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Atualizado: 13 de nov. de 2025

Gielton



Estrada em curvas




Não é sobre carros. É sobre as voltas do pensamento.


Sempre gostei de automóveis. Desde criança, me fascinava o ronco do motor, as alavancas da marcha, o volante, os pedais... tudo!


Adolescente, já dominava a máquina. Aprendi com meu pai, que fora, há tempos, instrutor de autoescola. Aproveitávamos juntos. Eu, garoto e "fominha" ao volante. Ele, amante da cachaça e do truco com os amigos. Depois da farra, na volta para casa, punha o leme em minhas mãos. Vinha feliz da vida, pilotando pelas ruas de Belo Horizonte, claro, sob a orientação do mestre. Eram outros tempos. Hoje, inconcebível.


Sabe aquele sujeito, mesmo sem ser o dono da bola, é sempre o primeiro a entrar no campo? O fissurado? Pois é, sou eu na direção... Essa ânsia de controle de quem decide a rota e a velocidade, talvez esconda o medo de ser um mero passageiro na vida. Certa vez, viajamos em família quase 12.000 km. Fui o motorista por cada centímetro.

Da juventude para cá, foram anos de volante e histórias. Com tanto tempo de estrada seria natural que me acalmasse, mas não, continuo do tipo barbantinho, não solto fácil o volante. Sou o primeiro a abrir a porta do motorista. É até bom para a relação. Minha mulher prefere que eu a conduza. No carro, apenas…

Atualmente, já vovô, gosto de recostar no banco anatômico, sentir as abas do encosto acariciando as costas, apoiar relaxadamente as coxas sobre o assento e deixar o pensamento vagar.


A conexão entre máquina e mente, às vezes, vem em alta rotação. Enquanto o carro permanece na curva, as ideias escapam frenéticas pela tangente. Seguem a reta e reencontram-se ansiosas no quebra-molas. O pé aciona o freio, mas, na cabeça, o pensamento acelerado calcula: será que vai dar tempo? Calma, sempre dá!


O bom é quando a serenidade habita o estar. É como se o veículo conhecesse o caminho e fosse por si. Enquanto isso, a mente perambula longe no espaço. Quantas coisas vêm! O sorriso de algum aluno, a voz doce da mulher amada, o lirismo do último romance, uma música que toca…O pensamento ancora-se na antena e, mesmo orbitando, acompanha o vai e vem da rodovia. Não é preciso velocidade, pelo contrário, a lentidão alicerça as sinapses que, eletrizadas, conectam-se em si. Aí, é só ir!


Alcanço o alto da serra do "Rola Moça". Do topo, como sentado em nuvens, só vejo beleza e esplendor. A vagareza do giro das rodas amplia o deslumbrar. De um lado, morros sobre morros, como se dormissem amontoados uns nos outros. Da direita, lá no grande vale, a cidade fica feito miniatura. E é…


A descida começa com curvas em ziguezague ladeadas por enormes paredões de pedra. Um pouco mais e estou no pé da serra, quase em casa!


O leve trepidar do calçamento acorda o pensamento. Aterro. Abro o portão. Estaciono.


Hora de descarregar o bagageiro...


Assim, a vida! Deixe-se levar pelas curvas suaves do pensamento...



 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 25 de ago. de 2022

Gielton





Vastidão, talvez seja uma boa palavra para traduzir o mar. É tão grande quanto o mundo. A água farta intransbordável é sinônimo de mistério. Do alto, até onde a vista alcança, parece não haver limites. Sua borda toca o céu em um encontro mágico. Seria amor entre dois mundos? Dali apontam Sol e Lua diariamente. Por que não emergem molhados respingando gotículas pelo ar? O pequeno barco em pesca dimensiona a pequenez diante do imensurável. É um gigante!


De perto lambe carinhosamente os pés descalços sobre a areia. Aquele vai e vem das águas tonteia a cabeça. Os pés naufragam na areia "molhadiça" quase até os joelhos. Por pouco, o mesmo mar da imensidão, aqui no miúdo, não me tira do sério deixando-me de bunda no chão.


Mas não! Avanço passos a frente e viro criança de novo. Soco as ondas tal qual um pugilista. Como se por trás daquela espuma branca estivesse o inimigo imaginário. Deixo disso, mergulho. Afundo a cabeça. A onda passa por cima rastelando as costas. Mal a cabeça emerge e lá vem outra. Se não me cuido, embolo nela mesma. E outra mais... É preciso estar atento e esperto, senão cambalhoteio em caldo atrás de caldo.


Escolho brincar um pouco mais: jacarear. Em um átimo de segundo avanço por cima da grande onda e, como uma prancha, voo sobre as águas que me levam a roçar a barriga na areia. Suspendo-me ofegante, quase sem ar, e volto-me para o grandioso. Quero sentir de novo a velocidade tamanha misturado a faixa branca formada na pontinha da onda. Assim, de onda em onda, no momento exato, me transformo em um jacaré de orelhas para cima, braços a frente e peito aberto para o que der e vier. A diversão toma conta do espaço embebido de água e sal que contorna a pele sob o Sol deixando marcas de bronzeamento natural.


Vem, então, o momento de calmaria. Avanço além da arrebentação. Estico o corpo horizontalmente e deixo sua leveza me levar. Os braços abertos rentes a água são sinal de liberdade, de deixar ir e vir sem julgamentos ou pretensões. Agora, deleito-me com o sobe e desce quase sincronizado. Penso: para onde o mar vai me levar? Quero erguer a cabeça para assuntar. Curioso você, hein! Não, deixe-se levar. Fique à deriva! Desapegue de você mesmo, nem que seja por poucos instantes.


Assim, a vida! Há mares e mares para se navegar.


 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 1 de out. de 2025

Gielton



Imagem abstrata



Distraído, estava pensando na morte da bezerra quando tive um estalo. Suspendi minhas antenas e atinei: quantas mortes se vive em uma vida?


Esse fantasma que assombra e mete medo está mais vivo do que nunca. A cada "nunca mais", algo abotoa o paletó e alimenta o avejão. Este, por sua vez, lambendo os beiços, deleita-se com a refeição. Em troca, oferece tristeza ao soluço.


Perdi o peito da minha mãe com pouco mais de dois meses. "Nunca mais" fui amamentado. O desalento mora em mim ainda hoje, tão escondido — ou tão bem guardado — que nem sei onde procurar. Mas a vida insiste em seu ciclo, e agora sinto o inverso quando meus netos se põem a sugar.


Relações também batem as botas, apesar dos antigos amantes continuarem vivinhos da silva com o coração pulsando involuntariamente. Alguns renascem neste desviver como rosas a desabrochar depois do temporal; outros se debatem na areia movediça até a vida virar do avesso.


A cumplicidade também se esvai. Um dia, o velho companheiro de gandaias embaladas a cervejas e cachaças lhe diz: parei de beber.


— "Nunca mais"? — você questiona.


— É… — ele devolve.


Atônito, você fica a entender o que se passa. Então, passa anos esperando ressurgir a antiga camaradagem. Ela mudou de lugar. Quando vê, aquele amigo continua inspirando bons exemplos longe dos copos.


Às vezes o desencarnar da palavra deixa um enorme vazio de silêncio. Em um beco sem saída, eleva-se um muro intransponível entre o casal, tão rígido quanto a imaginação consegue alcançar.


Sem a palavra, a fantasia sobe aos céus como um papagaio de papel. As ideias se contorcem feito minhocas na cabeça a ver fantasmas onde só há silêncio. E dá-lhe elucubrações...

Como em um passe de mágica, o verbo ressuscita, sai da cartola e, sem estardalhaços, coloca ordem nos semblantes!


Há o momento da morte do trabalho. Quer dizer que "nunca mais" estarei em sala? "Nunca mais" farei explicações newtonianas? "Nunca mais" corrigirei provas? "Nunca mais"... Poxa, nem tempo tive de me despedir!


Alguns “nunca mais” doem para sempre, ecos de um espaço e tempo que não retornam. Sobram apenas memórias que ficarão guardadas como fotografias desbotadas.


Há tantos outros "nunca mais" para sempre em nossas vidas que até parece redundância. Mas não: cada qual finca no peito espadas que sangram as próprias dores.


Nada como os ponteiros do relógio para quebrar os "nunca mais" no tempo, até virarem pó e, com um breve adeus, descerem pelo ralo.


E mesmo que o “nunca mais” insista em bater à porta, a vida, teimosa, abre janelas.


Aliviado o sofrimento, damos um passo à frente.


Assim, a vida! Florescendo sempre.



 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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