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Atualizado: 3 de set. de 2025

Gielton




Folhas de plantas ao por do sol


Estive hoje em um velório. Caminhando sobre a grama, antes de alcançar o saguão, o bailado de uma folha me resvala o nariz. Segue sua dança como se tocar o chão fosse uma mera consequência. Este átimo da natureza trouxe consigo uma aura em forma de pensamentos: seria a morte arbitrária? É justa a vida?


Poxa, há tantos casais estranhos, que se esbarram em cada esquina, cujos olhares são como pontas de uma lança atingindo âmagos. Logo ele que, junto a ela, brilhavam em uníssono. Cantavam as mesmas notas em harmonia como o violino e o violoncelo. Partilhavam o fluxo com tanta leveza e profundidade.

A morte é um refletir-se sobre a vida. E se fosse comigo? E se fosse eu quem continuasse ou deixasse minha amada?


Talvez pediria como Noel Rosa.


"Não quero flores

nem coroa com espinhos

só quero choro de flauta

violão e cavaquinho"


Dei alguns passos para fora e aquietei-me em um canto. Encontrei um lugar onde meu corpo sofresse menos peso. Deixei as pálpebras caírem e os cílios, feito uma cortina de rendas, trazerem uma leve penumbra. É necessário tempo para sair de um mundo e entrar em outro. Aos poucos fui me deixando.


Os sentidos aguçados tornaram estrondosos os sons do hall. Um borbulhar de gente papeando. O perfume adocicado das coroas de flores se misturava ao cheiro do café. Um ranger de cadeira cortou o ar. Não havia notado até então os risos de encontros entre velhos amigos.

Mesmo assim, fui indo. Para dentro ou fora de mim? Nem sei…


Quando os ouvidos não mais distinguiam os sons em forma de matéria, escutei algo vindo da curva do pensamento.


“A película do filme da vida é translúcida. A visão não capta sentidos, apenas silhuetas. O essencial se esconde nos interstícios: no que se perde, no que não se pode nomear.”


Assim, a vida. Não se explica: atravessa.

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 18 de ago. de 2025

Gielton




Ampulheta quebrando


Quem é essa entidade que nos aprisiona? Ou nos liberta?


Anda sempre para frente, como quem mira uma meta tangível e persegue um fim atingível.


Para alguns, arrasta-se como uma tartaruga. Para outros, segue a passos largos de um gigante.


Não perdoa. Pode atropelar com o peso do “nunca mais” ou sussurrar com “ainda dá”. Mas, nunca, nunca pára — mesmo quando alguém em desespero grita: espera! Sua sina é seguir, descabelando os atrasados ou amparando os adiantados.


É abstrato, mas incorpora o real no simples transcorrer. Avança leve e constante como quem mede a estrada pelo próprio passo. Faz o dia virar noite salpicando alaranjado o horizonte. Pinta o ar de cinza enquanto as madrugadas tornam-se manhãs. Põe fim à dor. Simplesmente passa diluindo mágoas, curando feridas ou alinhando eixos.


Durante muito tempo competi com o tempo. Minha lógica cartesiana era ludibriá-lo com minha esperteza, em atalhos e desvios. Acordar pela manhã junto à queda do último grão de areia da ampulheta, era a meta. Atingiria, assim, o ápice do descanso para, em seguida, sair correndo como um atleta dos cem metros rasos.


Sentia-me vencedor.

Dono das próprias verdades.

Dono das próprias vaidades.


Desde que minhas primeiras rugas sintonizaram-se à maturidade, me tornei amigo do tempo. O escuto como quem ouve um vinil na vitrola e aprecia detalhes do encarte. Já não corro, caminho a seu lado sentindo os segundos repousarem sobre a palma da minha mão.


Aprendemos a nos respeitar. Entendemos juntos que basta estar. Basta sentir. Que cada instante é único e sem retorno. No entanto, logo adiante é permitido voltar e trocar as palavras, os gestos, os jeitos.

E neste afã, abrigar a mulher amada com o silêncio da escuta. Deixar a dor do outro penetrar em doses razoáveis. Viver a presença sem sombras nos calcanhares.


O tempo é um jardineiro que cultiva memórias e colhe despedidas. Me ensinou a plantar pausas, regar silêncios e colher amor. Se ontem foi carga pesada em meus ombros, hoje é vento que impulsiona meu veleiro.


Assim, a vida! No passo do tempo, encontro meu próprio ritmo.

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton




Estacionei o carro em uma rua lateral. Atravessei a Contorno e já estava na praça. Nada sabia sobre o evento, apenas que minha mulher cantaria no coral.

Fui chegando de mansinho. Descendo a rua, vi gente, bastante gente. De um lado, técnicos preparavam o som. Mais abaixo algumas barraquinhas... Seria uma festa junina, em pleno agosto? No meio do quarteirão um aglomerado de pessoas bebericando, conversando, trocando energias. Havia um grupo de samba dentro de uma garagem. Música boa, agradável aos ouvidos.

Ainda meio ressabiado avistei meu médico homeopata, também cantor do coral. Um abraço afetuoso para entrar no clima. Fui entendendo aos poucos.

Um encontro, deliberadamente programado, para alimentar nossa esperança. Gerações se encontram. Grisalhos cantam "Criaturas da noite" e ensinam jovens de sorriso largo um modelo de ser. Fizemos, e faremos de novo, se preciso, juntos.

Cada detalhe não pode passar despercebido. A roda de samba, de Noel, Nelson e tantos outros, dá vez ao coral da Marilu. Em plena praça as vozes de senhores e senhoras ecoam canções que trazem ânimo.

Nos entornos, uma guria se aproxima de seu grupo e com um pequeno toque no cabelo, primeiro sorri, diz algo e abraça afetivamente a jovem negra de cabelo black.

Do outro lado, um rapaz, lindo, de barba aparada, parecia vestir um pijama rosa de estampa preta. Camisa e bermuda. Aparentemente másculo e, ao mesmo tempo, tão feminino! Os lábios movem-se em uma fala delicada e o olhar atento ao interlocutor revela interesse.

No palanque improvisado a artista famosa canta Angola levando com ela as vozes do público. Há reverberação para o bem! Há sintonia para a luta. O vereador em discurso antiquado ocupa seu espaço. Deixa seu recado.

Sinto-me agora integrado ao espaço, às pessoas, à causa. Partilho ideias com amigos. O mundo anda louco. Nosso país, nem que o diga, está pra lá de esquisito. Banalizamos o ridículo corriqueiramente. Discutimos o vazio enquanto interesses maiores articulam. Nunca imaginei, nessa idade, já avô, viver algo semelhante, de tamanha decadência! Mais parece um pesadelo. Estamos despencando de um grande desfiladeiro.

Por trás dos galhos secos da árvore, bem no alto do céu limpinho, a Lua, quase cheia, se apresenta. Ilumina menos que as lâmpadas da rua no lento anoitecer. Pena, tem menos força na cidade grande. Mesmo assim, olho para cima, paro e escuto o que tem a me dizer.

- É a vez deles. Essa é a turma que "segue em frente e segura o rojão".

Entendo que da "boniteza" da juventude nasce a esperança, leve como uma pluma, quase imperceptível, mas capaz de mudar o estado da coisa.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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