top of page

Gielton



Meu olho direito tem se avermelhado, porém sem dores. Eu e minhas teorias: o excesso de tempo no computador, devido as aulas online é, certamente, a origem. Melhor agendar um oftalmologista.


Fomos, eu e minha mulher. Juntos, cada um com suas miopias e olhares distorcidos. Já vem aquele colírio. Olhos fechados por breve tempo. Abri. Enxergo normal. Nenhum desconforto. Sou foda mesmo! Todo mundo reclama dessas gotinhas. Manha pura!


Entro no amplo consultório repleto de equipamentos. Sou conduzido a cada um. Enxergo levemente menos. Da última lente são poucos graus a acrescentar, segundo a médica. Contudo, o exame minucioso e demorado, detectou um quisto.


— Tumor, doutora?


O tom reto de sua voz surpreendeu-me.


— Sim. Será preciso extraí-lo e fazer biópsia.


— É grave?


— Está superficial. Mas é importante averiguar. Vou te encaminhar.


— É câncer?


— Pode ser benigno. Só a biópsia dirá.


Tentei acalmar meu pânico, mas o susto instalara-se. Um terrível temor de um possível tumor acometeu-me. Melhor fingir!


Contei a minha mulher ainda na sala de espera. Arregalou os olhos, não as pupilas - não gotejaram o tal colírio nela.


— E aí? É grave?


— Não, não é nada não! A biópsia é só para confirmar que não é nada.


Disfarcei o medo. Desviei o assunto. Torci levemente o pescoço para o lado e assobiei mentalmente.


Era fim de tarde e o Sol, próximo a linha do horizonte, refletia na calçada. A vista não tolerou. Estreitei os olhos imediatamente. Só aí raciocinei. É para dilatar a pupila, seu arrogante! Na sala de exames do edifício tudo parece normal, mas a fotofobia torna-se insuportável na claridade. Bem próximo ao carro, pensei: posso voltar dirigindo, sou foda mesmo! Melhor não. Depois acontece alguma coisa e eu me ferro!


— Você pode dirigir? A sensibilidade à luz nem me causa tanto incômodo, mas julgo ser mais prudente.


Na primeira esquina intrometi.


— Não, é por ali!


— Pensei em ir pela Guajajaras.


— Claro! Faça seu caminho.


Que mania de controle! O brilho estava intenso e ofuscava até os pensamentos. Cerrei os olhos. Um oásis na escuridão. Adentrei em mim e brinquei de cego. Sei que isso não é brincadeira, mas fiz assim mesmo. Redobrei minha atenção ao movimento, às curvas, às paradas. Seguia a rota do carro como em um mapa mental, enquanto aromas me agraciavam. Mantinha integral atenção à conversa com minha companheira, ao mesmo tempo em que debulhava, vindo do rádio "Canção da América". Respondia prontamente e ainda pensava na última crônica e nos textos de Clarice (tão íntima minha...).


Comentei.


— Ela disse que pensa escrevendo, como você. Eu não, construo toda a narrativa na minha cabeça. Início, meio e fim.


Estava tão gostoso de olhos fechados. Não via, mas ouvia. Escuro por dentro e lúcido em pensamento. O arbítrio da situação encontrava sua falta. Isso era bom. Também, que mania de olhar tudo, de prever o próximo passo, de saber o que se passa nos arrabaldes... Tão bom saber nada disso. Deixar-se levar. Confiar!


De volta para casa. São e salvo!


Escrevi como Clarisse, sem saber muito bem para onde iria, nem onde chegar. Quem me dera! Arrogante, imitão. Imitação boa, eu acho.


Assim, a vida.


Imagem do post em <https://pin.it/3zP8LeG>

 

Gielton



José despertou ao alvorecer, como de costume. Da nossa cama ouvíamos sua conversa atravessada com o pai. Por cima dos seus dois anos e pouco fala como gente grande. Articula frases intencionalmente completas.


Convidei-o a cavalgar na sua mini bicicleta sem pedais até a padaria. Passou tímido na primeira poça d'água, evitando molhar os pés. Pouco depois, despudoradamente adentrou uma a uma perguntando "posso entrar nessa, vovô?" De pertinho respondia: "pode". Isso é que é viver o presente, cada átimo de segundo! Sentir a vida girar como a roda da bike transpassando os pequenos buracos enlameados.


Após o café...


— José, vamos para a praia?


— Ainda não vovô. Estou brincando com meu ônibus.


Sua memória do mar, da areia e da água, das ondas e das piscininhas na maré baixa são nubladas. Além do mais, computa afetivamente, sem calcular, cada instante. Investe nele, antes de seguir adiante.


Estacionou o ônibus laranja que Papai Noel trouxe e partimos.


O parquinho público quase em frente ao nosso portão o atraiu. Brincou! Como brincou! Subiu e desceu os escorregas de baixo para cima, de lado, de frente. Experimentou posições, reconheceu atritos. Eu, sem pressa, deixei-o à vontade, até que, por si, abandonou a diversão e alcançou a rua.


Seguimos, dessa vez a pé, penetrando poça a poça na rua de terra. Chovera na noite anterior. Era como se a cada encharcada a surpresa do oculto por baixo da água barrenta, emergisse ao tocar os pés no fundo.


Na esquina, estacionado, estava o trator amarelo da prefeitura. Novinho, arrumadinho. Magnetizado pela máquina pediu para subir. Impossível medir o brilho em seus olhos. Era como se criança e máquina unificassem seus desejos. Sentia-se o tratorista. Brincamos. Em certo momento disse.


— Vovô, eu não sou o José. Eu sou o moço, o moço do trator.


— Moço, vou colocar areia na caçamba!


Sorria atento olhando para trás, observando-me. Estileque... Estileque...


— Moço, pode ir agora. Por aqui!


À frente do motor eu apontava com as mãos os caminhos. De repente, ordenava parar, pois um carro iria transpor. Pura fantasia de avô e neto. Enquanto isso, ele girava o volante para um lado e para outro, balançava no banco e fazia rum, rum, rum...


— Moço do trator, me dá uma carona?


Em pé ao seu lado fingia de ajudante. De repente, movia uma ou outra alavanca, curioso a cada detalhe. Nos divertimos nesses momentos de benevolência, de amizade e brandura um com o outro.


Eram 6:30h, do dia seguinte, quando partimos, eu e ele, em busca do trator.

Notei, uma esquina antes, a falta da engenhoca. Espantei! Nunca imaginaria que tão cedo pela manhã, já estivesse a trabalho. Avisei.


— Iiiii, José, acho que o trator não está...


Fomos aproximando...


— Está sim, vovô. Eu tô vendo ele... Eu tô vendo ele...


Seu desejo de brincar era tamanho que fantasiou. Quando a realidade lhe acometeu, encolhi meus joelhos, cheguei pertinho de seus ouvidos e disse.


— Sinto muito! Sei o quanto queria brincar. Eu queria tanto quanto você... Mais tarde a gente volta.


A feição de choro lhe estampou o rosto. A decepção implodiu dentro de si, mas as lágrimas não escorreram. Algo o confortara. O jeito foi seguir adiante!


Alguns dias depois...


Carecia desfrutar até a última gota seu derradeiro dia. Havia certa aflição em seu caminhar. "Está lá vô, meu trator amarelo!" Brincamos umas duas horas. Não o tiraria dali por nada nesse mundo. Pra quê? Subi na caçamba enquanto ele pilotava. Invertemos. Aprendeu a escalá-lo sozinho. Repetiu essa manobra inúmeras vezes. O painel, as alavancas e pedais eram puro mistério. "Para que serve, vovô?" A criança em seu interior sopitava de regozijo. No seu computar afetivo nada importava além de brincar de trator amarelo!


Cedinho, no dia seguinte, em sua cadeirinha, da janela do carro, nos despedimos. Vão em paz!


O que fazer? Com um vazio enorme no peito caminhei até a padaria. Sozinho. A carência do meu companheirão de todos os dias doía o peito. O trator amarelo estava lá, intrêmulo na mesma área.


Parei. Espiei os lados. Chorei sozinho. Disfarcei e segui.


 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton


Sextou! Opa, dia de... Voltar à Serra do Cipó. Estar de novo com nosso filho e família. Reencontrar o neto!


O asfalto estava límpido. Ando mais calmo ao volante. Seria a idade? Nem tão velho me sinto! Menos verde, talvez.


Abeiramos sua casa. Nada de tão triunfal. Abraçamos e beijamos. Afinal, um reencontro de poucas semanas de saudades. Nem tantas assim! Seu sorriso tímido revelava a esperança de ter sido ouvido.


O drama desenrolou-se duas sextas atrás. Um fim de semana tão intenso, tão cheio de bons quereres, tão íntimo que, com toda razão, tanto ele, quanto nós, cederíamos facilmente ao desejo de prolongar.


O choro antes de nossa partida foi tão verdadeiro e doído que estraçalhou nossos corações. Uma dor visceral, sentida como uma punhalada no estômago, transformou a alegria do encontro em consternação profunda.


Ajeitávamos nossas mochilas, quando ele, José, o neto amado, adentrou o quarto e viu, diante daquela cena, sua ficha cair.


— Quero ir para a casa do vovô e da vovó.


— José, hoje não vai dar.


A força do "não" torceu profundamente suas entranhas. Reuniu os lábios para baixo, curvou levemente os ombros e escondeu-se na cozinha. Pouco depois, entre balbucios, as lágrimas escorreram como em um dilúvio. Um soluço emanou de suas profundezas. Embargado pelo sentimento, quase não conseguiu pedir


— Quero ir para a casa do vovô e da vovó.


Paramos tudo. Ajoelhamos até sua estatura e o acolhemos com os braços. Inconformado aceitou o abraço e de novo implorou.


— Vovô, deixa eu ir para a sua casa?


Desvencilhou-se. Foi até a varanda, sem norte, em busca de algum consentimento. Em desespero mendigou.


— Mamãe, deixa eu ir para a casa do vovô e da vovó? Por favor...


Acompanhamos seu movimento. De corações prensados entre sua dor e a dura realidade, tentamos mais uma vez. Com lágrimas escorrendo pela bochecha afora, estreitamos os espaços com doçura.


— José, dessa vez não podemos levá-lo. Vovô e vovó têm trabalho essa semana...


O silenciar parecia indicar entendimento. Retornamos às bagagens. Veio ele e solicitou a avó alcançar sua mochilinha verde com bordados de papagaio dependurada no alto da parede. Com dificuldade puxou o fecho ecler. Abriu a gaveta da cômoda e retirou roupas aleatórias. Gosta muito de fazer tudo sozinho mas, dessa vez, em prantos, pediu ajuda.


— Vovó, me ajuda a colocar as roupas na mochila!


Nossos corações arcariam tamanho o peso da dor, no entanto, suportaram. Nem sei como! Talvez o sussurro da sensatez tenha falado mais alto.


José continuou chorando, recalcitrante. A convicção exalava do alto de seus dois anos e meio. A mochilinha tombando às costas, confirmava. Espantados com tamanha força permanecemos enturvados e atarantados.


A porta do desfecho foi o celular. Consentiu o filminho do Leo que adora. Deitou-se na cama dos pais. Com os olhos fixos na tela disfarçou e nem se despediu.


Sua voz ecoou zumbindo e conectando seu desejo às nossas possibilidades. Padecemos ligados a ele todo esse tempo. A lembrança daquele adeus permaneceu arranhando nossos peitos. Hoje, sexta-feira, duas semanas depois, viemos buscá-lo.


Dessa vez entrou fácil, fluído! Não titubeou um instante sequer.


— Vai mesmo para a casa do vovô e da vovó sem papai e mamãe?


— Sim.


— Tem certeza?


Insistiu a mãe.


Ao avistar sua mochila, a mesma dos papagaios, no porta-malas junto com sua bicicleta e alguns brinquedos, sentou-se na cadeirinha no banco de trás e, aliviado, dormiu toda a viagem.


Assim, a vida. Que ouçamos as vozes que ecoam.


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

  • Ícone de App de Facebook
  • YouTube clássico
  • SoundCloud clássico
bottom of page