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Atualizado: 22 de out. de 2025

Gielton




Mãos e unhas sujas de terra



Você já pensou em quão fina é a raiz de um trauma?


Atualmente tenho passado horas a fio sentado sobre a grama. Queria tanto vê-la verdinha e vibrante. Assim como a vida que cresce em todas as direções, a relva feito uma teia, avança para os lados, para cima e para baixo. No entanto, há entremeios em que fica escassa, ressecada e sem pega. É quando a vida esmaece.


Sobre a relva, medito. Exercito a presença. Distancio pensamentos que se curvam além do tempo. Conecto-me à terra. Mãos pintadas de pó de chão até o sabugo das unhas. O eixo que me conecta à terra e à vida mantém ereta a coluna enquanto visualizo, uma a uma, as ervas daninhas.


De onde vêm? Por que se aglomeram e tomam conta? O gramado abandonado virou mato em algumas partes. Triste de ver... Vontade de reverter. As relações humanas se assemelham. Se descuidamos, tornam-se sarça. Perdem-se em si mesmas. Deixam-se dominar pela falsidade, pela aparência... É preciso catar uma a uma, dia após dia, cada tipo indesejado. Ainda assim, não há promessa. Nem permanência.


Com a ferramenta cutuco a terra. Há uma, tipo amendoim, que se embrenha entre as raízes da grama e alastra-se como um exército a conquistar novos territórios. É rasteira. Traiçoeira. Caminha distante sobre o capim. Invade, enlaça e sufoca.


Com a mão esquerda reúno os ramos emaranhados e espalhados sobre a superfície. Eles se aglutinam em um caule da espessura de um dedo. Preciso apalpar antes de cavucar. Guio com o indicador para encontrar o caminho da pega. Cuido para não machucar a grama. Afinal, as relações merecem cautela. Inevitável algum sofrimento.


Cavo fundo a terra em busca da origem: a causa dos desafetos, a semente dos traumas. É dali que vem a estirpe na seiva do bolo do barro.


A ferramenta é limitada. Não tem medida para alcançar o âmago. Então, arrisco esticar para cima, com as duas mãos, o talo da erva invasora . É preciso força e suavidade. Como na vida, nada se arranca aos turbilhões. Firme e convicto, intento extrair. Às vezes, sinto um descolar profundo. Ela ascende: uma raiz tão fina na ponta quanto um fio de cabelo. Tão frágil e devastadora. A sensação é de vitória sobre a maldade da erva funesta, sobre os encalhes da vida.


Outras vezes, escuto um estalo fino, como um "creque". É a raiz que se rompe e emerge pelas metades. Vem em forma de "aqui permanecerei e crescerei de novo". Frustro-me ao perceber que as pontas dos laços interpessoais retornarão em forma de novos desafios. Há muito a aprender sobre a terra, sobre a grama, sobre a vida.


Assim, centímetro a centímetro, trabalho arduamente, sem tempo para o término, pois o sol reaparecerá detrás das montanhas, iluminando um novo dia, transbordando esperanças de que o remexer as relações na terra sob a relva do dia anterior tenha valido a pena.


Assim, a vida! Cavoucar a alma com delicadeza e evoluir.

 

Atualizado: 20 de set. de 2023

Gielton






Cheguei gente! Rasgando corações, abalando emoções, perfurando a vida. Isso, Malu desceu. Escorregou quem nem quiabo. Nem tanto, segundo a mãe, que sofreu as dores, contraiu a força interior, transitou pelo transe. Não via, nem ouvia nada. Nada percebia... Aí, de repente, estava ela, a menina, em seu momento de ouro, como dizem as doulas de atualmente. O cordão levemente frouxo mantinha os laços, enquanto pele com pele, coração com coração, emoção com emoção fazia daquele momento, único e singular entre mãe e filha. O primeiro abraço a gente nunca esquece.


A madrugada tangia. O cansaço encontrava seu justo descanso. Sobre o móvel de cabeceira o WhatsApp vibrou. Ainda, entre o sono e a vigília, nós, avós, fomos agraciados com uma deliciosa chamada de vídeo. Quem diria isso possível há poucos anos? Contemplamos e pulsamos juntos com pai e mãe de sorrisos escancarados e medos adormecidos. De alegria estampada em cada gesto, de expressão de amor em cada olhar. De pertinho, na câmera, deu pra ver a lindeza. Existe recém-nascido lindo? Claro! Todos são aos olhos dos próximos. Semblante de anjo. Boquinha de quem já veio sabendo mamar. E as mãozinhas? Tão pequeninas! E os pezinhos? Compridos. Tudo cheira a novo. Sabor de bebê. Ensejo para todos aprenderem e evoluírem.


Ontem Malu completava seu dia dez de adaptação ao novo mundo. Corri para a porta de entrada. Os pais, famintos e exaustos, logo a entregaram. Dizem que sou fominha. Assumo. Ousei o primeiro banho. Troquei as primeiras fraldas. Quanta honra! Agora, já encorpadinha, faz do tamanho do colo do avô babão um conforto.


Passei pela sala. Desliguei a TV (tão chata ultimamente). Caminhei pelo corredor. Inebrie-me. Caí na tentação de ficar pertinho. Sozinhos. Eu e ela. Dormindo como um anjo sobre meu antebraço direito, de vez em quando, sorria. A boca miúda, o queixo menor ainda fazia beicinhos e caretas. Os olhos fechados tremiam, como se sonhasse sonhos do outro mundo. Permaneci em pé enquanto o som da casa se distanciava. Cerrei meus olhos para sentir a pequerrucha. Nossas vibrações sintonizaram. Uma bola de energia nos cobriu. Vi lindos bosques. Intensas cores, mas serenas. O verde predominava, mas tinha rosa, amarelo e lilás. Um resplandecer de vida em paz naquele pedaço de gente completa. O aconchego do colo era como um macio colchão de plumas. Sua cabecinha encaixava perfeitamente na dobra dos meus braços. Estava agora relaxada. Entregue ao sono. As mãos soltas, os braços libertos. Senti confiança. Senti entrega. Tão bom!


O almoço estava servido. Trocaria meu prato de comida por mais tempo com ela. Não, os adultos esperam por mim. Com todo cuidado do mundo pousei-a sobre a cama. Remexeu um pouquitito. De barriga para cima, apoiou os braços sobre a colcha ao lado da cabeça e continuou sonhando!


Bonito de ver!


 

Atualizado: 7 de abr. de 2021

Gielton



Estiveram em nosso lar como de costume. Almoçamos e permutamos querenças. Tudo ia bem quando me apercebi da abordagem mais séria que viria.


— Pai e mãe, não espalhem. Estamos grávidos!


— O quê?


Minha filha, minha pituquinha, aquela bebezinha que dei banho, contei histórias e cantei canções? Que quantas e quantas vezes adormeceu nos meus ombros e, da casa da avó para nossa, foi transportada com todo esmero? Seria agora mãe! Nem acredito... Me belisco?


O arredondado abraço coletivo a oito braços entrelaçados expressou a emoção do instante. A barriga ao centro germinava sonhos e realidades. Seria a filha da minha filha...


Desde esse dia me senti estranho. A felicidade media o tamanho do imensurável. Desejava quão rápido conectar com minha neta. Ela parecia distante... Como se faltasse uma ligação, um fio, uma onda, uma sintonia.


Culpava-me por não corresponder a mim mesmo. Queria curtir a pessoinha, a nenenzinha que nem um peixinho, bem pequeninho no meio do mar do amor. Porque não me vem serenidade para interligar? Nem de olhos cerrados sentia a pequerrucha... A pequenez da barriga dava dimensões ilusórias do que viria a existir. Ah, sim, deve ser essa a explicação.


A barriga cresceu, o embrião formou-se. As imagens do ultrassom, como fotos pré natal, mostravam com nitidez a menina já feita. Até gostava de dar seus pontapés e espreguiçadas sobre a palma da minha mão que pulava como uma bola sobre a barriga da mãe. Costumava fazer essas peripécias quando lhe bem entendia. No entanto, o enigmático persistia.


Demorei a entender! Ela ainda teria a sua vez no colo do vô. Mas, era a mãe que irradiava boniteza e merecia o aprecio. Seu semblante de grávida exalava o aroma do amor. A paz invadiu seu coração. Como esses nove meses lhe fizeram bem! Se disse lenta no pensamento. Entendi, precisa nas escolhas. Falou de esquecimentos e desmemorias. Não, brotavam apenas lembranças que valiam a pena. Tornou-se uma grávida resplendente!


Reparei no seu caminhar. Suave, despretensioso, sem pressa no alcançar. Aliás, não há meta além de cuidar daquela vida sobre vida. Passo após passo, como uma astronauta, flutua no espaço em tempo de lentidão, mas de inteireza. Pontuda, a barriga vai à frente. Cruza troncos no meio do caminho e trilha pequenas florestas para alcançar as pedras rodeadas de água corrente. Fluido que desce em golfadas como a vida, em fluxo continuo, porém por trânsitos labirínticos. Não importa a corredeira, há convergência no chegar. A água fria não acordou a bebê bem acomodada no útero materno, mas deu ainda mais energia e lucidez à mamãe. Cachoeiramos todos!


A netinha pode esperar com paciência minha amabilidade. Ela sabe dos colos afetuosos que virão. Agora, no entanto, é momento de salientar a força, a beleza, a magnitude e o mistério da mãe que se apronta para aquilo que os céus arquitetam para ela.


Assim, a vida! Às vezes mudar o foco trás olhares inesperados.


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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