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Gielton



Entre o automóvel e a bicicleta, optei pelos pés. É que os passos em ritmo e cadência movimentam o pensamento. Queria sentir e pensar. Nem sei ao certo quem vem antes e como separá-los. Sei que caminhar costuma assentar fantasmas.


Veio medo! O invisível que tem atormentado a humanidade ronda. Afinal, alguns prognósticos indicam curvas ascendentes. Uma tênue luz no fim do túnel ilumina a sombra. Há variantes que se espalham rapidamente e o contato de perto com muitos ao mesmo tempo lhe oportuniza multiplicar. Posso me infectar. Já estou vacinado! Um alento?


Saberia realizar meu trabalho de antigamente? Há mais de ano outros métodos, outras formas de fazer tomaram o lugar, comum de antes. Então, o velho em capa de novo apreende o coração. Esse sim, pulsa a cada batida dos pés no asfalto. A respiração sufocada pelo pano me deixa mais ofegante ainda. Calma! Vai dar tudo certo! Odeio esse estímulo otimista.


Na descida final os ânimos estavam mais calmos e a palpitação mais equilibrada. Algumas incertezas acomodadas na mente, como abóboras no carro de boi, nutriam uma espécie de tranquilidade. Longe de uma paz celestial, apenas um encarar a realidade sem adivinhar ou prometer nada a mim mesmo.


— Hã? Ah sim, pode medir a temperatura na testa. Posso entrar? Não tem mais cartão magnético?


Estranho! As cores são outras, apesar dos primeiros degraus continuarem no mesmo lugar. Relembro os antigos espaços reconstruídos como em um passe de mágica. Parece que foi ontem, no entanto o Sol já rodeou. Tudo velho de novo!


Revivi antigas práticas. Surpreendo-me. São válidas ainda! Vi com meus próprios olhos o quanto diz o olhar. Alguns pares se mostraram atentos, desejosos e curiosos. Outros, indiferentes. Parecem não saber o que fazer. Expressam desânimo, carência... Há dramas nas almas!


Em pé diante de meus alunos sinto a boa energia da troca. A sutileza do humano nesse vai e vem de algo apenas sensível para além da pele alimenta esse novo estado das coisas. Fortalece nossas certezas de que ainda é possível. A interação passa por entre as carteiras e o quadro (agora touch). A voz que emana por trás da máscara chega aos ouvidos e se conduz aos corações esperançosos. São adolescentes em busca de referência, atentos ao nosso estar, reaprendendo a ser humano, aos poucos, outra vez!


Assim, a vida! Depois que passa, tudo volta a ser outra coisa!


Imagem do post em <https://pin.it/5ong3MB>


 

Atualizado: 8 de dez. de 2022

Gielton





Confesso que o rastelo me foi apresentado recentemente. Para quem não conhece, é uma ferramenta semelhante à vassoura, só que, ao invés da piaçava ou pelos, possui, na extremidade, pontas separadas de plástico ou metal. Para que serve? Varrer folhas no quintal.


Aí entra uma polêmica. Folhas são orgânicas e se desintegram naturalmente. São parte da natureza. Deixemo-las quietas. Nas matas e florestas tem importante papel sobre o solo. No entanto, sobre a grama de um pequeno sítio, tapam. Escondem o verde que brota nas entranhas da terra. Então, varrer ou não esses esgalhos?


Meu lado urbano priorizou a estética do aparentemente limpo. Mais do que isso, acho gostoso reunir em pequenos montes as folhas secas caídas das árvores. Depois, vestir as luvas e transportá-las ao carrinho de mão. São leves e fáceis de empurrar. Até dá para colocar o neto em cima e brincar de caminhão. Sensação de energia gasta, de trabalho realizado. A grama fica limpinha! O monte de folhas ao fundo acumula-se.


A cidade grande nos envolve em compromissos. Fomos! Até logo, casinha de gramas, árvores e folhas secas. Retornamos em dois giros do relógio. Era noite. As sacolas cheias de mantimentos a guardar era o lado para onde se voltava nossa atenção. A Lua minguante não tinha ainda brotado no céu.


De repente, próximo à varanda, observo sobre a grama um monte de flores amarelas. Apenas flores, sem talo, em forma de cone. Caídas ou deixadas? Alegres. Espanto-me com a quantidade. Surpreendo-me. Duvido de mim. Estavam ali quando saí? Seria um fenômeno sobrenatural? Por alguns minutos fiquei desentendido. Quando... Olho para cima. Encontro um Ipê amarelo. Isso mesmo! Um Ipê amarelo no nosso jardim! Lindo, florido...


Na manhã seguinte, à luz do Sol, fotografei, cheirei, senti, toquei... Aquela árvore pelada, de folhas pequenas que tantas vezes rastelei, mora na porta da casa. Agora, tão de repente, traz esse brilho, colore nossa manhã, arboriza nossa terra. Amarelo, ainda por cima! Cor vibrante, sem ser ofuscante. Desvia nossos olhares e hipnotizam. Não há quem não pare para ver. Não há quem não os perceba, aos montes, espalhados como pontinhos em meio as montanhas. São lindos e abençoam os meses de agosto.


O tapete de flores amarelas continua lá. O rastelo encostado na parede nem ousa tocá-las. Enfeitam com brilho na medida certa nosso cantinho. Preenchem de amarelo nossa esperança! Dão cor e graça ao nosso lar.


Assim, a vida! Amar-elo!

 
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Atualizado: 8 de dez. de 2022

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Esses dias construí a primeira janela da minha vida. É rústica, de finas toras de eucalipto. Ainda não tem tramelas, mas abre e fecha como qualquer janela. No entanto, essa, em especial, abriu um grande espaço no meu coração.


O parquinho já veio com tablado pronto para o escorrega. Um buraco redondo, por onde passa o tronco da árvore, completa sua estrutura. A escadinha, degrau a degrau, de madeira roliça, facilita o envolver das mãos e transmite segurança. Lá de cima basta sentar, soltar o corpo e deslizar livre até a grama. Brincadeira de criança. Vencendo o medo da altura.


A ideia estalou no pensamento: e se fizéssemos uma casinha de verdade nesse escorrega, com paredes, janelas e telhado? Projeto ousado para diversão dos netos. Adoraríamos.


Entre a idealização e a trama há uma linha do tempo a ser tecida. Água a correr debaixo da ponte. Vento desfolhando galhos. Sol cruzando céus em dias de inverno. Desejo irrigado pela calma no fazer, pelos passos lentos das escolhas.


Meu arquiteto interior buscou inspirações nos arredores. Já sei! As paredes serão de eucalipto como alguns "muros" que vi por aí. O calculista que se esconde nos dedos da trena mediu. Serão necessárias vinte peças para serem dispostas lado a lado em cada vão. O administrador saiu de mim e foi até a madeireira. Amedrontado pelo escorpião no bolso sacou o cartão e passou no débito.


Pronto, agora é só lixar, serrar, colocar as dobradiças nos buracos. Parece fácil nas palavras. A vida real é cheia de entalhes. A janela concebida estava prestes a nascer. Parto sem contrações. Pura diversão!


Trabalhamos juntos. Eu, pai, ele filho. Construímos uma linda parceria.


— Eu seguro e você lixa!


— Deixa que eu coloco a broca.


O neto circulava. Entre fantasias e correrias sobre a grama, chegava até nós.


— Posso ajudar vô?


— Pega a chave de fenda ali!


Assim, passo a passo, ela foi tomando forma. Braço a braço foi se contornando. A cada parafuso, uma nova conquista. O vai e vem do serrote firme nas mãos soava como um rec rec do sucesso.


Era véspera do dias dos pais e ele disse.


— Eu aqui, com meu pai, fazendo a casinha na árvore para meu filho. Quanta honra!


Imagine o que respondi!


— E eu? Esculpindo com meu filho esse brinquedo para meus netos. Quanto vale?


Tudo na vida.


Quando o pequeno deslizou as mãos entreabrindo as madeirinhas firmadas com tanto esmero e sorriu, meu coração estufou de alegria. Era muito mais que uma janelinha na casinha da árvore. Eram infinitas ventanas que se descortinavam no mundo dos afetos.


Assim, a vida!


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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