top of page

Gielton



Às vezes a vida nos toma e os espaços de tempo ficam totalmente preenchidos, como um copo d'água prestes a transbordar depois da próxima gota. Parece até que a Terra gira mais rápido. Alguns dizem que o tempo é psicológico. Outros, que o tempo é priorização. Seja o que for, de vez em quando ele sai do eixo e muda seu ritmo.

Estou assim há alguns dias. Sem tempo para nada. Mas como assim? Tenho feito tantas coisas, atendido tantas demandas! Porque essa sensação de atolamento?

Ah, sim, os prazeres clamam por si. Entre eles, a vontade de escrever. Mas, para onde foram as ideias? Mesmo que os polegares queiram frenetizar no teclado do celular, não há espaço no dia. A vida anda tomada, conectada a uma de 330 volts. A eletricidade flui pelo corpo e acelera os pensamentos. Dá até um "tesãozinho" esse modo de neurônios neurados. Outro dia, nem banho tomei. De acompanhante no hospital caí direto no trabalho e vice-versa.

Em meio a esse desalinho eis que surge uma festa de amigos de velhos tempos. Mesmo nesse corre-corre alucinado, optamos pelo encontro. Internamente algo dizia: é necessário.

A recepção foi mais do que afetuosa!

- Quanta honra! Até que enfim vieram à nossa casa.

Nós dois, numa falta de graça danada, respondemos.

- Que isso, nós quem agradecemos ao convite. Viemos prestigiar seu niver.

O quintal de terra estava lindo. Uma jabuticabeira dava vista aos olhos de seus frutos ainda por vir. A fogueira, ao fundo, aquecia, de longe, a noite fria. À mesa, pés de moleque, canudinhos e cocadas coloriam com gosto de infância.

- E o neto? Como vai?

- Bonitinho toda vida. Nem é bom comentar, senão vamos destrambelhar a falar.

- E as ESCRIVÊNCIAS? Nossa, seu último texto foi espetacular. Você não tem noção do quanto toca as pessoas. O alcance das suas palavras parece sem medida.

Ai meu Deus. Será? Como assim? Os comentários do Facebook são indicativos, mas, nem tanto. Devagar com o andor!!!

Outra grande amiga do tempo das antigas se aproxima:

- Estou adorando as ESCRIVÊNCIAS. Gosto de ler. Sinto paz e calma, além das reflexões profundas sobre a vida. Espero pelo livro, hein!

Nessa hora ele inflou. Tive que cuidar para não subir ar adentro com perigo de estourar o ego e esborrachar no chão. Brotou aquele sorrisinho sem graça para disfarçar. Enfiei a mão no bolso e desviei a atenção.

Ficamos por ali tempo suficiente para acalmar a agitação interna. Escolhemos um canto para sentar e deixarmos a vida fluir, leve, fácil, sem esforço. Entre deliciosos caldos, confortáveis ao estômago, passaram histórias do Monte Everest, recém-visitado por um dos amigos. Impactante! O filho da aniversariante, já crescido, nos foi reapresentado em um vídeo debulhando uma sanfona. Lindo!

Com o ego acalmado foi possível pensar com mais clareza. Que mal existe em tocar as pessoas? Qual o problema em receber elogios? Isso é ser vaidoso? Podemos cultivar a vaidade?

Porque não? Afinal viemos ao mundo para nos sensibilizarmos mutuamente. Trocarmos nossas energias. Transitarmos entre as consciências. Se nossa verdade transmite boas coisas, que mal há?

Ah, sim, a arrogância anda perto, caminha do lado. Facinho pular a interface para o lado de lá. Dela, sim, é bom cuidar. Deixar o "fodismo" quieto em seu canto e seguir.

Voltei outro para casa, afetado pelo afeto das amizades. Algo de eixo reencaixando e deixando mais lento o oscilar do pêndulo no tic tac cotidiano.

Assim, a vida. Até consegui mover de novo os polegares! Obrigado amigos.

 

Atualizado: 25 de nov. de 2025

Gielton

Mão de um idoso recebendo água de uma torneira

Por que tentamos segurar o que escorre?


A vida é frágil, todos sabemos. A morte é a certeza da vida. Deste mundo não levamos nada. No entanto, caminhamos como quem segura água com as mãos, agarrando o que escorre. Apego é tolice antiga que não soltamos. Por quê? O que nos faz tão tolos?


Andei pensando sobre isso. Estou na idade dos pensamentos futuros. Tipo, o que será de mim na virada da página do calendário?

As crianças, peritas do instante, brincam sem medo de perder o tempo. Imersas, lambuzam o queixo apenas para decifrar o sabor vermelho dos morangos. Os jovens, ousados e equilibristas da vida, encaram as paixões como se fossem eternas. E são!

E nós, os já avós, como negociamos com o tempo escasso e, ao mesmo tempo, abundante?


Sabedoria, talvez seja a palavra mágica. Essa não brota do chão mal semeado, nem cai do céu como em dias chuvosos. Muito menos invade os pulmões, como o ar que não pede licença. É uma alvenaria lenta e solitária, tijolo a tijolo. A argamassa que transborda pelas beiradas vem em forma de perdão e aceitação sem julgamentos.


Sabedoria seria o fruto maduro das boas escolhas? Um jeito sereno de estar consigo diante dos outros? Aceitação como chamado para o mais? Ou apenas uma escuta capaz de parar o relógio?


Seja o que for, quero alcançá-la. Deixar fluir a certeza do inesperado. Sentir plena a existência enquanto há tempo. Ser apenas eu em essência. E amar… Com o coração, a voz, as entranhas, o corpo todo. Amar com a alma até transbordar!


Pronto, no dia da partida, fechar a porta com delicadeza, dar um "até logo" baixinho e seguir como quem cumpriu a própria travessia.


Assim, a vida! E só…

 

Gielton




Netos são criaturas especiais. Além de anjos recém chegados do céu, são crianças de grande sabedoria.

Estava morrendo de saudades do José. Não nos víamos há mais de duas semanas. Da última vez a despedida foi chorosa, sentida por nós dois. Tivemos que partir e deixá-los. A vida clama por compromissos inadiáveis.

Voltamos ontem, quinta-feira da paixão. Já anoitecia. O trânsito chato de Lagoa Santa me deixou ainda mais ansioso por vê-lo. Ainda dentro do carro disse para a turma que viajava comigo:

- Gente, se o José já estiver dormindo, juro que vou acordá-lo. Estou tomado pelas saudades.

Que nada, passou o dia ansioso com a chegada dos avós, disse a nora querida. Ela, sim, tem autoridade. Faz as leituras mais precisas do filho.

Quando entrei na casa com um monte de bagagem dependurada pelo corpo ele já estava no colo da avó. Assim que me viu, abriu um sorriso tão, mas tão genuíno que me derreti todo. Me liquefiz quando estendeu os braços fazendo um movimento em minha direção. Larguei as tralhas do jeito que deu e o apanhei. Sussurrei no seu ouvido:

- Vovô tava morrendo de saudades desse menino.

Grudamos. Agarramos um no outro. Parecia o reencontro de dois velhos amigos com muitas histórias para contar, mesmo que apenas através de balbucios.

Restavam ainda algumas sacolas no carro. Fomos buscar. A intimidade era tamanha que pegou meu indicador esquerdo e começou a morder. Disse:

- Ai José, tá doendo.

Ele continuou, devagar. Até que apertou com força. Doeu de verdade a mordida de mais de seis dentes. Ainda não tem a medida do seu vigor. Reativamente gritei, sem grandes escândalos:

- Ai, ai, ai...

Sua feição mudou e um choro sentido saiu de suas entranhas. Os profundos soluços e lágrimas nos olhos podiam ser traduzidos como:

- Vovô, não briga comigo.

Imediatamente lhe pedi desculpas e tentei suavizar sua tristeza. Andamos um pouco pela rua para ver a Lua cheia alta no céu. Sessou o choro. Será que me perdoou?

No reencontro com a mãe caiu em prantos novamente. Recebeu, então, o outro colo, daquela que ainda o amamenta.

Pensei, eita avô bobo. Se achando o mais querido, toma!! Crianças são inusitadas. Esse garoto é sensível ao tom de voz mais forte. É tocado por qualquer expressão mínima de agressividade. Seria uma forma de manter a pureza e se proteger das pancadas da vida?

Hora do banho. Entrei no chuveiro e pouco depois a vovó o trouxe. Abriu aquele mesmo sorriso e se inclinou. Deitou a cabecinha no meu ombro e ficou ali, sentido a água quentinha do chuveiro sobre as costas. Nessa hora tive a certeza que me havia perdoado. Quanta sabedoria. Quanta boa energia. Que delícia sentir sua calma na fluidez da água.

Saiu chorando, como quem diz:

- Deixa-me ficar aqui, um pouco mais, com meu avô!!!

Da sala da TV ouvia suas gargalhadas de alegria enquanto o tio e sua namorada brincavam com ele no quarto vizinho. Criança feliz. Vive cada momento de uma vez, um a um no seu turno.

Pensei, vão agitar o menino e atrapalhar sua hora de dormir. Que nada. Pouco depois saímos para a rua silenciosa do bairro. Já havia coçado os ouvidos e bocejado o suficiente. É assim que expressa seu cansaço. Era hora de dormir. Teria a calma suficiente para se entregar?

Comecei a cantar: "Uma bonequinha preta..." A mesma canção a qual já adormeceu várias outras vezes comigo. Dessa vez foi diferente. Surpreendentemente deitou novamente sua cabeça sobre meus ombros, como quem diz:

- Vovô, estou cansado. Conheço sua energia e confio. Sei que é hora de dormir.

Em pouco tempo adormeceu. Senti seu peso relaxando aos poucos sobre o meu corpo enquanto caminhava à luz brilhante da Lua. Vontade de ficar ali pela eternidade.

Assim, a vida. José tem menos de um ano e a sabedoria que muitos de nós deixamos escapar.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

  • Ícone de App de Facebook
  • YouTube clássico
  • SoundCloud clássico
bottom of page