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Gielton



Passava em frente ao sacolão, na avenida perto de casa, quando algo me acometeu. Uma espécie de tristeza descabida. Uma sensação de vazio. Uma falta inesperada.


Havia cruzado a pouco com ela desapercebidamente, como a muitos transeuntes de forma corriqueira. Sabe quando, em meio à multidão, à beira do trilho do metrô, entre o roçar de ombros no espremer da porta, alguém, do nada, te nota? Sem saber o porquê, sente um olhar não identificado?


Foi assim! Só entendi que era ela, aquele dia no sacolão, tempos depois. Na calçada, entre a loja de pets e o ponto de ônibus, estonteei repentinamente. Perdi a lógica. Desbaratei! Era eu, aéreo como o ar que pulula em redemoinhos num vai e vem frenético. Não sabia se ia ou continuava. Se voltava ou permanecia.


Quando retomei fração da lucidez, meus olhos marejados embaçavam a iris. Não entendi aquele choro. Segurei, afinal estava no meio da avenida. Imagens vagas pipocaram na minha mente em flashes como um filme sem nexo. Impossível reproduzir. Na verdade, nem me lembro. Como traduzir? No máximo, a sensação de desvario. Essa desconexão entre o presente e o que talvez já tenha ido. A dor do desconhecido.


Cargas desceram sobre mim. No chão, os pés fincaram em uma espécie de fio terra, espalhando para longe aquele estado de temor e delírio. O sangue desgovernado reencontrou sua rota em artérias e veias ramificadas. No cérebro, as sinapses, até então descontroladas, se organizaram na confusão peculiar. O pulmão aflito espremeu-se no tórax e logo relaxou deixando o ar invadi-lo sem restrições.


Uma melancolia confortante, sem razões aparentes, envolveu minha áurea. Fui abraçado por uma serenidade em tons de calma. "A paz invadiu o meu coração" (Gil).


Era sobre o transcendente. O além erigindo o presente. Dizem que temos cinco sentidos. Acho pouco pelos arrepios do corpo.


Interpretei. A saudade passou tão perto e tão rápida que nem reparei. Seu rastro atordoou o entorno de mim, mas o perfume que exalou trouxe-me de volta. Meu corpo e minha alma leram a falta que sentia dela: minha mãe, que partira a menos de um mês.


Assim, a vida. Do nada, acontece!


Imagem do post em <https://pin.it/4hAXXYt>


 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton





Nasci em uma tradicional família mineira, de muitos tios, tias, primos e agregados. Religiosamente católica. Na média, pouco praticante. Árdua defensora da moral e bons costumes. Muito disso tudo, para fora. Pouca coerência entre o dito e o feito.


Pode ser que encrustadas entre as montanhas, a mente desconfiada do mineiro preserve a moral das aparências. Coisas são feitas às escondidas. Custei a perceber!


Os churrascos nas casas de primos prósperos eram frequentes. Em dias dos pais, das mães, Natais e alguns aniversários celebrávamos bons encontros. Adorava! Era parte.


A lembrança orgulhosa, ainda na infância, era pertencer ao clube “do bolinha” - uma divisão límpida com linha muito bem demarcada. Homens de um lado bebendo, fumando, discutindo futebol, jogando cartas, contando piadas e gargalhando alto sem o menor pudor. Do outro, mulheres servindo...


Isso era ser homem. Assim, aprendi os jeitos e trejeitos, os gostos e padrões, os gestos e jargões... A masculinidade estampava-se na força muscular, no jeito bruto e escrachado de ser, no "sem frescura" - atualizado hoje pelo "deixa de mimimi" - na forma tosca de tratar o mundo, as pessoas, as mulheres. A lógica rasa das questões sociais mais complexas e a ignorância do sentimento faziam parte da nossa inteligência, supostamente superior.


Ser Gay? Nem pensar! Desejar outro homem? Incabível! Senão, estaria fodido! Literalmente. Não sofri preconceitos. Os tive, simplesmente.


Criei teorias. Na adolescência dizia: nada tenho contra os "bichas", desde que não mexam comigo. Os tolero. Por dentro, a vontade mesmo era de acabar com a raça deles. Será que essa repugnância os atraía? Nossa, de quantos olhares desviei. Quanta raiva senti!


Orientação sexual? Só existia uma. A minha, claro: homem que gosta de mulher. O diferente era distúrbio. Fique com seu transtorno longe de mim. Sei lá, dá que eu pego isso...


Nesse modelo construí minha identidade masculina e dela extraí a explicação "científica" para os "afeminados": homens que não deram conta das mulheres. Simples assim. Uma frase de impacto e muitas narrativas! Pense... Sente alguma conexão?


Tive a sorte, talvez intuição, de escolher para cúmplice da minha vida uma feminista. Uma professora de ampla visão social e humanista. A quem a dor do outro é retrato de si mesma. Para acolher basta estar, é parte do ser. Uma mulher livre! Além e presente no seu tempo.


Perder essa oportunidade? Nem pensar! Agarrei o cipó da vida e, pensante, me deixei levar... Fácil? Dolorido derrubar crenças internas alicerçadas em modelos tão bem estruturados. Vergonha ao perceber tanta poeira por trás da cortina. Reagir e assumir? Mais difícil ainda. Podia guardar comigo, mas é momento de me declarar!


Não sou gay! Por raras vezes me senti atraído por outro homem. Prefiro as mulheres! Sinto-me em paz com minha sexualidade. Pelo menos por enquanto.


Apuro cotidianamente o respeito pelo outro no mais alto grau da empatia que alcanço. No âmago dessa consciência cresce, a cada dia, o desejo de desejar o melhor a todos, sem restrições. O amor entre almas transcende orientações. Não há setas, formas, condutas e padrões para amar.


O amor multiplica! Irradia as benesses da alta vibração. Expande consciência e potencializa acolhimento. Amplifica o universo interior e infla o ego da bondade.


Preconceito restringe, limita, estreita...


Há muito detrito em mim a ser depositado nas lixeiras do sentimento. Catar cada grão, por menor que seja, e reduzir o peso da intolerância que se hospeda nas entranhas da consciência, é tarefa diária.


De coração quente e mente transparente digo: estou ao lado dos gays, assumidos ou não, na luta pelo direito, mais que justo, de serem!


Avante!


Assim a vida! Destinos podem selar uma história.


Imagem do post em <https://pin.it/6FRW3e1>

 

Gielton




Amizades? São muitas! Tantas nessa vida que nem dá para contar. Ainda bem! Tem para todos lados e de vários ramos. São como folhas de samambaia despencando no xaxim. Algumas tão distantes do vaso que nem enxergamos mais, outras mais próximas, se alimentam da mesma seiva.


Há uma "thiurma" especial. Somos da música, da cantoria, do soltar a voz sem medo de ser feliz. Vivemos em roda, de violão. Alguns optam pelo vinho como acompanhante. Outros são adeptos das cervejas artesanais. Há também os que ficam apenas na gasosa. Não dá para esquecer o velho Jack no cantil prata. Sem gelo, esquenta o peito e anuvia a mente. Não importa o gosto etílico, a identificação pelas notas musicais sucumbe quaisquer diferenças.


Os cabelos grisalhos são maioria. As mulheres assumidas de juba clara são lindas. Algumas de fios enrolados se cacheiam e deixa-os despencarem orelha abaixo embelezando o contorno da face. Cortes bem curtos combinam com os sorrisos largos ou o semblante sério daquelas que assim os adotam. Independente do penteado, são mulheres fortes que carregam a ternura do feminino e, simplesmente, encantam.


Os homens, graves, fazem notas grossas nos cantos. Baixam os tons e trazem alegria e descontração. Soltam piadas espirituosas, inventam solfejos arrojados, tocam instrumentos... Não menos grisalhos, trazem cortes rente ao couro, o que os deixam mais sérios do que parecem. O riso solto depois de algumas doses preenche o espaço com leveza.


Às vezes, por qualquer motivo, seja a festa de uma aniversariante, um encontro casual na sala de estar de alguém ou uma apresentação do Coral da Marilu, a farra é consentida. Haja madrugada para acalmar as cordas vocais que não se cansam. Não há tempo que estreite os dedilhados do violão. Enquanto isso, as platinelas do pandeiro batem entre si dando ritmo ao acaso.


Aí, a energia se transforma em pura conexão. O estado de êxtase circula a roda. Os timbres se harmonizam. Os sons perpetuam o instante. Cada qual, indivíduo único, penetra a aldeia cósmica da fruição e dá a sua parte como presente uns para os outros. A névoa do bem estar faz como neblina circundando todos e cada um. Toca as almas que transcendem hora e lugar. O deleite se estende em um grande abraço de vozes em uníssono. Como um todo único, aos céus e à terra, são ofertadas, para além das cantigas, a esperança e o desejo comum do estancar desigualdades tão latentes.


Assim, a vida! Viva a música...


Imagem do post em <https://pin.it/3gzwtRm>

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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