eu. Provavelmente, por motivos banais, iniciou-se uma discussão que terminou em briga entre eu e o Raimundinho. Já pensou, eu, lutando contra o baixinho musculoso que carregava objetos pesados na carroça do pai? Tô fodido. Não sei o que deu em mim. Enfrentei o colega com tanta voracidade que, depois de rolarmos, engalfinhados, na grama, consegui dar um golpe, imobilizando-o. Estava sentado sobre sua barriga, dominando totalmente a situação. Era a hora de esmurrá-lo com vontade. Ao invés disso, lhe dei três soquinhos, bem de leve, no rosto. Nunca mais me chamaram "pó de arroz".

Revisão: Maria Lucia Pompein Pessoa

 

Atualizado: 25 de abr. de 2018

Gielton

Meu pai foi funcionário público do IBGE. Começou como contínuo. Tinha orgulho em dizer que se aposentou com nível superior, dos mais altos da instituição, mesmo tendo cursado a admissão aos 25 anos de idade. Começou tarde. Minha mãe foi professora primária do Estado.


Nasci em Belo Horizonte, quando os dois tinham uma pensão familiar no centro da cidade. Era familiar mesmo, direcionada ao mundo de sobrinhos da minha mãe que vinham de Sete Lagoas para fazer a faculdade na capital.


Era uma forma de aumentar a renda e, ao mesmo tempo, ajudar à grande família. O apartamento, que ficava em cima da Sapataria Americana, era enorme. Apesar de ter morado lá somente até os oito anos de idade, lembro-me bem da distribuição dos cômodos. Havia uma sala gigante onde eram servidas as refeições. Nós três, os filhos, dormíamos em um quarto conjugado por uma porta onde ficavam nossos pais. Uma varanda voltada para a Afonso Pena atravessava toda a lateral do apartamento. Adorava me deitar no piso dessa varanda e ficar olhando para o céu. Curtia a sensação de estar caindo por conta do movimento das nuvens.



Nos corredores do prédio fazíamos a molecagem de tocar campainha em outros apartamentos e sair correndo na maior alegria. No carnaval, jogávamos água nos foliões que passavam por ali. Tínhamos um velocípede super moderno que, além do piloto, podia puxar um passageiro em uma cadeirinha. Nessa época podíamos, sem medo, dar voltas no quarteirão.




Tive contato com muitos primos nessa pensão. Muitos passaram por lá até concluírem seus estudos e retornarem para Sete Lagoas. Tinha verdadeira adoração pelo Joaquim, chamado primo-irmão, pois seus pais eram, ambos, irmãos dos meus. Minha paixão por ele era gratuita, talvez por ter me dado alguma atenção especial, mesmo que me sacaneasse de vez em quando. Durou até a adolescência quando, já médico, viajamos juntos para Caeté no seu “Chevet todo invocado”.


Uma vez, ganhei um revólver de brinquedo. Estávamos na sala, eu e o Joaquim que topou brincar um pouco comigo. Como só tinha um revólver, ele mesmo sugeriu que fizéssemos um outro de papel. Colocou o original como molde sobre a mesa, desenhou seu contorno e cortou. Achei fantástico, agora teríamos dois revólveres e poderíamos brincar até. Pedi o meu original de volta. Ele alegou que eu deveria ficar com o de papel. Insisti que queria o outro, mas seu argumento me convenceu. Avaliei ser melhor ficar com o de papel e brincar, do que ficar com o de verdade e não brincar.

– Tudo pronto, vamos duelar? – Disse ele.

– Um, dois e já!!!

Fiz a contagem e saquei minha arma rapidamente, antes dele.

– Ganhei, ganhei!!!

Saí comemorando.

Ele olhou para a situação, pensou e disse.

– Você não ganhou, pois seu tiro saiu de lado.

Olhei para a minha arma de papel e percebi que o cano estava torto. Daquela forma não poderia tê-lo acertado. Bati os pés no chão e saí resmungando.

– Assim não vale, assim não vale!




 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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