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Gielton



"Sim", ela disse subliminarmente, como se fosse ao pé de ouvido. Ele levantou-se da cama, passou os dedos por entre os cabelos grisalhos e, intrigado e distante, vagou em pensamentos. Seguiu a vida atribulada, atarefada. Afinal, tanto a conceber, tanto a adquirir. O mundo não pode parar. De repente, uma cravejada no coração, um bambear de pernas, um suor frio e seco. De úmido, só a dor e o medo, transpirando pelo corpo todo. O sofá do escritório foi seu cúmplice. Aconchegado em seus braços, chorou lágrimas de tristeza, lágrimas de incertezas. "Calma", disse a voz misteriosa. "Proponho lhe um trato". Ele pensou: um pacto? Venderei minha alma ao diabo? O que se passa? Quem você pensa que é? Ela, placidamente, explicou. "Almejo experimentar a vida. Em troca, concedo-lhe mais tempo". Acordados, tornaram- se amigos nesses poucos dias de convivência intensa. Ela incorporou-se em uma linda mulher amável e acolhedora. A inteligência nata, mesmo que, para pequenas coisas do cotidiano, fosse, às vezes, inábil e desajeitada, evidenciava-se pela altivez de suas decisões. Sua sensibilidade à vida era cristalina. Valorizava cada átimo. Perspicaz na leitura de almas. Em um piscar de olhos a intenção por detrás das ações alheias delatava-se a si mesma. Tudo captado como se do além. Ele parou tudo! Não havia mais o que conquistar senão o amor. A serenidade invadiu-lhe em atitudes. A gratidão tomou-lhe a graça. Era preciso apressar. Apaziguar as relações. Recuperar o que fosse possível. Reconciliar consigo e focar no que de verdade importa. Tocar suavemente nas profundezas daquilo que fora depositado no fundo da alma. Submergir. Ambos aproveitaram-se um do outro. De mãos dadas nas buscas individuais trilharam rotas de fugas ao comum. Enfrentaram-se, cada um a si mesmo. Ela apaixonara-se pela vida. Ele se prontificou para a morte. A morte e a vida foram, então, lado a lado, em comum acordo, ao encontro do destino inevitável, pois até a morte precisa, um dia, morrer. (Inspirado no filme Encontro Marcado dirigido por Martin Brest)

 
  • Foto do escritor: Gielton
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Imagine uma mulher. Circunde-a com obstinação e tenacidade. Anteponha pujança emocional, força de propósito e vigor energético. Pois é. É a Bené. Baiana de Prado, ainda adolescente veio para São Paulo indicada por uma amiga da prima. Ficava por conta da filha única do casal, que mais parecia uma "Barbie". Pele branquinha, olhos azuis e cabelo loiro. Com seus pouco mais de três anos sentia-se a filha do coronel. Mandava e desmandava na criadagem. Era cheia de vontades. Ai de quem não a atendesse. Bené suportou bem. Resignava-se o bastante para manter o emprego. Mas sua determinação a colocava na frente. Anos à frente! Passava pela cozinha e estendia o pescoço. Queria saber. Queria aprender. Juraci a adotou. Ensinou-lhe sobre carnes, molhos, massas, saladas... Era só a "princesinha" dormir e lá estava Bené a xeretar as bancadas de mármore companheiras do fogão. Hoje, nas entrevistas para novos empregos, avisa logo: não gosto de cuidar de criança. Até fico um pouco, mas meu negócio é casa e cozinha. Trabalho não lhe falta. Orgulha-se de sua profissão. Gosta do que faz. Aprendeu a driblar o preconceito. Responde prontamente quando desdenham de seu trabalho em casa de família: o pouco que conquistei na vida com meu suor. Não devo nada a ninguém. É daquelas que inclina a cabeça contra a luz para apreciar a sala brilhante depois da cera. Aguarda ansiosamente os elogios culinários vindos da sala de jantar. Basta um "humm" para se sentir recompensada. Reflete os processos. Faltou sal, da próxima... Melhor começar pela roupa, assim, enquanto... Viveu as conquistas da profissão. Carteira assinada, FGTS, seguro desemprego... Hoje as coisas parecem dar passos para trás. Junto do irmão adquiriu meio lote descaído para o fundo. Duvidaram dela. "Bené, gastadeira como é, não vai conseguir construir". Bancou. Fez tudo sozinha. Administrou pedreiros, carpinteiros, bombeiros... Olha que seu pai e irmão são do ramo. Rejeitou as ajudas. Das melhores casas da região é lá que a família se reúne para os festejos natalinos. Ainda lhe faltava o carro. Comprou um Pálio 2008, novinho, excelente estado. Duvidaram de novo. Mulher não sabe dirigir. "Mulher no volante, perigo constante." Tirou sua carteira de motorista depois da quinta tentativa. Em uma delas xingou o avaliador por avisar em cima da hora a conversão para a esquerda. Nem deu tempo de mover a alavanca da seta. Bancou de novo, se fez forte, superou. Quem vai com a Bené para Prado nesse fim de ano? Aí é uma briga danada entre sobrinhos, cunhados e irmãos. Tornou-se a motorista preferida! Lá, entre uma praia e outra, roda e roda, de casa em casa, de cidade em cidade, visitando e acolhendo a parentada. Assim, a vida. Não duvide das Benés...

 

Gielton



Abandonou os cuidados com a jardineira desde quando a vizinha de baixo queixou-se das pétalas das flores entupirem o ralo da sua varanda. Vê se pode!

Da rua, a grande janela do terceiro andar, era sem graça, sem plantas, sem cor, sem cheiro... Apenas um grande vidro, acima do pequeno jardim desativado. De vez em quando, a cortina fechada isolava ainda mais o apartamento do resto do mundo.

De cima, da janela para a rua, a terra seca marrom fosco e sem vida simbolizava a tristeza de um tempo de aparente descuido. Meses de chateação com a moradora do segundo andar.

A planta verde, às vezes florida, debruçando-se sobre a cerâmica dava boniteza à fachada do prédio. Trazia sentido àquele cubículo premeditadamente construído para enfeitar os olhos de quem passa pela rua. Fazer o que? Priorizou a política da boa vizinhança.

Tempo é aliado na transformação de energias que se acumulam. Tempo é amigo dos pensamentos armazenados e dos sentimentos que se diluem.

Os cactos do terraço olharam para ela e, delicadamente, disseram: "você pode deixar sua jardineira linda conosco". Foi a deixa. Que dica!

Arrumou tudo novamente. Dos pequenos vasos, diretamente para a terra da jardineira, foram mandacarus, almofadas de alfinetes, cacto de pera, cacto San Pedro... Não contratou floristas. Usou do seu bom gosto e, com a ajuda do filho do meio, replantou um a um, compondo um conjunto harmonioso de verdes, espinhos e flores. Detalhe, as suculentas não pendem sobre a mureta.

Faltava a "coroa de frade", com o qual se encantara em uma visita a amigos. O espaço reservado entre as pedrinhas brancas a aguardava. Ocuparia seu lugar em sintonia com os vizinhos sem competir por água ou sol. Tem para todos.

Entre uma e outra compra de natal se deparou com a raridade numa flora. Caiu para trás quando a atendente disse-lhe o preço: 900 reais! Talvez tenha que desistir, pensou.

O mundo dá voltas. Tudo pode fluir a favor quando se está conectado. Ela não sabia, mas na Serra da Capivara uma "coroa de frade" a esperava. Quantas e quantas apreciou nas pequenas trilhas em plena caatinga piauiense. Encrustadas entre pedras, soltas na imensidão, grudadas como casais ou solitárias que nem ermitãs. Lá, "coroa de frade" é mato.

De longe avistou, na porta da lojinha de artesanato no Povoado do Mocó, seu sonho de consumo do agora. Os espinhos quase perpendiculares ao corpo arredondado contrastam com uma auréola rosa no alto da cabeça. Ela perguntou ao guia local.

_ Será que ela vende?

A negociação foi ligeira. Em menos de dois dias, embalada em uma caixa que encaixou como uma luva, a "coroa de frade" despachou-se no guichê do chek-in para um longo voo até sua nova casa.

Aquela "coroa de frade" ocupou seu trono na jardineira. Era só o que faltava! Ah, o preço? Vinte reais!

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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