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Atualizado: 6 de ago. de 2025

Gielton


Pedaço de abóbora




Você também odiava legumes na infância?


Abóboras no carro de boi se ajeitam e se encaixam a cada solavanco. Os pequenos vazios se entrelaçam aos gomos que roçam uns nos outros, tecendo uma rede de contatos ao longo do caminho. Metáfora da vida?


Confesso, quando criança não gostava de legumes, quase nenhum. Preferia o tradicional bife, passado em duas frigideiras pela minha mãe, com batatas fritas, arroz e feijão. A carne vinha com um caldinho especial, bom de molhar o arroz e deixá-lo em tom amarronzado-escuro. Hummm… que delícia!


Abóbora? Nem pensar. A textura não agradava. O formato disforme causava certa ojeriza. O sabor? Esse não descia "nem a pau". Era preciso tapar o nariz para suportar o cheiro, mesmo com o preparo cuidadoso.


Bebês são incentivados a saborear legumes quando colherinhas viram aviões que entram nas garagens de seus bocões abertos. "Iõnnn". Às vezes, aceitam, outras, não. Para as crianças crescidas, as brincadeiras onomatopaicas dão lugar a outros convencimentos.


— Mãe, não gosto de abóbora.


— Vou deixá-la amassadinha no feijão. Você vai ver que delícia!


O feijão batido se alaranjava e perdia o gosto. Buscava nos cantos do prato a parte roxinha não misturada para evitar o sabor da abóbora. Quando possível, furava a gema do ovo mole para disfarçar o paladar.


Enquanto as abóboras continuam seu balé nos carros de boi, meu gosto foi aprendendo novos passos. Já moço, seguindo as pautas do meu tempo, tornei-me vegetariano. Parei com a carne e foi assim que a moranga, abobrinha, cenoura amarela, vagem e couve foram conquistando espaço no meu cardápio.

Na estrada, levando comigo a sombra da infância, fui incorporando novos tons ao paladar. De carona, viajamos, eu e minha namorada, pelo Brasil afora. Uma panelinha amarrada à mochila era a base do nosso cuidado alimentar. Ao lado da barraca armada na areia da praia, improvisávamos nosso próprio fogão à lenha. Ali mesmo, cozinhávamos sempre o mesmo prato: carne de soja com abóbora. Barato, simples, cheio de sabor.


Hoje, com a medalha de avô no peito, degusto com gosto abóbora cozida, assada, no caldo… Sua cor me enche os olhos e seu sabor me apetece. Deleito-me com sua consistência entre a língua e os dentes.


— Alô mãe, vou fazer o sacolão aqui de casa. Se quiser, aproveito e compro alguns produtos para a senhora.


— Quero sim.


— Então, me passa a lista, pelo telefone mesmo, que eu anoto.


— Cenoura, vagem...


— Ok, tudo anotado. Cenoura, vagem... Abóbora?


— Não, abóbora eu não gosto.

O silêncio me toma e um filme desfia meus afetos. Vejo imagens de encaixes aos solavancos como gostos que se aprendem ou se deixam para trás.


Assim, a vida! Quantos segredos moram nos sabores da infância!

 
  • Foto do escritor: Gielton
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Gielton


Garoto esperto! Desde muito novo era um ás na bicicleta. Eu tinha uns dezesseis, ele, uns dez. Minha bicicleta era de gente grande, a dele, de gente pequena. Andávamos juntos pelas ruas do bairro, a Nova Granada, quando seus pais iam nos visitar. Sua mãe era sobrinha da minha.

Dessas deliciosas pedaladas, quase infantis, nasceu um sonho: seria eu jovem o suficiente para bikear com meus filhos?

Águas de muitos carnavais passaram debaixo da ponte. Ela, quase bebê, se sentava na cadeirinha presa ao guidão e ajam domingos de Sol para pedaladas e pedaladas. O segundo, ainda caçula, também se esbaldava com o pai ciclista. Ambos adoravam. Eu, nem se fala.

Itaúnas, cenário de praia e dunas no Espírito Santo, teve nossa preferência por anos a fio. A magrela e a cadeirinha iam dependuradas na traseira, quase caindo BR afora. Um dia eles cresceram. Agora eram três bikes atadas ao porta-malas do Voyage preto, além de tantos outros babilaques. Tudo destinado ao prazer das férias.

Em terra firme, a pergunta era recorrente.

- Onde você alugou as bicicletas?

Orgulhosa era a resposta na ponta da língua.

- Não, eu as trouxe no carro.

O espanto era a consequência.

Ensinar a se equilibrar foi o primeiro passo. Segurando no banco, correndo atrás e dizendo "vai, pedala". "Não para"... "Continua"... Até...

- Ô pai, você me soltou! - Viu? Você já consegue sozinho!

Aí era só ganhar confiança. Mais algumas sessões de incentivo, seguidas de desfoladas superficiais e pronto. Com a baixinha dominada era só curtição em família.

Voltei ao menino de dezesseis, agora com os filhos, cada qual se equilibrando nos contornos do caminho. Não tinha tamanho para a felicidade que sentia. Sonho ou realidade?

Veio o terceiro, temporão. O ritual se repetiu, de um jeito diferente, é claro. As pessoas mudam, as coisas mudam, mas a cadeirinha e a bike do mais velho foram herdadas. Sonho?

Nesses dias comprei outra cadeirinha. Escolhi o velho e conhecido modelo dentre outros tantos mais modernos e cheio de piripacos da loja. Ansiedade? Talvez. Só sei que ficou grande para o pequeno mais novo da família. Paciência! Nada como o tempo. Cresceu, ficou durinho, aprumou-se.

Ontem saímos, pedalando pela praça. Quanta memória, quanto prazer! Os pezinhos ainda não alcançam o apoio. O guidão alto não impedem suas mãozinhas firmes o segurarem. Não imponho velocidade, mas sinto o vento por ele, sinto o mundo passando por ele, por seus olhos atentos. Sinto seu prazer e ele sente o meu. Entramos em simbiose e silenciosamente nos conectamos. Os sons dos nossos corações se encontram entre a bicicleta e a cadeirinha.

Assim, a vida. Algum sonho ainda por vir? Por enquanto vivendo o momento. Pedalar com o neto pelas ruas da cidade. Obrigado por existir, José.

 
  • Foto do escritor: Gielton
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Gielton

Saí cedo em direção ao Detran. Pensei: vai ser fácil. Reservei minha manhã. Tempo não seria problema. Vou economizar uns 300 reais do despachante.

Na esquina da Amazonas a jovem me aborda. Abri o vidro.


- Vai fazer transferência?

- Sim.

- Já pagou a guia? Está com protocolo?

- Sim.

- Fez o agendamento?

- Não.


Foi aí que dancei. Estranho, as pesquisas na Internet indicavam agendamento apenas para outras cidades.

Como se lesse meu pensamento rapidamente completou.


- Desde o dia 17 é obrigatório o agendamento. Cinco reais para fazer.

Pronto, fui pego.

Ela entrou no carro. Logo que estacionei examinou detalhadamente os vidros.

- Esse Insulfilm passa. Veja está com 70%. Mas o de trás, não.

- É mesmo? - Respondeu o bobo

- E pior, vão mandar arrancar na hora e, certamente, estragar o desembaçador.

- Será?


Quanta imbecilidade. Vê se pode? Arrancar o Insulfilm com a unha... Em seguida vem a cartada final.


- Por setenta reais o despachante te acompanha. O vistoriador nem olha o carro, apenas grava o chassis.


O troxa topou.

De fato, os policiais civis fizeram vista grossa. Nos boxs vizinhos a vistoria era mais fina.

Passamos...

Recusei a última oferta e fui, eu mesmo, enfrentar a fila. Sentei-me com a senha na mão. Calculei. Vinte pessoas seriam atendidas antes de mim.

Hora de colocar as emoções em dia. Nossa, como fui babaca de cair nessa lorota? Que raiva! Deveria ter ido eu mesmo e enfrentado de peito aberto aquela porra de vistoria... Se os caras mandassem voltar eu voltaria! Quanta bundice. Estragar o desembaçador! Essa foi demais. E o papel do agendamento? Nem vi.

Com o medo ainda colado em mim, vieram outros pensamentos. E se tiver multa? Não vou conseguir tirar esse documento. E se o IPVA não tiver sido processado? Vão me mandar voltar outro dia. E se faltar algum documento? E se...

Um olho no coração e outro no painel... Esses atendentes são todos uns fdp!!! Tudo policial escroto...



O próximo sou eu.


- Bom dia - Cumprimentei gentilmente.


É melhor não falar demais. Sei lá, e se resolve encrespar?

Entreguei os documentos. Engraçado, comecei a me acalmar. O atendente, um sujeito de meia idade, transmitia alguma serenidade. Era, ao mesmo tempo, ágil e cuidadoso. Lia e organizava os documentos. Conferia tudo. Parecia de poucas palavras.

- Veja que na nova identidade já consta... Não precisava trazer a certidão de casamento.

Me devolveu a original e, como quem cuida do outro, disse.


- Guarde-a com carinho. É um importante documento.


Fui me desarmando. Pedi para corrigir um pequeno erro de digitação, prontamente atendido.

Notei ao fundo funcionários surdos e mudos se comunicando por gestos. Uma jovem se aproximou e, com as mãos, disse algo que não entendi.


- Tem muitos surdos trabalhando, né? - Tomei coragem para puxar assunto.

- Sim, acho que nessa sessão são uns oitenta.


Elogiei a iniciativa do Detran confirmando a importância desse tipo de inclusão. Ele concordou. Começou a contar casos.


- Tá vendo essa que chegou perto? Mora em Santa Luzia e foi sua primeira e única oportunidade de emprego.

- Que coisa boa! - Devolvi prontamente.

- Aquele maior, no centro, desenha que é uma beleza. Seria o melhor retratista falado da polícia... Um talento desperdiçado. - Dizia com tom levemente embargado.


Contou, em seguida que, já com alguns anos de casa, o enviaram para o setor de carteiras. Quase todos os funcionários eram surdos e mudos. Argumentou com a chefia que não daria conta. Ao final concluiu:


- Não existe salário que pague a riqueza dessa experiência. Tornei-me outra pessoa...


O agradeci profundamente pelo excelente atendimento. Despedimo-nos, ambos, com os olhos marejados de lágrimas. Vi os deles por entre as lentes transparentes.


Assim, a vida. Encontros "casuais" para transformar nossa energia.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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