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Atualizado: 3 de set. de 2025

Gielton





Línguas lânguidas se emaranharam e o tesão ardente subiu dos pés às partes. Desceu do sussurro ao pé do ouvido até entre as pernas. Aquele beijo era apenas a preliminar das preliminares. Dos amantes, nem te conto onde mais as línguas perpetraram.


Nem percebemos, mas a língua se estica para receber a colherada. É o começo do saboroso lamber os beiços, ou dissabor do tempero apimentado. Há quem goste! De garfo em garfo conduz a vianda a preencher o vazio da fome. Em muitos esse vácuo é rotina...


Essa tramela fala, dá dicção e sotaque. Respeita territórios e reafirma convicções. Deita-se sobre a boca ou enrola-se no céu para pronunciar. Vibra para "ra", relaxa-se para "pa", mas trava quando a frase é dita rapidamente. Nem tempo de ir e vir tem, para no frigir, exprimir espremendo-se aquilo que deveria ser dito. Os línguas presas que o digam!


Há quem tem a língua tão comprida que após a morte precisará de dois ataúdes. Um para a pessoa e outro para a própria língua. Dizem as más línguas que esse tipo de gente é língua de cobra e não mede em colocar a língua nos dentes. E mais, suas línguas afiadas cortam como facas. Detalhe, para os dois lados.


Ai que ardência quando se queima a língua no café quente na beirada da xícara esmaltada. Os línguas de trapo dizem que não esquenta. Mentira pura de perna curta e língua de fora para zombar do bobo que acreditou como pateta.


De tudo que ela dá ou tira "pagar língua" é o mais lucrativo. Não necessita poupança, basta humildade. Exige reflexão e mudança de ótica. Alterar ângulos. Abaixar ou inclinar para que os mesmos olhos enxerguem o que antes era sombra. Acionar outros sensores e fisgar a velha rigidez escondida no fundo do baú.


Às vezes é preciso apanhar. Tipo, socos que a vida dá. Manter o discurso e a ação costuma piorar as coisas. Ficar na berlinda é sinal. Percebe quem quer. O preço pode ser alto e na queda a decepção pode esmagar a língua. Para tudo há paliativos, mesmo para língua mordida.


Mas, se reconhece o erro e transforma, a evolução é certa. O caminho se abre em trilhas inimagináveis. Abranda o custo que agora cabe no bolso, na mente e na consciência. Aí, sai barato pagar língua!


Assim, a vida! Quem nunca pagou língua põe o dedo aqui (que já vai fechar).


Imagem do post em <https://pin.it/5AwcTU6>

 

Atualizado: 3 de mai. de 2023

Gielton






Não havia motivo aparente para aquela manhã. Seria uma como outra qualquer. O dia pouco amanhecia. Parcas luzes perfuravam a fina cortina da ventana. Semelhava madrugada.


Algo os inquietava. No leito, agasalhados do frio, movimentaram lentamente em direção ao encontro. Encontro de corpos que ardem e desejam, mesmo ainda letárgicos.


Toques sutis de mãos muito leves ativam hormônios adormecidos. Escondidos nos recônditos dos caminhos atravessados, afloram como o desabrochar de uma rosa. Vermelha, provavelmente. Quente cor que rosa a face e acelera os batimentos.


Como em espasmos involuntários contraem troncos e dorsos em busca de minúcias que irradiem sensações pulsantes. Lábios se fundem em beijos "calientes". Suaves mãos sobre rostos macios ampliam o rastro da leveza. Flutuam como plumas! Não há pressa. Não há urgência! Perpetuam, por instantes, esse romance preliminar de quem conhece a esfera do prazer.


Hora de adentrar um no outro. Tornar-se uno, apesar de cada um continuar ser a si próprio. Algo no campo do inexplicável, do indizível. Ele aproxima-se do portal e lentamente submerge. Desliza pelas paredes úmidas em um contato macio, sem entraves. De dentro, se acomodam.


Detalhes são ampliados como em um super microscópio de sentidos. Os pés dela sobre sua panturrilha lhe conferem um estar terreno. Dele, as mãos em torno das ancas transmitem fome de pegada. Cada milímetro de pele responde com um turbilhão de sinais. Envoltos um no outro se desconectam do mundo real.


Assim, vão, em um vai e vem de ritmo próprio que atende mutuamente aos dois. Não é preciso pensar, não há raciocínio. Tudo se encaixa. Os tempos congruem. Não se ouve o ranger da cama. Não se percebe a claridade da janela. Tudo é um só. Há paz. Há acoplamento. É possível tensionar relaxadamente e buscar calmamente o auge. Esse sim, vem em conjunto, a uivos que se alongam. Eternizam no inconsciente. Dissipam-se na respiração ofegante. Até...


Não é mais preciso ir e vir. Chegaram, em sincronia, ao espaço do amor pleno, em conexão direta com os céus.


Assim, a vida!


Imagem do post em <https://pin.it/1zovlSB>


 

Atualizado: 19 de jan.

Gielton


Criança brincando com baldinho na praia


Subimos sós as dunas. Apesar do sol firme no céu, a areia fina nem tão quente estava. Do alto, no horizonte, os olhos encontram o mar, lá ao fundo em degradê de verdes.


Apesar de crescido, é uma criança. Seus bracinhos ainda não envolvem a prancha, por isso ela vem comigo. Levo a mais na mochila o baldinho com pazinhas e moldes. Vim preparado para entreter o menino. Enquanto isso, pulula para lá e para cá. Corre, rola na areia, se levanta, corre de novo, volta e pergunta…


— Vô, o que é duna?


Nem precisei explicar. Estava ali, diante de nós, a experiência pura: aquele areal ondulado em cumes e vales das dunas de Itaúnas.


Minha ansiedade crescia à medida que a praia se aproximava. Queria ensinar meu neto a pegar ondas como fiz com os filhos. Nada de surf, jacaré mesmo. Coisa que só mineiro, amante do mar, conhece.


Alguns passos a mais, no tempo lento e entregue de criança, e alcançamos a praia. Sentou-se na areia, distante da água e com a pazinha começou a cavar.


Fui até o mar averiguar. No raso, marolas fraquinhas faziam cócegas nos pés. Voltei apressado.


— Vamos, José, pegar ondas?


— Não, vô, vamos brincar na areia um pouco.


— Mas o mar está gostoso, sô! Vamos lá! Vai ser legal!


Topou, mas o franzido de sua testa estampava certo temor Notei sua apreensão quando não deixou as águas ultrapassarem a canela. Respeitei. Fui cuidadoso.


Senti sua aflição com o aproximar da onda quebrada. De mãos dadas, avançamos só um pouquinho. Naquele dia, mesmo com medo, deitou-se sobre a prancha; roçando a areia, deslizou muito devagar. Mesmo assim, curtiu.


Dois dias depois, da janela aberta para o mar o vi, com seu pai, à vontade, livre e solto, mergulhando, socando, pulando... Senti o prazer do meu filho orientando o dele a deslizar junto à espuma das ondas.


Como se faz nas primeiras pedaladas, o empurrou por cima da ondinha e soltou a prancha, que escorregou sobre as águas com a criança em urros de satisfação. Os sorrisos refletiam o entusiasmo e júbilo de ambos. O menino parou, desceu, segurou a prancha com as duas mãozinhas e retornou correndo ao mar. Era o ato de “quero mais”...


Voltei no tempo! Assim fruía com os meus, anos atrás. A mesma alegria, o mesmo gozo. Agora é a vez deles com os seus.


De longe, o peito inflado e o nó na garganta despem a emoção. Como um passarinho, ela voa longe, e traz de volta ao ninho o repouso da compreensão. De olhos encharcados encontro a paz do meu lugar de avô!


Assim, a vida. Incitando o esbarrar na gente mesmo.



 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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