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Atualizado: 25 de set. de 2019


Gielton




O alarme biológico soou. Eram sete e pouco da manhã. Preparados, aguardávamos o momento desde a última consulta. O velho fusca amarelo nos conduziu sem percalços, e lá, vencemos a burocracia institucional.

Instalados. Ansiosos. Como não? Mesmo depois de toda a preparação? É chegada a hora. Roupas especiais me são fornecidas e adentro o ambiente, supostamente desinfectado.

Estou ao seu lado. Dou-lhe as mãos e inspiro apoio, confiança. Coragem, clama os sentidos. Força, é a ordem do instante. Mais força, e mais, e mais. Até a exaustão, quando lhe parece faltar. Era só aparência, não percebida por ele que, em procedimento padrão, lhe tirou de vez ao aplicar o antídoto da dor. Foi a conta. Perdeu mobilidade. Ficou sem ação.

Mas ela veio assim mesmo, puxada lá de dentro com vigor. Atravessando as entranhas escuras, até a luz. Linda, uma menina. Tão esperada e já tão amada desde tantas outras vidas.

Nossa filha chegara. Ninguém me ensinou a ser pai. Peguei no tranco, junto com ela, ladeira abaixo, destrambelhadamente bem intencionado. No plano da estrada da vida nos curvamos à nossa própria forma de amar.

 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton



Minha mãe, nascida em 1930, é a caçula de uma família de doze irmãos, todos nascidos em Santana do Pirapama. Não tive a honra de conhecer meu avô, Joaquim Machado, mas ouvi muitas de suas histórias. Diziam ser um homem durão, bem ao estilo de seu tempo. Honesto toda a vida. Detestava mentira, de qualquer natureza. Trabalhador, batalhou na vida e adquiriu algumas terras na região onde viveu.

Minha mãe foi criada por suas irmãs mais velhas, pois vovó Ambrosina faleceu quando ela ainda era criança. Talvez, por isso, a família tenha se tornado mais unida. Apesar de meus tios mal terem passado do primário, quase todos os sobrinhos e sobrinhas se graduaram. O estudo se tornou importante valor para a família.

Tia Naná foi a primeira a se mudar para Sete Lagoas, cidade grande perante a roça onde viviam. Acolheu vários sobrinhos, os mais velhos, para cursarem o ginasial, como se dizia na época. Outras tias vieram em seguida. Tempos depois, quando as condições de transporte melhoraram, os maridos puderam se dividir entre a cidade e as fazendas. Quando nasci, praticamente todos já moravam em Sete Lagoas, menos a minha mãe que, depois de casada, foi direto para Belo Horizonte.

Meu pai nasceu em Conceição do Mato Dentro, não tão distante de Pirapama, mas em outra região. No entanto, no meu tempo de criança, vovó Lilica e Vovôzinho – avós paternos – moravam também em Sete Lagoas, além de mais alguns tios por parte de pai. Era primo que não acabava mais. Tias e tios em todos os bairros da cidade. Às vezes fazíamos uma verdadeira "via sacra" visitando a parentada.

Passei muitas férias e fins de semana em Sete Lagoas. Em uma delas, ainda muito novo, por volta de uns nove ou dez anos de idade, fiquei na casa da tia Lilita, irmã da minha mãe. Ela morava bem perto dos meus avós paternos. Sozinho podia, quase que livremente, transitar entre as duas casas. Ia e vinha como se dominasse os espaços. Me sentia descolado, mais velho do que realmente era.

Nesse tempo, sinceramente, nem pensava nas meninas. Meu negócio era brincar e brincar e brincar...

Mas, meus primos, quase sempre mais velhos, me colocaram em uma enrascada. Percebia o cochicho deles tramando qualquer coisa. Sentia algo estranho no ar. Uma atmosfera pesada de segundas intenções. Era um fim de tarde. Entrei pelo portãozinho de frente da casa, onde, ao lado, havia um pequeno muro com grades bem baixas. Insistiram para que contornasse o jardim da frente até chegar à lateral da casa.

Assim o fiz. Na curva, me deparei com a vizinha, uma garota da minha idade, "prafrentex" pra caramba, que me aguardava. De sobressalto, me lascou um beijo na boca. Fiquei grogue, zonzo, desarrumado. Perdi o rumo. Não pelo prazer que poderia proporcionar, mas pela surpresa do inesperado. Sem conhecer a delícia do toque feminino, saí limpando os lábios, sentindo o estranho gosto do outro.

Só vi meus primos, de butuca, gargalhando, doidos querendo saber como tinha sido a experiência.

Eu, sem graça, silenciei.

 

Atualizado: 28 de ago. de 2018

Gielton

Minha infância foi repleta de amores platônicos, daqueles de ficar bobo, pensando na mulher amada, na menina amada.

Ainda criança, adorava entrar na Kombi do meu pai, na garagem mesmo, para ouvir rádio. Na época, com uns 10 anos, curtia a Atalaia, que tinha preferência por “músicas de fossa”. Ficava ali, por horas a fio, ouvindo Agnaldo Timóteo, Paulo Sérgio, Márcio Greyck, entre outros. Emocionava-me com as letras, bregas até, que falavam de amor.

Minha primeira grande paixão foi a Soraia, coleguinha de sala. Cursava a quarta série primária, como se dizia na época. Tinha verdadeira adoração por ela. Um amor infantil, inocente, sem grandes pretensões. Só sei que gostava de ficar ao seu lado, brincar com ela e até dançar, quando, no final do ano, fizemos uma "hora dançante" dentro da sala de aula. Foi um momento mágico para o meu coração.

Era julho. Estávamos de férias. Eu, desolado, pois passaria um mês sem ver a Soraia. Mesmo podendo brincar na rua, andar de carrinho de rolimã o dia todo, jogar bola no campinho todos os dias, fora o tanto de outras brincadeiras com os vizinhos, ficava amuado sempre que me lembrava da Soraia.



A tristeza se aprofundou quando viajamos para Nova Almeida, uma cidade pertinho de Vitória, no Espírito Santo. Provavelmente uma das nossas primeiras viagens para a praia. A Kombi deve ter gastado umas 20 horas, das quais passei, pelo menos 15, olhando a janela. Triste, triste e triste. Amargurado, com tamanha dor no coração. O pensamento, quase todo o tempo, na Soraia. Nem sei se ela sabia o quanto gostava dela... Mas eu gostava, e muito...

A casa alugada em que ficamos era simples, em uma área de periferia, de ruas de terra batida, a uns quatro quarteirões da praia. Tudo que uma criança de 10 anos poderia querer de suas férias, mas minha tristeza pela falta da Soraia era maior que tudo...

No dia seguinte, saímos a pé para conhecer o mar. Andávamos todos pelas ruelas do bairro quando, de repente, quem eu vejo? Não acreditei, não devia ser verdade. Aquilo era um sonho? Não. Era Soraia e sua família. Estavam em uma casa distante uns dois quarteirões da nossa. Foi alegria sem medida. Enturmamos todos. Meus irmãos com os dela. Foram as melhores férias da minha vida!

Não me recordo de ter lhe dado um beijo sequer. Brincamos muito, de tudo: bola, queimada, correr, nadar... Como era bom estar perto dela! Foram quinze dias de puro êxtase, de alegria incontida, de vontade de brincar mais e mais e mais... Lembro-me da volta, dentro da Kombi, olhando a paisagem pela janela, em estado de contemplação. Uma alegria interna indescritível e inacreditável...

Soraia foi a primeira, dos inúmeros amores platônicos que tive até a adolescência. Assim como a água do mar invade a areia da praia, cada novo encantamento penetrava espaços vazios em meu coração. De fascínio em fascínio - por um simples sorriso ao longe, pela pureza de um semblante no meio da multidão, por um jeito de andar, ou qualquer detalhe que despertasse atenção - trocava a mulher amada, a menina amada.

Fui, do misterioso amor à distância, ao encontro, tangível e único, na juventude, de um amor com cheiro e sabor de perenidade. Hoje, já avós, prosseguimos na infinda construção, difícil à beça, de amar a dois. Que sorte a minha!

Revisão: Maria Lucia Pompein Pessoa


 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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