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Atualizado: 30 de jun. de 2020

Gielton

O dia era frio, apesar do Sol entre nuvens transparecer certa quentura. O combinado, fragilizado por esse clima aparentemente instável, não os impediu de subir, assim mesmo, até o pocinho. Uma dúvida pairava no ar. Teria sido uma boa decisão? Poucos quilômetros dali desciam a trilha ao lado da ponte velha. Em arco de tijolinho à vista poderia até ser um ponto turístico e histórico, por onde passaram, muito antigamente, tropeiros levando e trazendo diamantes para a realeza. As pedras às margens do córrego, pontudas para um lado só, dificultam o caminhar. Nada que um pouco de prudência os permita alcançar em segurança o local preferido. Estacionam as mochilas e sacolas para o piquenique. Ali viveram bons encontros de outras vezes entre gargalhadas alegres de outros verões. Nesse inverno, encolhidos entre os próprios braços, buscam frestas de sol que amenizem o vento frio circulando misteriosamente o ambiente. O grande astro até dava sua aparecência por alguns poucos minutos. Tão poucos, que cada um, ao seu tempo, decidia: "Acho que hoje não entro nessa água gelada". O mais velho se aventura. Em um pulo só deixa seu corpo mergulhar na parte funda do poço. Sente, de imediato, o impacto. Estremece o tronco. Disfarça com um nado rápido enquanto as águas geladas faceiam suas braçadas determinadas. Depois de algumas idas e vinda está pronto para meditar. Escolhe um ponto de águas paradas, nem tão profundo, nem tão raso. Coberto até o pescoço acomoda-se em equilíbrio. O peito levemente para a frente, as pernas arqueadas e os pés firmes tocando o fundo lhe dão sustentação suficiente para um repouso quase absoluto. Assim, imóvel, sente a frieza da água que lhe acalma. Os olhos cerrados dão amplidão à percepção. Ouve um pássaro ao longe como se o som estivesse ao pé do ouvido. O vento rasga o rosto em uma rajada única que se vai e trás, em compensação, raios que abrandam e tocam gentilmente os ombros nus. A energia circula pela extensão do corpo. Dentro e fora, ao mesmo tempo. Ele sabe que é água. Mentalmente abrevia sua vibração. Deseja um encontro único entre si e o que transpassa a essência. Perde-se de si e encontra o fundamental. O ser que de humano é natureza. Bruta e doce. Em um átimo o peito álgido aquece o coração. Ama a si, a tudo, a todos... Infla! Respira! Comovido, está apto a se devolver à civilização. De volta ao mundo, vê seus companheiros entre biscoitos e frutas a desfrutar de uma atmosfera que eleva o sentimento de pertença.

É hora de voltar.


Imagem do post <https://pin.it/cbOEwne>

 

Atualizado: 4 de jun. de 2025

Gielton


Mãos dadas





O menino só fez uma pergunta e congelou o carro todo. Olha só o que rolou?


Jovem, vinte e poucos anos, estudante universitário, resolve ser Uber recorrendo ao carro dos pais. Estes, apreensivos, colocam em seu embornal uma lista de prudências.


Horários definidos – somente durante o dia – além de regras estipuladas e negociadas, deram ao negócio (um empreendedor?) um ar de aparente brandura. Nos tempos atuais exigiram localização em tempo real pelo Google Maps, GPS, Whatsapp e os cambau!


O pai acompanhava, quando podia, as rotas e trajetos do velho carro. Quando lhe faltava Internet e a foto da cria permanecia algum tempo fixa no painel do celular, batia-lhe um frio na barriga. Pensamentos ruins são como chuchu na cerca, espalham-se numa velocidade atroz. Do córtex frontal atravessando o lóbulo esquerdo, as malditas sinapses induziam batimentos cardíacos acelerados até a atualização do aplicativo. Alívio!


Em casa, de volta da “uberância” do dia – nem sempre com o bom humor necessário – contava causos acontecidos. Tudo indicava uma rica experiência pessoal: conviver com gente, lidar com elas, sentir humores, odores e fragrâncias. Navegar por espaços desconhecidos, adentrar ruas nunca antes visitadas, aprender a ir e voltar. Atentar para os perigos e atrações ao dispor da vida…


Contou, certa vez, que entraram três passageiros: mãe, filho e filha.


A mãe, de aparência simples, trajava uma calça jeans. Tinha o cabelo preso atrás por uma gominha cor-de-rosa. Observou quando, ao sentar no banco de trás, se virou para ajeitar o cinto.


O filho, ainda criança, sentou-se ao seu lado. Tinha um olhar curioso. Sorvia o mundo em todos e por todos os sentidos. Inquieto, o motorista pôde perceber, pela ligação. Uma espécie de 220 volts alternado! Virava-se daqui, mexia ali, interrogava acolá. Girando a maçaneta, abriu o vidro e pôs o queixo para fora. Exclamou antes da partida: "viu o fusca bege, mãe?".


Quase ao mesmo tempo, a filha, ruiva e descolada, sentou-se à frente deixando à vista as tatuagens de animais no braço e o piercing entre as narinas. Deveria estar próxima dos dezesseis anos. A mini saia deixava suas magras coxas à vista. A sandália gasta deixava à mostra as unhas com esmaltes pretos e desgastados.


Logo após a partida, o garoto que estava vidrado na vitrine em frente pergunta:


— Mãe, o que é sexshop?


O condutor segurou o riso, fez para si uma cara de espanto e observou a expressão de desprezo, com um franzir de lábios, da passageira ao seu lado. Pôde ler seu pensamento. "Vê se pode, a pergunta desse pirralho!"


A mãe desconcertada, sem saber o que dizer, disfarçou em um silêncio que imobilizou todo o interior do automóvel..


Movendo os pés entre o acelerador e a embreagem o “uberista” arrancou. Como se esse andar da carruagem ativasse brechas no pensamento, o garoto repete.


— Mãeê, o que é um sexshop?


Diz ele – o motorista – que sentiu o aperto da mãe quando uma tosse seca, sem aviso prévio, saiu forçadamente de sua garganta. Não havia secreção e muito menos coriza...


Surpreendentemente a irmã reorienta o dorso para trás e diz:


— Carlinhos, sabe como é, né? As pessoas se apaixonam. Quando isso acontece, elas gostam de se presentear. Para isso serve o sexshop.


— Ah... Mas por que elas não compram no shopping normal?


A jovem, a essa altura, demonstrava sua sagacidade e perspicácia. O motorista já havia percebido. Ela continua:


— As peças vendidas em sexshop são íntimas de um casal e próprias para momentos de namoro, entendeu?


Em poucos segundos, a mudez se desfez novamente em um rompante de clareza.


— Ah, sim... Sexo Shopping - presentes para a hora de transar!!!


Assim, a vida. Como crescem rápido!


A imagem desse post está em <https://pin.it/3Jz4tU4>

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton


Minha filha, ao volante, entra na garagem. Confunde-se com os vários controles remotos emaranhados na mão. Eu, na cadeira do passageiro, penso. "Deveria manter o controle consigo para fechar o portão mais rapidamente". Porque ainda julgo atitudes dos outros?


Era noite e voltávamos da Telha Norte, uma enorme loja de produtos para casas em construção ou reformas. É o meu caso. As cerâmicas do banheiro estufaram. Aí, já viu. Obra interminável!


Ela diz amedrontada mirando o retrovisor:


- Há uma movimentação estranha no portão. Parece uma sombra indo e vindo.


Desci rápido do carro. A essa altura, o aparelho desembolado, já ativara o fechamento do portão. Chovia lá fora. Nossa! O céu tem é desabado água nesses tempos. Da grade do portão a vi. Era a senhora, moradora de rua que, de vez em quando, passa a noite sob nossa marquise. Puxei assunto.


- Boa noite, como vai a senhora. Anda sumida.


Com seu jeito acanhado e a voz enforcada para dentro da garganta, veio com a lorota de sempre para pedir alguma coisa. Qualquer coisa!


- Ah, hoje estou querendo tomar um banho quentinho no centro. Tem lá, dez reais.


Saquei minha carteira do bolso. Havia uma nota de cem, duas de vinte e uma de dois reais. Dei-lhe vinte reais. Como se um rompante de humanidade me acometesse. Fugi do meu padrão, sem motivo aparente.


- É para seu banho, hein? - Ordenei


Imensurável o tamanho de seu sorriso. A boca escancarada e a gengiva aparente, seguida de "Deus lhe pague", foi sua forma de agradecer. Virou-se e seguiu adiante, como se não houvesse tempo a perder no tocar a vida.


No dia seguinte, José, o neto, depois de ganhar beijinhos dos avós na cama, me acompanha até a padaria. Avistei-a assim que o "tec" da trava elétrica soou.


- Bom dia. Como vai a senhora? Foi ao banho ontem?


Ela desceu a rua aproximando-se de nós. Titubeando disse.


- Fuuuui... Não, eu não vou mentir. Ontem, sabe aquelas pizzarias do lado de lá da Amazonas? Comprei uma pizza e comi inteirinha... Uma delícia. Deus o abençoe.


José, impaciente danou a subir a rua. Fui atrás. Na volta, com os pães debaixo do braço, a interpelei novamente.


- Então, a pizza estava boa? Como a senhora se chama?


- Lu...


- Como?


- Meu nome no documento é Luci, mas me chamam de Raquel


- Luciana?


- Isso.


- Mas, porque te chamam de Raquel?


- É que um dia eu disse que queria um nome de princesa. Raquel.


- Bonito nome. E porque a senhora está na rua?


Seu semblante entristeceu. Cabisbaixa, tentou esconder as lágrimas que gotejavam na ponta do nariz. Sem conseguir disfarçar, embargada, completou.


- Não gosto de falar disso. A tristeza aumenta muito... A dor vem com força...


Enquanto conversávamos, pensava. Isso pode dar uma boa crônica. Maldito pensamento. Apropriando-se da dor do outro para benefício próprio? Como pode ser tão perverso?


- Onde nasceu?


- Monlevade. Um dia ainda volto para casa. Vou só resolver alguns problemas primeiro.


Humm, sei. Fui entrando. Antes que fechasse o portão ela veio atrás pedindo algo. Eu não entendia sua conversa atarantada, como se uma trava na língua não lhe desse mobilidade suficiente. Na dúvida disse:


- Hoje não tenho dinheiro. Paguei a padaria com cartão.


Mentira! As mesmas notas estavam na mesma carteira. Nem pensar em dar vinte reais de novo.


- Não quero dinheiro. Queria um café com leite quente.


Ducha de água fria em minha maldade.


- Espere, vou ver se consigo.


Lá de cima gritei. Luci! Você está aí? Ouvi sua voz rouca e trêmula. Desci com uma caneca de café com leite.


- Aqui está.


Apanhou com as duas mãos.


- Deixo a caneca aqui depois.


- Não, pode levar. A senhora fuma craque? - perguntei quase sem querer.


Porque ainda desconfio das pessoas?


- Deus me livre!


Subiu a rua assustada.


<A imagem desse post está em https://pin.it/1btq9J4>


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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