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Atualizado: 27 de abr. de 2021

Gielton



Sujeito excêntrico. Singular e imaginativo. Único formando de bermuda. Xadrez, ainda por cima, em combinação perfeita com as sandálias havaianas e a camisa social lilás. Haja bom gosto!


Típico inventor. Sabe? Alguém que calça ideias e bota para andar? Transforma um troço qualquer em movimento? Faz a roda girar sem grandes fortunas?


Seu olhar abaixado distancia o outro, mas não o impede de ver longe. Não o diria tímido. Desajeitado no trato, talvez. Não inteiramente egocêntrico, mas o suficiente para penetrar em si e ali permanecer. Por horas, dias ou meses. Inacessível. Pensamentos em órbita insistem em girar. Porém, há ação. Um mestre no fazer sozinho. Homem de carreira solo.


Duas filhas desceram dos céus em seus poucos anos de matrimônio. Amou como todo pai. Dedicou como homem do seu tempo. Fez o que pôde e o melhor de si. Não o suficiente para preencher as lacunas do afeto.


Dedicou-se a engenharia. A mecânica da exploração da terra na extração de bens, sólidos, materiais e minerais. A firma era multinacional. Ganhava bem...


Naturalista desde criança em Passa Tempo. Nos tempos áureos de pleno emprego, adquiriu um pequeno sítio. Esse sim, envolvido por uma mata verde, vibrante, com vida que pulsa a cada a seiva, na raiz que se aprofunda, nos troncos que se entrelaçam. Viveu bons momentos em família. A neta aproveitou, quando criança a piscina, os lagos, as trilhas, o córrego que corre ao fundo.


Há alguns anos vive ali sozinho. Uma solidão de gente. A família distanciou-se. A neta adolescente não curte mais as águas. As filhas preferem a vida em cidade. A esposa não suportou. O vazio de pessoas é ocupado com coisas. Ferramentas transformam ideias em utensílios. Uma raíz invertida vira um bizarro lustre de teto. Ilumina o tenebroso. Uma bomba elétrica no riacho chicoteia água pelos poros da irrigação. O jardim, hoje, mal cuidado, recebe água com um simples girar de chave. Assim, os dias passam. As horas são ocupadas entre o mato e a TV, entre a varanda e o computador. Entre o tédio e a esperança.


Se rende. É hora de partir. O corretor chega para avaliar o imóvel.


— Bom dia. Qual o nome do senhor?


A barba branca se mistura à máscara pandêmica. Os óculos grandes denunciam a idade. A protuberância abdominal confirma. Responde.


— Me chamo Galileu.


— Houve um grande cientista com esse nome? Não seria...


— Não tão inteligente quanto eu, porém, mais humilde.

Responde com a frase pronta.


Galileu dá os primeiros passos para apresentar sua residência. Detalhista na essência, vai nas minúcias. Mostra a reforma da cozinha. "Puxadinho de engenheiro", pensa o corretor. A casa é escura, labiríntica... Não há flores, nem toalhas de mesa, observa, perspicaz o anunciante.


Estão agora na suíte. Pequena para o conviver de um casal. Embrenham-se por portas adentro, passam pela sauna e alcançam a piscina aquecida, dentro de um cômodo de pé direito baixo, envolvido por vidros.


— Fiz um sistema de aquecimento que mistura um trocador de calor no telhado com um aquecedor elétrico. Basta ligar essa chave...


Ouve-se um estouro lá dentro acompanhado de um cheiro de queimado. Correm até a cozinha. O quadro de luz, em chamas, denuncia o curto-circuito. Ainda bem que o fogo, sem alimento, se esvai.


Galileu murmura para si mesmo


— Sabia que a fiação não iria suportar. Preciso trocar a chave geral.


Assim, a vida. Pede equilíbrio em seus domínios.



 

Atualizado: 10 de nov. de 2020

Gielton



A noite sem luar foi de cão! Semelhava uma dor desconhecida. Talvez até já tenha sentido antes, mas minhas reminiscências a apagaram. Só me restava empatia.


O choro era intermitente e se misturava a miúdas falas indecifráveis. Aparentemente inconsolável, o sofrimento emparelhava-se ao desespero. Talvez sentisse ódio por estar ali distante do aconchego cotidiano. Ainda não se habituara à distância. Por isso, não sabia o que fazer. Nem ele, nem nós.


Do quarto ao lado, aflito, eu ensaiava alguma reação, mas não sabia como, nem o quê. Assentei-me. Os pés encontram os chinelos pousados sobre a cerâmica. A estranha madrugada atordoava-me. O alvoroço da inquietude borbulhou dentro de mim. Qual atitude? Nada sabia.


Tropeçando no escuro e escorando nas paredes sólidas dei passos estrábicos em sua direção. Ele estava sonolento, mas de olhos descobertos em estado de espanto. Suas costas tangiam o colchão. De braços abertos ao lado do pai me viu na penumbra da porta. Disse em choro:


- Quero vovô.


Abriu os braços e aconchegou-se em meu colo. Meu braço esquerdo apoiou seu peso, enquanto o direito estreitava, peito a peito. Rapidamente sua cabeça acomodou-se em meus ombros. O choro incontido cessou e restaram soluços.


Minha energia veio em sussurros. Suave e firme. Calma e acolhedora. "José, sinto sua dor. Saudades da mamãe, né? Vontade de mamar? Pode deixar, vovô está aqui com você. Eu te ajudo. Conte comigo, com meu carinho, com meu amor. Não posso estancar sua tristeza, apenas aliviá-la, confortá-la."


Respirei fundo. O ar enchia os pulmões enquanto uma sombra translúcida nos envolvia. Uma profunda calma se abateu. Acomodamos um no outro. Sabia que éramos dois, mas tudo se passava como se fôssemos um só. O canal da paz se abriu.


José dormiu. Me senti amado.


Imagem do post em <https://pin.it/3eLkxTh>

 
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Gielton



Conhecia Tangoré desde criança. Seus pais prolongavam fins de semana na casa de amigos. Enquanto os adultos bebericavam e cantavam, brincava nos murundus do terreno árido, descia trilhas, subia fantasias, voava como super-heróis... A cachoeira no interior do condomínio era o prato cheio dos prazeres. Não aturava tanto tempo a frieza das águas, mas nadava como louco do poço até a queda. Pequenos degraus sobre as corredeiras convertiam-se em ricos desafios. Depois batia queixo e tremia feito vara verde. Quase sempre tinha uma canga pronta para agasalha-lo.


O mês era janeiro. Dias antes, Papai Noel havia deixado sua tão almejada barraca ao pé da árvore. Aspirava acampar. Onde? As buscas no pensamento trouxeram, como um filme, jazidas preciosas em forma de imagens de Tangoré! Aquele lugar lhe apetecia. Decidiu. Olhou para o mais novo presente e colheu seu consentimento. Na manhã seguinte partiram.


Seus vastos 15 anos já lhe davam uma modesta experiência com as lotações. Trafegava com algum desembaraço no centro da cidade. Sabia que da Praça Oito à rodoviária era um pulinho. Entrou. Aquele mundaréu de guichês e transeuntes com malas e sacolas o deixaram estagnado. Parecia uma estátua atônita de mochila às costas na porta da rodoviária. Num relance leu: Informações.


- Por favor, onde compro passagem para Rio Abaixo?


O atendente solícito, mas agitado explicou e apontou.


- Quero uma passagem para Rio Abaixo.


- O próximo ônibus sai às onze horas.


- Tudo bem. Quanto custa?


Sacou a carteira, entregou as notas ao funcionário e recebeu o troco. Havia um bom tempo de espera. Conseguiu uma vaga na única cadeira próxima à plataforma. Ficou a observar o movimento. Um “trança trança” de gente de um lado para outro e vice versa.


A cabeça recostada no vidro trepidava enquanto as rodas giravam sobre o asfalto fosco. Viaja em sensações. Quanto mais longe de casa, mais alheados eram os pensamentos. Havia em si certo tormento nessa aventura e um pouco de medo, mas uma certeza meio duvidosa de que tudo daria certo.


- Por favor, pode me indicar o caminho para Tangoré?


- Tem certeza? Daqui lá são vinte quilômetros de estrada de chão. Chegará na madrugada.


Foi sua primeira surpresa. Não sabia que era tão retirado. Disfarçou.


- Eu sei. Vou a pé mesmo.


Ainda perplexo seguiu confiante. O cascalho grosso da estrada deixava o piso escorregadio. Pequenos pedregulhos entravam entre as solas da sandália e do pé causando um leve desconforto. Depois do primeiro carro que passou, pensou: posso pedir carona, que bobagem é essa! Dito e feito. O jovem casal de namorados naquele Gol de duas portas foi bastante simpático, mas ainda faltava um pouco de chão quando se despediram.


A tarde tombava quando chegou. Veio a segunda surpresa. Na entrada do condomínio havia uma guarita. O quê? Pensou. Não sabia que precisava de credenciais para entrar.


- Boa tarde. O que deseja? - perguntou o vigia.


- Hã? É, eu...


- Você tem convite?


- Não... Precisa disso?


- Claro! Aqui só entram os proprietários e convidados.


Em um ataque de esperteza, disse:


- Vou na casa da Amélia e Gilvan!


- Sei... Só que eles não estão. Costumam vir somente no fim de semana.


O jeito foi entrar em tom de súplica.


- Por favor, moço. Vou acampar na casa deles.


- Impossível! Você é filho de quem?


- Sou filho da Norma. Então, tem jeito de ligar para a Amélia e dizer que é o Pedro, filho da Norma?


- Liga você, uai?


Com as mãos em gesto de oração suplicou.


- Eu não tenho celular... Me ajuda aí, vai! Por favor!


Outros carros ingressavam. O Sol descia o morro. A noite escurecia. Dona Lua ficou para mais tarde...


- Aqui, consegui falar com ela. Pode entrar.


- Obrigado, moço. Muito obrigado!


A felicidade não cabia na barraca. A noite, uma criança. O chão duro, uma pluma. A manta, aconchego. O sonho, realizado!


Assim, a vida. Clama confiança.


<imagem do post em https://pin.it/1aznoOy>

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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