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Atualizado: 6 de abr. de 2019

Gielton






Seu Zinho, homem alto, esguio, de andar lento e calmo foi meu avô paterno. Lembro-me muito bem dele. Teve época, quando em tratamentos médicos em Belo Horizonte, que nossa convivência se estreitava, pois dormíamos no mesmo quarto. Rolavam altos papos. Bons, maduros, sensatos. Dizia para minha mãe:

- Quando meu neto abria o livro eu já sabia, virava para o canto para deixá-lo em paz com seus estudos.

Envelheceu com sabedoria. Sabia acolher sem julgamentos. Entrava no papo dos jovens com a maestria de um adolescente. Tangenciava quando necessário. Mas, o melhor mesmo era sua energia. Contagiante... Bastava ficar perto para se sentir revigorado. Como se algo lhe emanasse e nos penetrasse lentamente, trazendo bem estar e equilíbrio.

Esses dias me encontrei com tia Luíza, irmã do meu pai e filha do Vovô-Zinho, como os netos costumavam chamá-lo. Na mesa, enquanto pizzas quentinhas eram servidas, nos deliciamos com uma de suas pitorescas histórias.

Vovô foi carcereiro em Conceição do Mato Dentro, "interiorzão" das Minas Gerais. Isso mesmo, seu trabalho era vigiar e cuidar dos presos. Naquela época, década de 1930, imagino os delitos de alguns. Ladrão de galinha, briga no bar por conta de cachaça, desentendimento com vizinho... Fora, os fora da lei: assassinos profissionais, capatazes de ricos fazendeiros.

Seu Zinho, cara boa praça como nunca, era amigo dos presos. Mamãe contou recentemente que depois de pagar as contas da casa, investia o restante do salário em doce de leite e queijos para os detentos. Imagina isso?!!

Certo dia, depois de um banho de sol mais prolongado, dois cabras fugiram pela porta da entrada. Assim que o acontecido aconteceu ele foi comunicar ao delegado. Mesmo sendo parente próximo não deixou por menos.

- Seu Zinho, isso foi uma grande irresponsabilidade sua. Como foi possível esses presos escaparem? O negócio é o seguinte. Se não recapturá-los, quem irá para a cadeia será o senhor!

Apertado, meu avô arrumou dois companheiros e três cavalinhos para iniciar a busca aos fugitivos. Imagino que, naquele tempo, não tinham como ir muito longe. À pé e sem oportunidade de conseguir qualquer tipo de transporte, só restava aos prisioneiros perambular pelas montanhas e pastos das fazendas da região.

Três dias depois, após passar por alguns pequenos lugarejos e seguindo pistas colhidas pelo caminho, os três cavaleiros encontraram os dois cabras descansando à sombra de uma mangueira.

- Ô fulano, porque você fugiu da cadeia? - Perguntou Seu Zinho, que não portava arma alguma.

- Oras, o senhor esqueceu a chave na porta. Foi só destrancar e sair.

- É, mas vocês me deixaram numa enrascada. O delegado ameaçou me prender caso não voltasse com vocês.

- É mesmo? - Indagou surpreso o outro preso.

- Pelo que conheço do delegado, ele vai cumprir sua promessa. - Devolveu Vovô-Zinho apreensivo.

Silêncio... Instante para ouvir apenas o tremular das folhas secas pela brisa sutil que soprou.

Em Conceição, a família apavorada orava e pedia as graças de Deus para o retorno do velho carcereiro. Afinal, quatro dias já haviam se passado desde sua saída. Nenhuma notícia até então.

Naquele dia, a criançada brincava no rio de águas espelhadas e fundo tremulante, limpinho, limpinho. De repente, com os olhos apertados e a mão na testa tapando a claridade, uma delas se vira e diz.

- Olha lá, um cavaleiro vem subindo!

Daquele ponto, longe na descida da rua, apenas a ponta do chapéu trotava como um fantasma.

- Não, são três. Disse o outro.

- E ainda vem com dois na garupa.

 

Atualizado: 24 de jan.

Gielton


Três crianças descendo uma rua em um carrinho de rolimã


Minhas primeiras experiências com carrinho de rolimã foram com uns nove anos. Nas férias de julho, passávamos o dia inteiro descendo a rua Peperi, de terra batida, até o final, onde literalmente acabava em dois campos de várzea enormes, de tamanho quase oficial.

Era a conta de chegar lá embaixo, reparar nos companheiros de aventuras, levantar e começar o caminho de volta. Repetíamos esse ritual umas cinquenta vezes no dia. Descer na maior velocidade possível e subir andando e conversando sobre a brincadeira. Nó, quase capotei para desviar da pedra!! Ou se gabando pela ultrapassagem sensacional. Quando a poeira era muita, a rolimã engastalhava. Aí, tinha que parar, chegar para o canto da rua e fazer xixi sobre as esferas da rolimã para "desengastalhar". Falávamos também das paixões, das irmãs dos outros, da seleção brasileira de futebol, das masturbadas... Era papo que não acabava mais. Chegava em casa, de tardinha uma poeira só!!! Mamãe até aceitava bem nossas roupas imundas, mas ficava brava se enrolávamos para o almoço. Aí tinha bronca!!!


Estava em casa pela manhã, quando meu pai me chamou. Descemos até a área de tanque. Lá estavam as ferramentas: serrote, martelo, pregos, madeiras... Foi assim, desse jeito repentino, que nasceu meu carrinho de rolimã. Sempre fui impressionado com a habilidade do meu pai. Serrava, media, encaixava. De vez em quando, me pedia para segurar alguma coisa ou pegar uma ou outra ferramenta. Aos poucos o carrinho foi ganhando forma. Ficou pronto quando o banquinho e o freio foram instalados.


— Vamos testar? — disse ele.


— Claro, pra já! — respondi.


Minha primeira manobra, me lembro bem, como se fosse hoje, foi uma descidinha de nada, do portão da garagem do vizinho de frente, até nossa garagem. Que emoção! Que alegria! Agora tinha meu carrinho e poderia brincar com todos da rua. E mais, ele era especial. As rodas traseiras eram de velocípede, o que lhe dava uma vantagem enorme. Corria como nunca! Tava feito! Felicidade sem medida!!!


O único que ganhava de mim era o Mauro, irmão da Vânia. O dele tinha as rodas dianteiras e traseiras feitas de uma borracha preta, que encaixava nas rolimãs por dentro. Zunava!!! Um detalhe: ele mesmo o havia projetado e construído. Era um cara muito habilidoso, extremamente cuidadoso e ciumento com suas coisas. Apesar de nossa grande amizade, poucas vezes pilotei seu possante.


Os vizinhos de frente, mais velhos do que nós, não fizeram um carrinho de rolimã. Construíram um caminhão de rolimã. Era enorme, com rodas grandes e uma carroceria, que dava para levar uns cinco meninos. Diversão pura, descer a Peperi nessa carroceria!


Era um sábado como outro qualquer. No meio da euforia da descida, reparei que alguns meninos começaram a me ultrapassar correndo à pé. Abandonaram a carroceria do caminhão de rolimã e correram desembestadamente. Outros corriam com seus carrinhos nos braços. Olhei para trás. Eram os "pivetes da favela" horrorizando todo mundo. Como estava na frente, avaliei que daria para chegar em casa antes deles me alcançarem. Não deu.


Na altura do grupo escolar fui laçado com uma corda no pescoço. Eu fui o único que não escapou. Tinham fama de maus. Meteram-me medo dizendo que iam levar meu carrinho, que iam me bater, que isso, que aquilo. Enforcado por uma corda totalmente frouxa, eu chorava copiosamente implorando que não fizessem aquilo comigo. Me senti desprotegido e encurralado. O drama todo durou uns dois minutos, mas meu desespero era tamanho que pareceu uma eternidade. Finalmente me soltaram. Não me machucaram, não furtaram, não bateram. Mas ali, naquele instante de pavor, roubaram minha inocência.


Desci o resto da rua até o portão de casa chorando sem parar. Aos prantos e soluços de criança assustada, ainda tive que aguentar a gozação dos amigos que se salvaram.


Hoje, a cicatriz daquele medo permanece. Mas, curiosamente, ela não apaga a memória da velocidade, da poeira e do afeto daquela rua.


A infância é essa mistura estranha de traumas e amores.


Assim, a vida! De repente, muda o fluxo no meio da descida.

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton


Altair foi um grande amigo de infância. Filho de lavadeira. Sim, naquela época havia as lavadeiras que traziam trouxas de roupas dos mais abastados para suas casas. Depois de lavadas e passadas eram devolvidas em fardos que muito ajudei a carregar. Levávamos, equilibrando na cabeça, aquela montanha de roupas muito bem acondicionada em um lençol amarrado pelas extremidades.

Para mim era uma brincadeira. Para o Altair trabalho, obrigação familiar da qual sentia vergonha. Negro, pobre, de vida difícil... Sua mãe, também negra, pobre, lavadeira, analfabeta. Éramos vizinhos na Nova Granada. Eu morava em uma casa própria. Ele, em um barracão, pequeno, de três cômodos, alugado. Tínhamos a mesma idade, morávamos no mesmo bairro, mas vivíamos em realidades muito diferentes.

Nossa convivência durou uns cinco anos, até que se mudaram para o Barreiro. Financiaram uma casinha em um conjunto habitacional pelo BNH. Visitei-os várias vezes em almoços domingueiros, depois, pelas transcorrências da vida, sumimos um do outro. Nunca mais nos vimos. Gostava muito desse camarada, confidente, companheiro...

Em nossa rua, um pouco mais abaixo, viviam três famílias. Eram três irmãos, cada um com sua casa, simples, tipo barracão, mas em um terreno que os pertencia. Uma das filhas, a Vilma, durante um tempo, estudou também no Municipal Marconi. Digo, também, porque, meu pai conseguiu duas vagas nessa excelente escola da cidade. Uma para mim e outra para o Altair. Começamos na "quinta U", a última quinta série do colégio, onde eram alocados os alunos novatos, oriundos dos vários bairros da cidade. Nesse tempo, as turmas eram separadas por gênero e mérito acadêmico. Imaginem, os meninos em uma sala e meninas em outra. Não era muito longe de nossas casas. Ficava na Contorno, famosa avenida em BH que circula toda a cidade. Quem morava externamente à Contorno, como nós, era periferia.

Íamos à pé, eu, Altair e a Vilma, para o Marconi, no turno da tarde. Era bonitinho, nós três, entre 11 e 12 anos de idade, atravessando alguns bairros para chegar ao colégio. Éramos boa companhia para a Vilma. Além de protegê-la de eventuais abusos que uma garota sozinha poderia sofrer, conversávamos e nos divertíamos nesse trajeto.

Vilma era de poucas palavras, tímida, introspectiva. Bonita. Pelo menos eu achava. Nas primeiras vezes, lembro-me bem, ela ia acanhada pelos cantos, enquanto eu e Altair, já velhos conhecidos, conversávamos e brincávamos o tempo todo. Aos poucos, ao longo do ano, viramos três. Enturmamos e ganhamos intimidade.

Em pouco tempo me apaixonei pela Vilma. Seu jeito sério e centrado me atraía. Declarar-me? Nem pensar! Ficava, então, no amor do pensamento, relembrando os detalhes de sua face coberta de pequenas pintas que lhe dava um charme especial. Gostava do seu jeito de andar, da forma como se dirigia a mim. Ficava imaginando dando-lhe as mãos e passeando por aí, mas morria de vergonha quando nos esbarrávamos pelo caminho. Será que Altair também se apaixonou por ela? Nunca soube disso. E assim, passamos juntos o ano de mil novecentos e...



Minha admiração pela Vilma crescia a cada dia. Era encantado pela sua pessoa, pelo seu jeito, pelas suas habilidades. Boa nos esportes jogava queimada muito bem. Tínhamos contatos também nas brincadeiras de rua. Uma das que mais gostava era "pera, uva ou maçã". Um menino ou menina de olhos vendados, escolhia alguém usando as palavras "pera", que significava aperto de mão, "uva", abraço ou "maçã", beijo. Era um risco, tanto para quem escolhia quanto para o escolhido. A tensão corria pelas nossas veias. Será que é a Vilma? Vou pedir "maçã". Não, não, não me escolha!!! Ah, que alívio. Lógico que o grupo criava suas artimanhas para favorecer ou sacanear um ou outro. Brincamos muito com as primas da Vilma.

Acho que era janeiro, não estou bem certo, e viajamos de novo para a praia, dessa vez para Guarapari. Meu pensamento e energia tinham ficado em Belo Horizonte. Meu coração estava ocupado pela Vilma.

Brinquei e curti muito a viagem com primos, tios e irmãos. Minha mãe, uma das principais organizadoras dessas viagens, alugava uma casa grande e dividia todas as despesas com um monte de gente. Teve vez de termos mais de vinte pessoas em uma casa.

Ganhei nessa viagem uma prancha de isopor. Brinquei tanto, mas tanto de pegar jacaré que esfolei minha barriga ao roçar na prancha. Tivemos, eu e meu irmão, cuidados especiais da mamãe para curar a ferida. Depois, descobrimos que nadar de camisa resolvia o problema. Era das brincadeiras preferidas. Se deixassem, passávamos o dia inteiro dentro d'água com a tal prancha, onda após onda.

Quase sempre íamos a Vitória visitar a fábrica de bombons "Garoto", todos deliciosos, ao meu gosto. Dessa vez, entrei em uma loja com a minha mãe. Andei, rodei e depois de muitas dúvidas, medos e incertezas comprei, com minhas parcas economias, um chaveiro. Seria meu presente para a Vilma quando voltasse. Passei horas admirando o chaveiro e pensando em como entregar meu presente, a lembrancinha que havia trazido da viagem. Foi foda. Difícil à beça.

Tentei combinar com ela várias vezes, mas não tinha coragem. Na hora "H" algo sempre dava errado. Eu gaguejava... E, e...

Era um dia de semana normal e, finalmente, marquei o encontro na esquina da nossa rua ao meio dia. O sol rachava no alto. Tomei banho, me arrumei todo com a minha melhor roupa de festa. Só não passei perfume porque não tinha na época. Desci para a esquina. Ela não sabia de nada. Eu, na maior "sem graceza" do mundo, disse:

_ Vilma, queria dizer que gosto muito de você. Trouxe-lhe esse pequeno presente do fundo do meu coração.

Mostrei-lhe o chaveiro. Era uma peça de madeira rústica, com uma inscrição: "lembrei-me de você". Foi a forma mais sincera e genuína de dizer o quanto ela preenchia a minha mente e o meu coração.

Ela pegou, olhou, devolveu e disse:

– Não posso aceitar.

Tudo isso durou uns três minutos que para mim foi uma eternidade. Fiquei sem argumentos. Voltei chorando para casa.

Nunca conversamos, jamais lhe perguntei sobre o motivo da sua decisão. Só sei que aquela cena, ao meio dia, com forte palpitar no coração e uma enorme decepção amorosa, retumba ainda hoje dentro de mim.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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