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  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 14 de set. de 2022

Gielton







— Bom dia, Sr Joselino! Sua grama está linda, hein?


Algo me chamou para o jardineiro. Tantas e tantas vezes nos cumprimentamos à distância. Dessa vez, diferentemente, nos atentamos mutuamente.


— O Sr conhece um matinho rasteiro que cria ramos por dentro da terra?


— Tem a folha pontuda? Abre-se como... Vem comigo.


Parou tudo. Conduziu-me delicadamente ao estacionamento apontando: "é esse?"


Em um dos canteiros entre os automóveis avistei a tal erva daninha.


— Essa não tem jeito. É catar até a raiz e cuidar para que as sementes não espalhem. Um trabalho de paciência. Cotidiano. Dia após dia...


Eu ainda não sabia. Intuía, apenas.


O sofá da sala de repouso, no 6º andar, me acolheu. Estava sozinho. Há tempos não exercitava as energias.


Quando ela passou pelo umbigo senti a soberba. Sou foda, pensei. Assim vivem os que tem o "rei na barriga".


Ao atingir o coração, confirmei: aqui vive o amor. Senti com força!


O tempo? Esse não importa. Não foi medido... Desci.


— Oi Matheus, você pediu para vir?


— Isso, aguarde um pouco.


Andou para lá, meio agitado, entrou na sala ao lado, saiu, voltou.


Intuí com mais precisão...


Fui conduzido. Veio o diretor. Entendi. Então, era isso?


Saí do departamento pessoal atordoadamente sereno. O tempo do sofá me fez bem. Não sabia se ia ao café encontrar colegas ou se ficava ali parado. Perplexo, andei pelos corredores sem norte, apesar de uma espécie de mansidão habitar minha alma.


Abri canais de memórias.


Lembrei-me da primeira turma. O vigor da juventude me permitiu atuar, além de professor, como atacante no time de futebol. Diga-se de passagem, um campão de terra. Onze contra onze. A sintonia foi tão fina que passei de ano com eles.


Trinta e três anos depois as chuteiras estão penduradas em um cantinho do meu coração, mas a canetinha de quadro, agora digital, continua afiada. Com ela, cultivo afetos como nunca. Lustro a grama da sala de aula onde o pensamento pode flutuar sem se machucar. Humanizei-me nesse correr do Sol. Em plena pandemia a reciprocidade com a última turma de alunos foi justa. Subi de ano com eles.


Ironias do destino? Um encontro entre a primeira e a última?


Ainda não consegui chorar a dor da partida, apesar da tristeza apertar o peito. Talvez prefira pensamentos. Acalento-me neles. Apesar de ainda turvos e desconexos me guiaram para casa em passos de tartaruga. Não deve haver mais pressa.


Sentirei saudades dos amigos que ali encontrei. Tantos e tantos que caminharam ao meu lado em trilhas paralelas trocando confidências, impressões, experiências... Ah, quanto partilhei momentos e momentos de minha existência!


Sei que é hora de encostar a ferramenta e seguir o passo. Um de cada vez, como diria Sr Joselino.


Deixar a grama do meu caminho verdinha, saudável. Talvez seja a hora de cuidar desse jardim. Deixá-lo florescer na rapidez que o novo tempo exigirá!


Assim, a vida. Início, meio e fim encontram-se quando o ciclo se fecha.


 

Atualizado: 14 de set. de 2022

Gielton





Alguns gostam de planos. Sentem-se seguros com ideias organizadas e ações em rumo. Primeiro isso, depois aquilo. Impõe ordem ao tempo que, caótico, os desprezam. São um nada diante de sua vastidão. Imagine! Quanto tempo já se passou desde o Big Bang?


"Coisa que gosto é poder sair sem ter planos", como diziam Milton e Fernando Brant, tem aqueles que preferem a vida em outra pulsação. Como que suspensa por um fio prestes a tombar. Basta um escorregão e... Tibummm! Sem controle, sem nexo, sem necessidades...


De toda forma, olhamos para frente com as viseiras do desejo. Enxergamos através das lentes do interesse iminente. Nossas escolhas ancoram-se em prognósticos do logo em seguida, do quase instantâneo.


De repente, uma tecnologia "lentea". A mensagem sem "vezinhos" azuis abre um vazio atulhado de fantasias. A bola ricocheteia a trave e, por segundos, o time do coração fica em segundo. Veio a menor do estudo a nota da prova. Ela tanto merecia. Conjecturam!


E quando o arroz queima? A batata assa a mais! O delivery, tão esperado, atrasa... Ah, que mundo injusto! Oh Deus desatento. Levou tão cedo a melhor amiga. Ainda tão viva e com tanto a ofertar! Que bobeira deixar escapar diante do nariz a melhor decisão na hora certa. Esse pneu tinha que furar, logo agora, em meio à tempestade? Quanto azar!


Será que deu certo? Ou deu errado? Algo saiu do previsto, mesmo que o augurado seja sem profetizacões exatas!


Vivemos mergulhados em uma atmosfera que turva nossa visão. Pouco percebemos além do tempo. Menos ainda à distância. Somos como fotografias que flagram cenas átimo a átimo. Limitados em nossa própria densidade avistamos quase nada além da luz.


Assim, nos é impossível conectar ao futuro próximo, mesmo que seja do pretérito. Os "ses" já não adiantam mais. Além da clareira há espaço e direções inimagináveis.


Então, pode ser que o plano não concluído seja a razão do sucesso obtido. A demora indesejada, a salvação do acidente no asfalto. A gestação interrompida, a esperança de outra vida em curso...


Ah, quão pequenos somos diante de olhares amplos dos quais, às vezes, só compreendemos tempos adiante. E olhe lá! Quando, por ventura ou desventura, encaixamos alguma peça do enorme quebra-cabeça da vida. Jamais saberemos, de fato, a razão dos fatos!


Assim, a vida. Por trás de cada falha uma justeza por esperar.


Imagem do post em <https://pin.it/60638nC>


 
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    Gielton

Atualizado: 22 de set. de 2022

Gielton





Queria escrever sobre a maldade, mas nem sei se ela existe. Talvez saltite por aí, pegando um ou outro desprevenido em encruzilhadas do pensamento. Travesseiros, mesmo os de penas mais macias, podem não suportá-la, tamanho o peso que impõe à consciência. É que ela gosta de atormentar. E como!


Ah, a maldade... Se traveste de bem querer, de generosidade, de bondade. Oferece a maçã como isca para, depois, abocanhar os incautos. Os enlaça com doçura antes de sufocar. Aí, já era. O mal já foi feito. O negócio vantajoso já onerou. O lucro financeiro sobrepujou. O prejuízo estabeleceu-se.


Ela leva vantagem? Quando? Nas aparências, talvez. No sucesso às custas de algum tombo. No roubo do amor declarado. Nas intrigas que distanciam. Só que, ninguém sabe o que virá depois da queda ou se outro amor resplandecerá. O longe pode aproximar outros.


Esses dias ela acercou-se de mim. Chegou perto, falou baixinho ao pé do meu ouvido. Fustigou desejo de vingança. Em mente dizia: "Então, tá! Se é assim, o troco será maior que se espera". Senti sua presença nas redondezas. Orbitou a mim e ao outro. Confabulou com os dois, cada qual em sua intimidade. Trapaceou!


Deitei. Fechei os olhos. Deixei o coração tremer de raiva e a mente borbulhar em pensamentos. Mantive o estado até aquietar-me um pouco. Foi a conta! Fluiu espaços entre os buracos do meu ser. Levei dos pés à cabeça. Depois, de volta, algumas vezes seguidas. Permaneci imóvel. Os sons, aos poucos, emudeceram-se. De dentro veio algo surpreendente. "Você não preciso disso. Aquilo que parece imprescindível, não o é! Deixa a vida trazer o que for para ser. Seja feliz nesse estado, em desapego".


Assim, a vida. E se a maldade bate à porta?


Imagem do post em <https://pin.it/1A00cNR>


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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