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Atualizado: 14 de out. de 2025

Gielton


Nó em um arame


O que te fazia sentir adulto aos sete anos?


Foi nessa idade que ingressei no grupo escolar. Via pelo retrovisor da vida a inocência do jardim de infância se afastando. Agora galgaria outros degraus. Coisa séria de gente grande. Até parece! Fora minha dificuldade com a ortografia, até que me dei bem nessa nova fase.


Não me abalei com a vastidão do Francisco Sales. Depois do saguão, uma área aberta rodeada por salas de aula dava o tom da imensidão. Pilares em alto-relevo sustentavam o telhado cujo beiral avançava para dentro do grande retângulo central. Em tempos de chuva seguia pelo corredor, fazia a curva lá na frente para ir ao banheiro. Nada que um menino esperto, com boa visão espacial, não aprendesse rapidamente.


A jardineira listrada deu lugar ao short azul-marinho. A camisa branca de botões, por dentro da bermuda, sombreava o ar de seriedade. O sapato preto e as meias da mesma cor alcançando os joelhos, compunham a aparência de retidão. Além do uniforme ultra bem passado, minha mãe penteava meu cabelo encaracolado para o lado, como se fosse possível domá-lo. Saía de casa um brinco.


A merendeira vermelha com orifício para a garrafa de suco herdei do jardim de infância. Ganhei uma maleta com alça e fecho de fivelas, além dos lápis de cor, da régua, da borracha e dos cadernos. Estes últimos, primorosamente encapados pela minha mãe. Impressionava-me sua habilidade em cortar o plástico, dobrar os cantos e colar o durex. Ficava lisinho, sem rugas, como minha pele.


Meu pai era quem me conduzia logo depois do almoço. De casa até o ponto de ônibus era um pulinho. Ele acenava. A lotação parava. Ouvia o chiado da porta traseira se abrindo. Minha perna mal alcançava o degrau. Subia segurando-me nos corrimãos. Algumas vezes passava debaixo da roleta, outras, formava um corpo único com meu pai para atravessá-la. Havia um decreto tácito: "criança não paga".


Quase sempre escolhia a janela. Mas logo me punha de pé com o rosto colado no encosto do banco da frente. Viajava na paisagem. Pessoas transitando entre lojas, algumas muito famosas, como a Mesbla e a Galeria do Ouvidor. Carros espremidos entre ônibus. Motocicletas tirando fina. Uma confusão de pedestres...


Atentava-me preferencialmente ao interior. Encantava-me o trocador. Não sei por quê, mas considerava nobre sua profissão. Nada a ver com o dinheiro que recebia. Talvez por sua visão privilegiada.


Admirava o motorista que, a cada parada, acionava o sistema de abertura das portas. Em movimentos bruscos e coordenados mexia a alavanca das marchas a todo instante. Ficava pensando, "quanto domínio!"


O volante, maior que seus braços, exigia esforço para girar. Era preciso vergar o corpo e firmar os pés para manter o veículo na curva. Tudo muito concatenado... O motorzão no meio era estupendo, apesar de barulhento.

Quando posto a funcionar, o limpador de para-brisa me hipnotizava. Ficava paralisado vendo a borracha deslizar sobre o vidro em um vai e vem lento, arrastando gotículas e desanuviando as vista. Fantástico!


Ao lado, meu pai apontava destaques pelo caminho: "Olha, essa aqui é a Amazonas". Com pouco tempo, dominei o trajeto. Descíamos no segundo ponto depois do JK. Aí, era só atravessar a rua.


Minha mãe quase matou o meu pai quando ele revelou que havia me deixado ir sozinho para a escola. "Você é doido? Ele é uma criança!" Sentia-me digno da confiança do meu pai e seguro da minha capacidade. Sabia exatamente o ponto de descer. E no mais, atravessar a rua não era problema — havia sempre um guarda garantindo a passagem dos estudantes.


Mas tinha um medo que nunca revelei. Quase pavor que me perturbava como uma turbulência em pleno voo: e se ninguém puxasse a cordinha para acionar o sinal de parada? Ela era alta — mesmo esticando ao máximo, meu braço não a alcançava.

Em pé, perto da porta, calculava quem esticaria a cordinha — um suspiro de esperança a cada rosto que mudava de lugar.


A espera parecia não ter fim até o último segundo quando alguém se levantava, segurava a cordinha e, para alívio da aflição, soava o "peeennn".

Os ombros relaxavam. A tensão se dissipava. O medo? Esse, sim, voltaria no dia seguinte junto com o arruído do amanhecer da cidade.


A vergonha, como um caracol em sua concha, jamais sairia de dentro para suplicar: “Por favor, você poderia dar o sinal para mim?” Quantas vezes ensaiei… Quantas vezes estive à beira de pronunciar… Era como se um nó na garganta travasse a voz.


Tive a sorte de ter um anjo da guarda de plantão sempre cuidando de mim. Ele nunca faltou!


Assim, a vida. Crescemos, mesmo sem saber.

 

Atualizado: 3 de set. de 2025

Gielton




Folhas de plantas ao por do sol


Estive hoje em um velório. Caminhando sobre a grama, antes de alcançar o saguão, o bailado de uma folha me resvala o nariz. Segue sua dança como se tocar o chão fosse uma mera consequência. Este átimo da natureza trouxe consigo uma aura em forma de pensamentos: seria a morte arbitrária? É justa a vida?


Poxa, há tantos casais estranhos, que se esbarram em cada esquina, cujos olhares são como pontas de uma lança atingindo âmagos. Logo ele que, junto a ela, brilhavam em uníssono. Cantavam as mesmas notas em harmonia como o violino e o violoncelo. Partilhavam o fluxo com tanta leveza e profundidade.

A morte é um refletir-se sobre a vida. E se fosse comigo? E se fosse eu quem continuasse ou deixasse minha amada?


Talvez pediria como Noel Rosa.


"Não quero flores

nem coroa com espinhos

só quero choro de flauta

violão e cavaquinho"


Dei alguns passos para fora e aquietei-me em um canto. Encontrei um lugar onde meu corpo sofresse menos peso. Deixei as pálpebras caírem e os cílios, feito uma cortina de rendas, trazerem uma leve penumbra. É necessário tempo para sair de um mundo e entrar em outro. Aos poucos fui me deixando.


Os sentidos aguçados tornaram estrondosos os sons do hall. Um borbulhar de gente papeando. O perfume adocicado das coroas de flores se misturava ao cheiro do café. Um ranger de cadeira cortou o ar. Não havia notado até então os risos de encontros entre velhos amigos.

Mesmo assim, fui indo. Para dentro ou fora de mim? Nem sei…


Quando os ouvidos não mais distinguiam os sons em forma de matéria, escutei algo vindo da curva do pensamento.


“A película do filme da vida é translúcida. A visão não capta sentidos, apenas silhuetas. O essencial se esconde nos interstícios: no que se perde, no que não se pode nomear.”


Assim, a vida. Não se explica: atravessa.

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 19 de jan.

Gielton


Estou com uma vontade danada de escrever sobre Zé Pequeno — igual coceira que não cessa, mesmo quando as unhas ferem a pele. É como me sinto, machucado por dentro, arranhado pelos baques da vida.


Queria registrar todos os momentos e guardar tudo, bem guardadinho na memória, para que nenhum detalhe escape, nenhum instante se perca no turbilhão do tempo.


Assim, meio desvairado, vou revivendo algumas de nossas inúmeras parcerias.


Ah, o café da manhã era quase sempre compartilhado. Cedinho estávamos de pé. Enquanto coava, seu aroma exalava por cantos inacessíveis da casa. Ele logo percebia, talvez pela roupa que eu trajava, ou pela energia concentrada nos afazeres do dia, que não lhe daria muita atenção naquela manhã. À francesa, voltava para o terraço. Sem graça e cabisbaixo, subia as escadas. Triste recostava em um canto para esquentar um pouco de Sol. Não demonstrava chateação, apenas uma espécie de aceitação sem julgamentos. Lia em meus olhos seu lugar naquele instante.


Quando eu vestia a bermuda, seguindo o mesmo ritual do dia a dia, ele já descia saltitante. Hoje tem pão, ou biscoito cream cracker, ou outra guloseima qualquer. À beira da porta da cozinha ficava atento aos movimentos. Eu, sentado à mesa, lançava o petisco. Aprendeu rápido, desde pequeno, a abocanhá-lo no ar antes mesmo de cair no chão. Quanta agilidade! Nossos reflexos, se comparados, andam em câmera lenta.


De repente, saía em disparada, derrapando tábua a fora, latindo feito louco. Tinha seus arqui-inimigos caninos da vizinhança, como dizia meu filho. Às vezes, ia para a janela de frente, outras, para a lateral e latia feito louco. Depois de muito esbravejar, voltava calmamente para continuar o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Sabia expressar com ferocidade toda sua raiva. Quem nos dera sabedoria para expulsar sentimentos engavetados.


Quase sempre me acompanhava no lanche da tarde. Era no sofá, de frente para a TV, que deitava meu cansaço depois de vencer mais um dia de trabalho. Ele, sentado no chão com aquele olhar de cão pedinte, acompanhava meus movimentos e apanhava no ar seu pedaço de biscoito. Quando dizia, "agora acabou Zé Pequeno", deitava-se conformado ao meu lado para ganhar um afago. Adorava essa troca de carinhos. Sempre soube dar e receber!!!


Grande companheiro!

Saudades de você.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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