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Gielton




Os pés doíam. Especialmente a sola do direito. Meu corpo dizia algo. Seria reflexo das corridas? Talvez. Eram tão boas com Zé Pequeno, meu fiel escudeiro.

Uma greve de caminhoneiros trouxe filas homéricas por algumas gotas de combustível. Quem se lembra? Uma ideia. E se eu for de bike para o trabalho? Reduzo o impacto dos pés com o chão e não consumo combustível.

A velha magrela, tão desgastada, depois de pequenos ajustes estava pronta a ser montada e pedalada com novas vontades e desejos. Desejo de reinventar o próprio caminho.

Fui percebendo aos poucos mas, de cara, notei o olhar ampliado, como se uma enorme lente de aumento fosse implantada diretamente na retina.

Tudo pareceu maior e mais perto. Com o foco no pneu girando vê-se nitidamente os detalhes do trajeto. Pedrinhas pretas incrustadas no asfalto ressaltam aos olhos. Na verdade, ali sempre estiveram, invisíveis. Agora sim, fazem sentido. Espalhadas entre a massa asfáltica dão liga e textura ao piso, deixando-o menos rugoso aos olhos da borracha. Porém, pronto a esfolar qualquer pele sensível que por ventura resolva enfrentá-lo. Todo cuidado é pouco!!

Quando o pescoço se apruma adentra-se a um mundo de emoções. Ah, o vento flamejante nas descidas dão uma agradável sensação de frescor. Como se, de repente, a vida se tornasse mais eletrizante, embalada pelo prazer da velocidade percebida através do ar que penetra suavemente a gola da camisa atingindo providencialmente o peitoral. Coração taquicárdico quase engolindo a si mesmo após o esforço da subida até a Contorno recebe agora, esse toque de descanso e aconchego que invade seus contornos protegidos por tecidos e ossos.

As pessoas estão tão perto! Posso ver detalhes dos rostos, antes distantes nas calçadas, enquanto permanecia no mundo fechado pelos vidros. Agora não, trabalhadoras e trabalhadores. Gente simples cuidando do seu sustento na dureza da vida, na dureza do trabalho. Quem seriam? Empregadas domésticas, vigias, atendentes de padaria? Não importa, o humano se apresenta sem vestes, despido de proteções como se me livrasse de uma armadura metálica. Posso sentir os transeuntes, olhar nos olhos, sentir perfumes ou odores. Cruzar no sinal e dar sinal de passagem por um aceno com a cabeça. Passe, é sua a preferência!!! Observo semblantes... Alguns dispersos, outros atentos. Sorrisos, às vezes, parecem brotar de uma noite bem dormida. Preocupação... Penso. Quanta alma, quanta vida. Que sentido tudo isso teria senão para crescermos juntos nos ajudando uns aos outros?

Os buracos da rua, mesmo os menores se tornaram incômodos. Talvez pela pouca habilidade no manejo da bike, pela pouca simbiose entre ciclista e bicicleta. Como um cavaleiro que pula na cela do animal trotante, sinto o selim subindo e descendo a cada pequena rachadura do caminho. A mão, por mais firme a segurar o guidão, sofre impactos desconfortáveis.

Na loja de bicicletas peço:

- Queria um amortecedor. - Temos esse modelo, o melhor, mais leve e eficiente - apresentou o vendedor. - Quanto? - indaguei pelo preço.

Consultando no computador...

- Quatrocentos reais. - Nusga!!! - Temos outros modelos mais em conta - consertou o vendedor à tempo. - Quanto tempo demora para instalar? - perguntei na expectativa... - Você quer dizer, quantos minutos? - acalmou o vendedor.

Saí de lá com amortecedor novo... Sabe, aquele que alivia a pancada, torna o difícil mais suave, reduz a tensão.

Assim, a vida. Um aparato simples e barato para amortecer a dor e tornar mais fluída as trilhas da existência.

 

Gielton



A manhã de segunda foi mágica. Do nosso quarto ouvi seus gritinhos de alegria matutina. Garoto feliz esse tal de José. Levantei disposto a liberar a mãe para um descanso um pouco mais prolongado. Vesti o canguru. Ele sorriu, como quem pergunta:


- Vamos passear vovô?


Entende tudo. Lê, traduz e expressa seu sentimento na lata. Não tem meio termo, mesmo quando tentamos enrolá-lo. Foi fácil encaixá-lo no canguru. Lembranças me veem. Quantas vezes coloquei meu filhos nesse "baby bag", como se dizia na época. O nosso era bege e as amarras eram de panos com presilhas de metal. Os de hoje, modernos, são mais simples e ergométricos. Meu netinho se acomodou confortavelmente e lá fomos nós para rua.


Sem pressa. A mente livre nos dá inteireza. O aconchego da criança sobre o peito trás ainda mais serenidade. Na frente, onde moram os senhorios, paramos. Uma conversa interminável se instaura. Quanta necessidade de gente eles tem. José e eu escutamos com a maior paciência do mundo. Oferecemos nossos ouvidos. Doamos nossos corações. Era hora de seguir, nos disse a intuição.


A estrada de terra batida, quase sem movimento, era um convite a uma caminhada matinal. Nada de exercício físico. Apenas um andar leve, suave, com um bom papo. Assim, fomos pela estrada afora, atentos ao canto dos pássaros, ao canto florido da estrada de margaridas e beijinhos, aos micos atravessando fios de luz entre os galhos das copas. Fomos assim, simplesmente nos amando... Andamos, andamos. E o tempo? Não sei. Não importa. Só o instante se faz presente. Nada de futuro. Nada de passado. Seria tão bom, se toda a vida fosse assim!


O Sol já castigava quando resolvemos voltar. Nesse tempo, nenhum choro, nenhum resmungo. Sinal de sintonia fina entre nós. A porta da casa estava escancarada. Adentramos. As meninas ainda dormiam. Sabiam, no entanto, que a manhã já avançava. Preparamos o café. Na mesa, enquanto o pão na chapa era preparado, José, no carrinho, bem sentado, brincava com sua estrela brilhante. Isso, uma estrela grande de plástico branco com um LED lá dentro. Boa para sentir como os olhos, a boca, a mão e o corpo todo. Logo vinha a reclamação quando escapava entre os dedos. Era só recolocar. Seu semelhante diante de sua estrela é de puro êxtase.


As meninas iniciaram um papo sério. Percebi que deveria deixá-las. Peguei o José e fomos para o canto da casa onde a sombra penetrava. Previ que poderia estar com sono, apesar de ainda não demonstrar. Criança é assim, luta contra o sono quase sempre. Aproveitam menos a vida quando dormem? Estava ligado a tudo. O pescoço firme deixa a cabeça levantada e os olhos atentos. Como se nada pudesse lhe escapar. Cantei. Nananina, nananina, nananinanana... Busquei dentro de mim uma paz para lhe transmitir. Nada. Estava agitado. Pensei.


- Talvez não esteja com sono.


Foi a conta. Abriu o bocão em um bocejo arrasador. Permaneceu alerta, resistindo. Insisti. Mantive a calma. Continuei cantando e tentando tocar sua energia. Coçou os olhos. Mais sinais. O som da minha voz penetrou um pouco mais. Relaxou, bem devagar até pegar no sono. Ninei um pouco mais antes que acordasse de sobressalto. É preciso confiança para tamanha entrega. Uma honra para mim.

Dormiu uns quarenta minutos. O tanto de costume. Deu pequenos gritos como quem diz.


- Acordei, gente. Venham me ver.


Larguei o celular. Abriu um sorriso sincero de reconhecimento.


- Ei vovô!!!


Estou treinando minha entrega. Deitei-me ao seu lado. Vimos juntos a claridade por entre as frestas das telhas. Senti seu fascínio. Estávamos juntos de novo. Conversamos com os olhos. Pude ler em sua feição tons de bem estar. Antes que enjoasse mudei o jeito. De barriga para cima o mantive sentado apoiado em minhas pernas. Suas mãos abraçaram meus indicadores e, com um pouco de força, levantava-se. Quando suas costas se soltavam das minhas pernas, dava um pinote para trás. Aprendera a contrair conjuntos de músculos que permitiam esse movimento. Repetiu, repetiu, repetiu... Como se uma nova descoberta precisasse ser incorporada, aprendida, dominada. Ou, simplesmente, pelo puro e único prazer de brincar. Crianças brincam desde muito pequenas. Ríamos juntos a cada novo pinote. A dois nos amamos um pouco mais. Nos encontramos em um instante único, singular. Como se o mundo em volta parasse e ficássemos só nos dois, em estado de simbiose, de trocas casuais entre nossas almas.

Netos, para que tê-los, senão para amarmos!

 

Gielton


Foi o vovô que, dessa vez, lhe deu banho de Sol naquela fria manhã de junho. Que presente! Peladinho, só de fralda, demonstrava bem estar pelo afago dos raios solares. Na varanda, cor de rosa, o Sol entrava rasante tocando suavemente sua pele macia e sensível. Coloquei-o de frente e tampei, com a mão, seu rosto, fazendo-lhe uma sombra providencial. A claridade certamente incomodaria.

Não pretendia deixar muito tempo, uns dez minutinhos apenas. Enquanto isso, os pais preparavam a água para o banho de banheira que viria em seguida. Eu, animado, relembrava meus velhos tempos. Sou da época de "não basta ser pai, tem que participar".

Levei-o para o quarto. Janelas fechadas para evitar correntes de ar. A luminosidade controlada pelo abajur deixava o ambiente com tom de calmaria. Retirei a fralda e limpei um restinho de cocô. Até o cocô dos netos são graciosos. Que coisa!

Ficou tranquilo dentro da banheira, quase flutuando na água morna. Bonzinho toda vida. Segurei sua cabecinha com uma das mãos enquanto, com a outra, reuni seus braços um no outro, a fim de evitar a sensação de estar caindo. Não deve ser fácil ficar sujeito à gravidade tão repentinamente. Afinal, havia descido do céu há menos de um mês.

Sem mais nem menos, após molhar suavemente sua cabeça, começou a chorar. Primeiro, demostrando um pequeno incômodo, até esbravejar com força. Que berreiro aprontou. Fiquei apertado. Que foi que fiz, meu Deus? Pedi ajuda para agilizar o banho, secá-lo e vestir a roupa. A mãe chegou para acalmá-lo. Sessou o choreiro quando, ainda soluçando, pegou o peito. Que sufoco!

Assim, a vida. Seu caminhar requer cuidado, atenção... A qualquer momento algo pode desandar. Um bolo, feito com carinho, sola; uma palavra, mal dita, dói; um pneu careca fura; um tombo machuca. Assim, a vida. Aprendendo, sempre,

ao longo de seu caminhar.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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