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Gielton



Éramos muito jovens quando nossos filhos desceram dos céus. As fotos desbotadas revelam rostos quase infantis. A "barrigudinha" cheirava a leite. As vezes, me surpreendo. Nem sei como demos conta de tamanho desafio!


Outros tempos. Outra lógica. Outras necessidades. Internet? Nem em ficção. TV a cabo? Celular? Nada disso passava de pura especulação. Existia sim, o fixo. Com ele, tudo era combinado. Acertado em horários cumpridos à moda de "dar certo". E se não desse, não tinha problemas. Tivemos uma extensão externa da casa dos meus sogros. Se contar, os jovens de hoje não acreditariam. O sino do telefone badalava simultaneamente nas duas residências em bairros vizinhos. Aqui e lá alguém atendia. Desligava aquele que percebia não ser para si.


Havia filosofias. Princípios estabelecidos pelo impulso social histórico. Os jovens corriam por liberdade, por contraponto, por um "fazer diferente". Autenticidade era valor. Andar com as próprias pernas era meta. Sofrer do próprio destino, propósito.


A sala com esteira de palha e almofadas no barraco ao fundo do lote era morada dos sonhos. O guarda roupa herdado da fase de solteiro fazia companhia à cama adquirida a mils prestações. O balaio acolchoado era o bercinho do neném. Feito a mãos carinhosas e orgulhosas no pique das construções autônomas. Ela, "petitinha", dormia do ladinho da mamãe sedenta por amamentar leite da vida, protetor dos germes e bactérias espalhadas pelo mundo. Elevar o bebê para o tradicional arroto era tarefa do pai, que mal tinha cinco de dias de licença e caía de pronto no trabalho após noites e noites mal dormidas.


O gosto era triunfar sobre esses desafios. Dar conta da vida na ponta do lápis. Aprender juntos e, em comunhão, trilhar caminhos desconhecidos na certeza de que tudo daria certo, no tamanho que esses certos teriam.


Cuidamos para que nossos pais, desejosos por compartilharem suas experiências, também aprendida a duras penas, pela ânsia de conhecer e lidar com seus primeiros netos, guardassem seus segredos. Não que não quiséssemos amparo. Era só na medida certa! A nossa, é claro.


Agora, são outros tempos. Um novo mundo surgiu nessas décadas. Os filhos dos nossos filhos são concebidos e aguardam sua vez de experimentar o mundo. Uma "pequerrucha" está por vir. E será logo, logo!


— Pai e mãe, quero deixar muito claro.


— Que foi minha querida gravidinha?


— Quando nasci, já entendi, tinham necessidade de rompimento com velhas formas de fazer.


— Sei. Onde quer chegar?


— Nisso! Eu não preciso disso. Vocês são a minha referência de amor, confiança e experiência. Quero que estejam conosco, bem de perto, muito juntinhos, nos ensinando a dar banho, a fazer arrotar, a cuidar, trocar, a ter calma... Precisamos de vocês.


— Claro filha, faremos com todo o prazer, evitando, claro, invasões.


— Nossa relação não permite intrometimentos. Saberemos juntos a hora certa de nos deixar. Fiquem tranquilos!


Pendi a cabeça para rodear a alegria incontida. Camuflei o sorriso. Engoli o choro. Durão, eu? Pura emoção!


Há muito a aprender sobre expressar amor e gratidão...


Assim, a vida. Dá voltas deliciosas em torno de nós.


Imagem do post em <https://pin.it/pKOtvRT>

 
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Estou ainda sobre efeito da biópsia. Uma parte de mim foi e voltou em letras ininteligíveis.


— Seu tumor foi maligno — disse o doutor.


— E abolido por inteiro — completou em estado de missão cumprida.


Vontade de derramar lágrimas, ali mesmo, no meio do consultório. Deixá-las caírem soltas, esparramadas aos montes pelos olhos, um deles ainda ferido pelo bisturi. Sensação de incompetência na vida. Sentimento de "não sei porque aconteceu comigo". Vontade de desfalecer...


Não, não posso. Preciso manter a postura. Ouvi o médico dizer que foi totalmente retirado? São raras as reincidências? Lorota... Como o exame sabe disso? Sem lógica. É, mas dos males o menor, quem sabe? Posso me aderir a isso. Não sei... Não sei de nada... Nem quero saber... Nem sei o que devo sentir...


Desaconselhou a viagem planejada para revisitar o mar, a areia, as ondas... Muito Sol e água não seria bom para as vistas. Tá bom. Isso é "o de menos". Já viajei tanto nessa vida. Era só mais um feriado mesmo. Podemos arrumar outro lugar para descansar. Não quero pensar nisso agora.


Deixe-me ler esse laudo. Já não enxergo nada sem os óculos. Logo eu que tinha o maior orgulho de ter uma boa visão. Pus as lentes. Confesso, não entendi patavina. Palavreado indecifrável. Vontade de lacrimar. O que falam de mim? Da minha vista? Que eu nem sei?


O coração desceu apertado dentro do elevador. Recolhi-me em um canto daquele cubículo como se não fosse ninguém. Vixe, onde está o cartão que libera a roleta? Ainda bem que sou organizado. Me acho... Enfiei a mão no bolso esquerdo, saquei o cartão, inseri no buraco quase sem enxergar e passei. Ah, livre desse lugar. Livre dessa dor...


Que nada, me perseguiu pelas ruas. Acompanhou como uma sombra. Persistiu atrás e por cima de mim. Sem dó... Era isso que precisava viver? Porque comigo?


Delicadamente minha filha, acompanhante da consulta, falou sobre os apartamentos para alugar. Ouvi com atenção dividida. Estava lento no pensar. Talvez ela quisesse me distrair. Mudar meu foco. No entanto, disperso permaneci.


— Consegue mesmo dirigir pai?


Nos despedimos. Estava sozinho. Eu e eu. Eu e minha alma. Poderia chorar tudo. Não quis. As lágrimas empedraram. Disfarcei pensamentos. Uma espécie de serenidade me invadiu. Não me importava com os carros lentos, com o sinal fechado, com o trânsito chato. Era como se ali não estivesse. Flutuava solto no ar, distante das migalhas do desnecessário. Como se o rumo da vida desarrumasse e a linha da existência, frágil como uma pena, se soltasse no vazio. Um vácuo em forma de nada empalidecia meu contorno. Quem sou?


— E aí, como foi?


Minha mulher pergunta antes de eu terminar de abrir a porta.


— É maligno, mas foi todo retirado.


Caiu em prantos. Senti-me amado.


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Atualizado: 16 de mar. de 2021

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Transcorreu tudo muito rápido. O primeiro, mal olhou nos meus olhos e, categoricamente, afirmou:


— Não faço esse tipo de trabalho. Não compensa financeiramente.


Deixei o ambiente. Apesar de bem decorado, inóspito. Prossegui pensativo: Quanta algidez nessas palavras. Duras e secas.


Na manhã seguinte a cena imitou a precedente. A sala era fria, não que a temperatura estivesse baixa, era o ar carregado de indiferença e interesses escusos.


— É necessário certa urgência. Tome esse papel e aguarde a ligação da secretária. Ela resolverá toda a burocracia.


Atingi a antessala desiludido. Um papelzinho com um número de telefone passado por debaixo da mesa? Estranho. Aí tem! Esse prestava o serviço, mas o cifrão volteava os olhos.


Dois dias depois aguardava para atendimento em outro guichê. Os cadastros são, em geral, muito chatos. A atendente era bonita. Meu desassossego nem permitia apreciá-la. A espera foi longa... Tudo na vida passa!


— Conheço demais! Então vocês foram colegas de científico? É uma pessoa admirável.


Elogiou meu amigo que o indicara.


Senti-me em casa. Acolhido. O papo reto na direção certa, contornava serpenteando afetos que me conduziram a um estado de confiança. Em nossa capital provinciana encontramos rápidas conexões. Mundo pequeno, né? Enorme nas possibilidades, nas sincronias, no acaso nada aleatório, mas repleto de intenções amorosas por detrás de outro mundo não visto através de raios de luz.


Tudo acertado, sem meias palavras e interesses encobertos. Sim, o certo, o justo, o coerente. Nem mais nem menos. Na medida do que nos cabe a cada um.


O dia chegou, finalmente. Tudo se deu em menos de uma semana da primeira consulta. Apreensivo? Claro. Afinal era minha visão que estava em jogo. Medo? Óbvio. Como seria possível bisturar parte tão sensível? Deve doer, certamente. Gastura só em imaginar. Tenho pânico da sofrência física. Prefiro a segurança do controle, o apego a cordas ou corrimões que nos protegem de abismos indecifráveis. Não, dessa vez, estaria em mãos alheias. Seriam firmes? Cuidadosas? Precisava contar com isso!


Semelhava uma cadeira de dentista. Luzes na face! Posição oblíqua. A anestesia local entrou fácil e vertiginosamente empalideceu sensores. Uma máscara vedava meu olho esquerdo. Através de um orifício, via toda a movimentação no direito. Vai, pega algo. Volta. Futuca. Retorna com outro instrumento. No início comichão, músculos rígidos. Atenção total, como se fosse possível fazer por ele. O sofrimento não veio. A dor não se manifestou. Nada sentia, apesar de tentear.


Relaxei. Entreguei-me ao outro. Mobilizei energias e pensamentos. Senti presenças. Estávamos acompanhados. Algo me dizia ser a melhor forma de estar. Confiar, deixar-se amar. Sim, um ato de amor tocar o outro em nome da cura.


Minha mulher aguardava na saída. Companheira para todas as lutas. De olho manco a abracei e agradeci. Um curativo tapava minha visão. O coração tinia esperança.


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Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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