top of page

Vou te contar uma história. Lá da minha infância. Um caso que muito me marcou e trouxe consequências para o adulto de hoje. Talvez, você leitor, tenha vivido algo semelhante. Quem sabe?

As letras andaram distantes da família de onde vim. Meus tios mal passaram da quarta série primária. No entanto, minha mãe, caçula de doze irmãos, teve a chance de cursar o magistério. Tornou-se professora.

O tempo por ela dedicado aos "Para casas" dos filhos era o sinal do enorme valor que dava à educação escolar.

Sentava-se à mesa conosco, em um momento exclusivo ao estudo. Cadernos, livros, lápis e régua espalhados sobre a mesa eram as ferramentas da construção do aprender. Sua profissão, lógico, ajudava muito. Tocava cada assunto com a sutileza de uma flauta doce. O som açucarado de sua abordagem trazia autonomia. Nem percebíamos, mas ganhávamos independência.

Primeiro as pesquisas eram realizadas na enciclopédia Delta Junior, mais ilustrada e com menos informações, e na Barsa, mais completa e detalhada. Tutoreava nosso indicador deslizando sobre índice. Era um suplício encontrar o assunto pela ordem alfabética. Sempre me confundia com a sequência de letras. Depois, fazíamos um resumo de cada enciclopédia para, no final, compilarmos as informações. No segundo grau me libertei desse acompanhamento, desde que, não houvesse vermelhos no boletim.

Estava na segunda série primária. Hora da prova. O lápis na mão direita tremia feito vara verde, enquanto o lado esquerdo do cérebro se embolava todo na grafia das palavras. Ditado! Ai meu Deus. Não encontrava a ressonância lógica entre os sons e as letras. Confundia tudo: "p" e "b"; "f" e "v". A droga do "ç", "s" ou "ss", era foda. Não acertava um. Era como se não coubesse na memória.

Esteticamente minha grafia não era lá essas coisas. Usei caderno de caligrafia. Sim, aquele com pautas especiais para aprimorar a escrita. Por mais que caprichasse, minha letra era considerada feia e, imaginem, junto com ela minha autoestima descia para o pé. Substituí, na juventude, a letra cursiva pela letra de forma, adotada até hoje quando escrevo no quadro para meus alunos.

Ói só prô cê vê. Logo eu, muito bem acompanhado pela minha mãe!

Certa vez, depois de uma redação catastrófica em termos ortográficos, ganhei uma tarefa árdua, cansativa e monótona.

Minhas férias se dividiram entre o caderno de caligrafia, o lápis e a borracha. O castigo? Escrever repetidamente uma palavra que tinha em sua grafia "c" sem ser cedilha e dois "s". "NECESSIDADE" foi a escolhida. Foram mais de duzentas "NECESSIDADES", enquanto meu nariz farejava deliciosas manhãs ensolaradas.

Havia NESSECIDADE disso?

CINSSERIDADE? Acho que o "tiro saiu pela culatra". Ainda hoje tenho dúvidas frequentes de ortografia. Posso confessar baixinho pra você? Quem me salva atualmente é o corretor ortográfico do Word e os livros que aprecio.

Assim, a vida. Nunca passou pelos meus horizontes escrever textos para as pessoas lerem!

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Atualizado: 3 de dez. de 2019

Gielton


O elevador chegou. Era necessário um pouco de força para abrir a porta e adentrar. O solavanco seguido do estranho ranger do motor eram o sinal. Estávamos em movimento. Lia, nas paredes branco-encardidas, os números por entre as grades enquanto atravessávamos os andares. No térreo, o piso de cerâmica cheio de pontinhos pretos, conduzia à portaria.

Meu pezinho finalmente pisava a Afonso Pena. Um mundo se abria. Transeuntes, automóveis, ônibus, carroças... Tudo era muito para quem era ainda muito pequeno.

Poucos passos na calçada eram suficientes para emparelhar com a Sapataria Americana, esquina com Tupinambás. Me enamorava com o brilho dos calçados na vitrine. Transmitiam elegância. Sapatos só para homens, como eu.

A jardineira de listras verticais com bordado vermelho no peito e bermuda curta, era o uniforme do jardim de infância. Com essa vestimenta atravessava a São Paulo e logo estava passando pela Praça Sete. No arborizado canteiro central, as Aero-willys, os Itamaratys, as Vemagets, os fusquinhas, estacionavam sem faixa azul.

As pontas dos dedos escapavam da franciscaninha. Brincava de pisar só nas pedrinhas pretas ou brancas, portuguesas, do passeio. Às vezes me embaralhava nos contornos dos desenhos. Distraía. Desistia.

A merendeira, de alça branca, a tira colo compunha o traje. A garrafinha plástica do suco transpassava o orifício. Sobrava para fora a tampa, que servia de copo. O conteúdo do lanche? Às vezes, pão de queijo, noutras... Às vezes limonada noutras...

O contato entre as palmas da mão e o entrelaçar de dedos abasteciam o pote da segurança. De mãos dadas com meus pais seguia protegido diante daquele mundão aos olhos da criança tímida e envergonhada que fui.

Andávamos até atingir o pé das escadarias da igreja que davam acesso ao Jardim de Infância Delfim Moreira. O primeiro da cidade. O alto da subida, quase interminável, era o ponto de despedida. Depois do afetuoso abraço minha mãe orientava mais uma vez.

_ Quando tiver vontade de fazer xixi, converse com sua professora.

Na volta para casa...

_ Ah meu filho, que mancha é essa na sua bermuda?

_ Nada não mãe.

_ Porque não pediu a professora para ir ao banheiro? Fez xixi na calça? De novo?!

_ Não mãe, foi a laranjada que derramou...

Assim, a vida. O xixi noturno me acompanhou até os doze anos. Foi-se de repente. Ainda hoje arrumo desculpas esfarrapadas...

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton


Campeonato? De que? Ora, foram muitos. De todos os tipos!!


Futebol, a toda hora. Afinal, tínhamos um campinho só nosso e podíamos jogar quando e quanto quiséssemos. Sendo mais novo que os meninos do bairro quase sempre ficava na "de fora". Assentado, fora do campo, à beira do barranco, assistia o entrelaçar dos pés descalços tocarem a pelota em vai e vem. Gooooool! Hora de levantar e tomar lugar no time para a próxima partida.


Agachados com a mão rente ao chão "tacávamos" a bolinha de gude. Ela caminhava lenta e sinuosamente pelo solo irregular até tocar a do adversário. Se caísse no papão, vitória!!! Mais uma que se juntava ao saco pessoal de bolinhas de vidro, prontas para serem disputadas no dia seguinte. O entardecer chamava para o indesejado banho. A vontade pedia um alongar da brincadeira, mas...


Em tempos de chuva a finca entrava em cena. A terra molhada e fofa era o palco da partida. Cada um com sua faquinha riscava o chão após enfincar sua ponta no solo. Contornar a casinha do adversário era a meta. Vez por outra, alguém ficava preso no emaranhado de riscos. Nesses momentos o "subite" era a única solução. Era doida essa jogada. E difícil!!! Dava muita polêmica. A finca deveria passar por baixo do traço de forma subterrânea.


- Não, ela não passou por baixo.


- Passou sim, olha a ponta dela do outro lado!


Quem concorda com quem? Éramos, nós mesmos, os juízes. Houve vez de resolvermos as divergências no "tapa".


Os ventos de agosto sopravam as cores para o céu azul. Tão limpo que os papagaios entravam no lugar das nuvens de algodão. Ripas de bambu cuidadosamente lapidadas davam a base. Papel de seda colorido, cortado na forma de losango, era colado à estrutura com linha de costura. Pronto, agora era só fazer a rabiola e prender o centro da base ao carretel. Aí era só soltar o "bichinho" que subia ao vento. Era dar linha para a alegria de conduzi-lo com "puxetas" para varrer o céu em manobras radicais.


Entretido na viagem espacial, às vezes, nem notava quando a criançada desenfreada corria atrás de alguma pipa abatida pelo cerol inimigo. Era emocionante derrubar o papagaio alheio dos bairros vizinhos.


Assim, vivíamos. de disputa em disputa. De amores ao ódio. Com amigos e adversários. Muitas outras brincadeiras rondaram nossa infância, como "mãe da rua", "polícia e ladrão", "queimada", "cuspe a distância", "carrinho de rolimã"... Um eterno aprendizado em lidar com a alegria das vitórias e as frustrações das derrotas.


Tinha uns quatorze quando nossa mesa de pingue-pongue foi instalada no porão de casa. A rua inteira ia lá jogar. Cada dia um adversário diferente. Sem contar, meu irmão. Ah, como treinamos!!! Ficamos bons na coisa. Além de nós, a dupla de irmãos Renato e Robinho também se destacavam.


Renato tinha um estilo mais agressivo com cortadas rasantes. Robinho era completamente oposto. Defendia muito bem. Pegava cada cortada de fazer raiva! Jogar contra ambos exigia habilidades diferentes. Leituras do adversário, estratégias momentâneas e muito reflexo!!! Às vezes ganhava, outras, perdia.


Fizemos muitos campeonatos. Um deles foi marcante. Todos da rua participaram. Era um sábado à tarde e, mesmo com o porão entupido de jovens e adolescentes, só se ouvia o quique da bolinha branca sobre a mesa. A cada vitória um a mais era eliminado até ficarem para as semifinais... Adivinha quem? Lógico, eu, meu irmão, Renato e Robinho. A disputa prometia. Ia ser acirrada!!! Dois sairiam da peleja e os outros dois ficariam. Bola de cá, raquetada de lá, defesa sensacional, cortada inesperada. A torcida se manifestava, nuuuu! Um bom narrador daria às partidas a emoção merecida. Eu era o mais novo de todos. Isso me dava um ponto negativo, pois tinha menos controle emocional, perdendo as estribeiras com mais facilidade e, lógico, errando bolas consideradas fáceis. Por outro lado, era ousado. Capaz de surpreender o adversário com jogadas inusitadas. A criançada toda lá, assistindo a final, depois de horas e horas de competição. Todos loucos para conhecer o vencedor do campeonato daquele sábado. Quem será? Quem terá sido?


Dizem que a memória é seletiva e confesso, sincera e honestamente, não me lembro do vencedor daquela disputa!!!


Assim, a vida. Memórias para que te quero.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

  • Ícone de App de Facebook
  • YouTube clássico
  • SoundCloud clássico
bottom of page