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    Gielton

Atualizado: 6 de nov. de 2025

Gielton



Pessoa em balanço sobre o planeta Terra


Você já sentiu seu eixo se inclinar… já se perguntou o porquê?

Gosto de pensar em eixos. Eixos do pensamento que, como um fio, me conduzem a dimensões distantes, a ideias preenchidas em um todo simultâneo.


A Terra, por exemplo, possui um eixo imaginário, é claro, como aprendi com os professores de Geografia, lá pela quinta série. Mas, para que esse eixo? Relaciona-se à sua rotação, ao seu equilíbrio? Afinal, a Terra precisa se manter estável em torno de si. Firme em seu trajeto rodeando o Sol para que a vida transcorra em sua superfície.


Medito sobre meu eixo, imaginário, é lógico. Visualizo-o vertical, iniciando no centro da cabeça, descendo pelo tórax até tocar o sexo. Acompanha meus movimentos, segue comigo onde quer que eu vá. Interage com outros eixos que se afetam mutuamente. Eu que o estabilizo ou ele que não me deixa tombar? Sei lá, talvez um pouco de cada!


Por estímulos banais ele arreda de lado e inclina-se. Pode ser uma frase mal dita, um pedido não atendido, o leve tocar feridas em cicatrização, um sonho, aquele repentino café quente queimando a língua, um tropicão na pedra da trilha... As emoções pesam exageradamente sobre a balança descalibrada. Sei apenas que só percebo tempos depois.


Com o veio pendente e bambo como uma fina corda pendurada, desestabilizo-me. Faço das pequenas coisas armadilhas da alma que, ingenuamente, se deixa capturar como uma presa. Tolhido, o ser interior se contorce e esperneia como um besouro de costas no chão. Entra em transe, em recorrências, gira atordoadamente sobre si mesmo. A gangorra vai e volta enquanto a consciência se transfigura pelo caminho.


Uma noite bem dormida, uma película amorosa, um devaneio, aquele jazz bem executado, seu time de futebol triunfando, sua mulher lhe acarinhando, podem aprumá-lo. O centro se restabelece. Liberta a alma das amarguras de outrora. O outono de folhas secas transmuta-se em primavera florida.


Aí sim, resgato minha essência. Reconheço-me. Encontro o amor dentro do peito e a paz no canto dos pássaros e na fina chuva do entardecer. Uma leve sensação de plenitude me habita.


Esses dias, uma cachoeira me deixou assim, como a Terra que gira suavemente sobre si mesma sem tontear. Deixei a ducha gelada leve como uma pluma, quase sem gravidade, volteando em harmonia com nosso planeta. Enquanto o Sol incidia luz e calor sobre a rocha, meu corpo nu se aquecia.


Assim, a vida. Na corda bamba de um eixo que bamboleia.


Imagem do post em <https://pin.it/CxbMeQQ>


 

Atualizado: 14 de out. de 2025

Gielton


Nó em um arame


O que te fazia sentir adulto aos sete anos?


Foi nessa idade que ingressei no grupo escolar. Via pelo retrovisor da vida a inocência do jardim de infância se afastando. Agora galgaria outros degraus. Coisa séria de gente grande. Até parece! Fora minha dificuldade com a ortografia, até que me dei bem nessa nova fase.


Não me abalei com a vastidão do Francisco Sales. Depois do saguão, uma área aberta rodeada por salas de aula dava o tom da imensidão. Pilares em alto-relevo sustentavam o telhado cujo beiral avançava para dentro do grande retângulo central. Em tempos de chuva seguia pelo corredor, fazia a curva lá na frente para ir ao banheiro. Nada que um menino esperto, com boa visão espacial, não aprendesse rapidamente.


A jardineira listrada deu lugar ao short azul-marinho. A camisa branca de botões, por dentro da bermuda, sombreava o ar de seriedade. O sapato preto e as meias da mesma cor alcançando os joelhos, compunham a aparência de retidão. Além do uniforme ultra bem passado, minha mãe penteava meu cabelo encaracolado para o lado, como se fosse possível domá-lo. Saía de casa um brinco.


A merendeira vermelha com orifício para a garrafa de suco herdei do jardim de infância. Ganhei uma maleta com alça e fecho de fivelas, além dos lápis de cor, da régua, da borracha e dos cadernos. Estes últimos, primorosamente encapados pela minha mãe. Impressionava-me sua habilidade em cortar o plástico, dobrar os cantos e colar o durex. Ficava lisinho, sem rugas, como minha pele.


Meu pai era quem me conduzia logo depois do almoço. De casa até o ponto de ônibus era um pulinho. Ele acenava. A lotação parava. Ouvia o chiado da porta traseira se abrindo. Minha perna mal alcançava o degrau. Subia segurando-me nos corrimãos. Algumas vezes passava debaixo da roleta, outras, formava um corpo único com meu pai para atravessá-la. Havia um decreto tácito: "criança não paga".


Quase sempre escolhia a janela. Mas logo me punha de pé com o rosto colado no encosto do banco da frente. Viajava na paisagem. Pessoas transitando entre lojas, algumas muito famosas, como a Mesbla e a Galeria do Ouvidor. Carros espremidos entre ônibus. Motocicletas tirando fina. Uma confusão de pedestres...


Atentava-me preferencialmente ao interior. Encantava-me o trocador. Não sei por quê, mas considerava nobre sua profissão. Nada a ver com o dinheiro que recebia. Talvez por sua visão privilegiada.


Admirava o motorista que, a cada parada, acionava o sistema de abertura das portas. Em movimentos bruscos e coordenados mexia a alavanca das marchas a todo instante. Ficava pensando, "quanto domínio!"


O volante, maior que seus braços, exigia esforço para girar. Era preciso vergar o corpo e firmar os pés para manter o veículo na curva. Tudo muito concatenado... O motorzão no meio era estupendo, apesar de barulhento.

Quando posto a funcionar, o limpador de para-brisa me hipnotizava. Ficava paralisado vendo a borracha deslizar sobre o vidro em um vai e vem lento, arrastando gotículas e desanuviando as vista. Fantástico!


Ao lado, meu pai apontava destaques pelo caminho: "Olha, essa aqui é a Amazonas". Com pouco tempo, dominei o trajeto. Descíamos no segundo ponto depois do JK. Aí, era só atravessar a rua.


Minha mãe quase matou o meu pai quando ele revelou que havia me deixado ir sozinho para a escola. "Você é doido? Ele é uma criança!" Sentia-me digno da confiança do meu pai e seguro da minha capacidade. Sabia exatamente o ponto de descer. E no mais, atravessar a rua não era problema — havia sempre um guarda garantindo a passagem dos estudantes.


Mas tinha um medo que nunca revelei. Quase pavor que me perturbava como uma turbulência em pleno voo: e se ninguém puxasse a cordinha para acionar o sinal de parada? Ela era alta — mesmo esticando ao máximo, meu braço não a alcançava.

Em pé, perto da porta, calculava quem esticaria a cordinha — um suspiro de esperança a cada rosto que mudava de lugar.


A espera parecia não ter fim até o último segundo quando alguém se levantava, segurava a cordinha e, para alívio da aflição, soava o "peeennn".

Os ombros relaxavam. A tensão se dissipava. O medo? Esse, sim, voltaria no dia seguinte junto com o arruído do amanhecer da cidade.


A vergonha, como um caracol em sua concha, jamais sairia de dentro para suplicar: “Por favor, você poderia dar o sinal para mim?” Quantas vezes ensaiei… Quantas vezes estive à beira de pronunciar… Era como se um nó na garganta travasse a voz.


Tive a sorte de ter um anjo da guarda de plantão sempre cuidando de mim. Ele nunca faltou!


Assim, a vida. Crescemos, mesmo sem saber.

 

Atualizado: 6 de ago. de 2025

Gielton


Pedaço de abóbora




Você também odiava legumes na infância?


Abóboras no carro de boi se ajeitam e se encaixam a cada solavanco. Os pequenos vazios se entrelaçam aos gomos que roçam uns nos outros, tecendo uma rede de contatos ao longo do caminho. Metáfora da vida?


Confesso, quando criança não gostava de legumes, quase nenhum. Preferia o tradicional bife, passado em duas frigideiras pela minha mãe, com batatas fritas, arroz e feijão. A carne vinha com um caldinho especial, bom de molhar o arroz e deixá-lo em tom amarronzado-escuro. Hummm… que delícia!


Abóbora? Nem pensar. A textura não agradava. O formato disforme causava certa ojeriza. O sabor? Esse não descia "nem a pau". Era preciso tapar o nariz para suportar o cheiro, mesmo com o preparo cuidadoso.


Bebês são incentivados a saborear legumes quando colherinhas viram aviões que entram nas garagens de seus bocões abertos. "Iõnnn". Às vezes, aceitam, outras, não. Para as crianças crescidas, as brincadeiras onomatopaicas dão lugar a outros convencimentos.


— Mãe, não gosto de abóbora.


— Vou deixá-la amassadinha no feijão. Você vai ver que delícia!


O feijão batido se alaranjava e perdia o gosto. Buscava nos cantos do prato a parte roxinha não misturada para evitar o sabor da abóbora. Quando possível, furava a gema do ovo mole para disfarçar o paladar.


Enquanto as abóboras continuam seu balé nos carros de boi, meu gosto foi aprendendo novos passos. Já moço, seguindo as pautas do meu tempo, tornei-me vegetariano. Parei com a carne e foi assim que a moranga, abobrinha, cenoura amarela, vagem e couve foram conquistando espaço no meu cardápio.

Na estrada, levando comigo a sombra da infância, fui incorporando novos tons ao paladar. De carona, viajamos, eu e minha namorada, pelo Brasil afora. Uma panelinha amarrada à mochila era a base do nosso cuidado alimentar. Ao lado da barraca armada na areia da praia, improvisávamos nosso próprio fogão à lenha. Ali mesmo, cozinhávamos sempre o mesmo prato: carne de soja com abóbora. Barato, simples, cheio de sabor.


Hoje, com a medalha de avô no peito, degusto com gosto abóbora cozida, assada, no caldo… Sua cor me enche os olhos e seu sabor me apetece. Deleito-me com sua consistência entre a língua e os dentes.


— Alô mãe, vou fazer o sacolão aqui de casa. Se quiser, aproveito e compro alguns produtos para a senhora.


— Quero sim.


— Então, me passa a lista, pelo telefone mesmo, que eu anoto.


— Cenoura, vagem...


— Ok, tudo anotado. Cenoura, vagem... Abóbora?


— Não, abóbora eu não gosto.

O silêncio me toma e um filme desfia meus afetos. Vejo imagens de encaixes aos solavancos como gostos que se aprendem ou se deixam para trás.


Assim, a vida! Quantos segredos moram nos sabores da infância!

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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