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Gielton



Poderia ser desatenção. Outros diriam excesso de concentração. Não importa, o fato é digno de sua narrativa.


Sua filha estava na flor da adolescência. Hormônios pulsavam como pipoca estourando destrambelhadamente. Era um dia como outro qualquer: após a escola regressavam juntos para casa. Ele ao volante, ela, falante.


Relatava entusiasmada o acontecido.


— A turma inteira é apaixonada por ele, pai. Ele é bonito, mas... Sei não, acho meio sem graça e um pouco esnobe.


— É mesmo?


— Você não acredita pai. As duas eram as melhores amigas. Unha e carne. No recreio dividiam lanches e intimidades. Odeio aquilo! O cantinho da arquibancada testemunhava o tititi.


Parado no semáforo ele balbuciou.


— Sei.


Ela seguiu animada sua historieta. De fato, era exageradamente detalhista, mas isso pouco importa.


— Dizem que ele já tinha bebido bastante whisky. Vê se pode pai, nessa idade... Eu, nem toco, passo longe da bebida. Muitos ficantes estavam na varanda. Sabe como é...


Na curva da avenida em meio ao trânsito caótico da hora do rush ele balança a cabeça afirmativamente e diz.


— Sei...


— Foi sacanagem, afinal era seu aniversário de 15 anos. Eu não gosto de nenhuma das duas, mas dizer "bem feito", isso eu não falo não.


Jovialmente vibrante seguiu.


— Cê acredita pai, que pouco antes da valsa ela procurava desesperada seu namorado. Quando entrou naquele cantinho...


Ele interrompeu abruptamente.


— Já vi tudo, já vi tudo...


Confiante que o pai entretinha-se com sua história a menina-moça aguardou sua reação.


— Esse cara é um lerdo! Não tô dizendo?


Esbravejou para si ao mesmo tempo que, em um movimento brusco no meio do morrão, engatou a primeira em seu Pálio 1.0 e, enraivecido, socou o volante.


— Que merda, que merda!


A filha, ao perceber seu pai em outra dimensão, sentiu-se banhada pela decepção. Banho frio, por sinal, daqueles de gelar qualquer conversa acalorada. Acabrunhou-se juntando as mãos entre as pernas. Em silêncio e pensativa permaneceu até a garagem, duas quadras adiante.


Assim, a vida. Pela estrada afora...


Imagem do post em <https://pin.it/2N8azYF>

 
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Atualizado: 12 de ago.

Em homenagem ao meu filho Davi Santos Lima


Gielton






Desciam a Paulo Afonso quando viram a silhueta de um jovem sobre sua bicicleta recostado ao tronco de uma mangueira. A escuridão da noite prevalecia, pois as copas das árvores obstruíam as luzes dos postes. Mesmo assim, perceberam que o jovem parado gesticulava com os braços abertos olhando para cima.

Nesse relance se entreolharam. O motorista disse:


— Você viu? O que ele está fazendo?


— Sei lá, porra!


— Deve estar doidão. Certamente tem drogas...


— Branquinho de classe média. Deixa pra lá.


— Não, não... Vamos abordá-lo.


— Que isso, ficou louco? Vai acabar dando problemas. E se for filho de juiz?


Pararam a viatura na esquina. Pelo retrovisor, o motorista vigiava o ciclista que se aproximava com seus dreads loiros ao vento. Parecia flutuar, meio no mundo da lua. O volume da mochila pendurada sobre os ombros guardava alguma promessa?


O motorista abriu a porta, saltou para fora e bradou cortando o silêncio da rua:


— Parado. Desça da bike. Mãos para cima.


O jovem acionou os freios e desceu..


— Na parede. Encoste na parede mantendo as mãos no alto. Abra as pernas.


Por detrás revistou-o, passando suas mãos pelo dorso, entre as pernas, até alcançar a panturrilha. Enquanto isso, o outro, com os olhos, filmava seu perfil.


— Tire as drogas de dentro da mochila.


— Não tenho droga, seu guarda.


— Abra a mochila.


Uma garrafinha foi o primeiro objeto a pular da bolsa.


— Que bebida é essa? Cachaça?


— Não, seu guarda. É água.


— Deixa ver.


Com um solavanco, o motorista puxou a garrafa da mão do jovem, abriu e cheirou. Descartou sobre a calçada.


Em seguida, retirou uma pasta vermelha, dessas de elástico nas pontas.


— Que escritos são esses?


— Partituras.


— Para que servem? Ah, deixa pra lá.


Ao fundo da mochila, dentro de uma vidrinho, encontrou bolinhas brancas miúdas como alpistes.


— Que droga é essa?


— Não, seu guarda. Isso é remédio homeopático.


O outro diz:


— É para stress. Minha mulher usa.


O jovem completa.


— Exato, serve para stress também. Mas, nesse caso...


Foi interrompido pelo motorista que, de veias estufadas, pronunciou.


— E a droga? Onde está?


— Não tenho droga, seu guarda.


— Vamos, cadê o baseado? Sei que está doidão. Te vi conversando com a árvore ali em cima.


— Eu, conversando com a árvore?


— Isso mesmo, vi com meus próprios olhos, quase agarrado ao tronco daquela árvore na esquina.


— Não, seu guarda, eu estava me despedindo da minha namorada na janela do primeiro andar.


Assim, a vida! Há corpos que passam, outros… não.


Imagem do post em <https://pin.it/3vDX73P>

 
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Atualizado: 19 de nov. de 2025

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Casal na praia



Amar não é dádiva, é labor…


Adotamos o frescobol há muitos anos. Éramos jovens ainda. Foi entrando de mansinho em nossas viagens de férias. Um companheiro e tanto! Tão amigo, que o agraciamos em uma de nossas canções: "Jogar só tênis é perder no frescobol".


Passados alguns bons carnavais, a mocidade se renovou. Ela está agora um pouco amadurecida. O que vale é o espírito da coisa! Sentimo-nos jovens no modo de jogar com o humano.


O ritual começa com a disponibilidade.


— Vamos bater uma bolinha?


Entre essa escolha e a bolinha levantar voo, há alguma demora. É necessário prender seu cabelo, espalhar protetor sobre sua pele, limpar seus óculos... Afinal, a visão límpida facilita a brincadeira. Enxergar os detalhes e o todo nos colocam a postos para os desafios.


Normalmente entre o Sol, a areia plana e o mar ao fundo iniciamos nossa peleja. Pernas levemente flexionadas, postura de atleta e fluidez. Afinal, esse jogo é puro deleite. Quem nos dera levar a existência como um jogo suave, com menos amarras aos medos.


Somos competitivos, sim, às vezes, mas no frescobol encontramos uma bonita parceria. Lançar a bola para a companheira na altura certa e na posição confortável é como acertar o passo na vida. É como andar lado a lado no trilho da existência.


A vida precisa de graça, de cor vibrante. Quando mornamos a relação, o banho-maria cozinha lentamente as angústias. É bom colocar emoção. Ficar no pingue-pongue lento e sem graça colore a partida em tom de cinza desbotado. De vez em quando, faz bem colocar força e raquetear com tesão. Tornar a pegada difícil, mas possível. Um desafio aos dois, tanto para quem corta quanto para aquele que apara.


Eventualmente, descalibramos a mão. Vai forte demais em direção ao tórax que, sem tempo para desviar, apenas se protege da bolada bem-intencionada. Bate no peito, sem dores. Só aquele susto bom.Ainda bem! O coração amortecido e firme reencontra seu ritmo.


Se vem muito baixa, o esforço para salvá-la e mantê-la viva, pelo menos, até o próximo toque, é compensado pelo prazer de ver a gorduchinha ainda voando pelos ares. Alternamos, acolhendo os passes truncados de cada um.


Outras vezes voa alto. Inalcançável! Deixamos a bola do sonho, como diz Rubem Alves, ultrapassar seu limite. Não há problema. Em passos lentos, sem tempo para a demora, é possível recuperar a redonda e recomeçar de um novo ponto.


Ambos irradiam esperança a cada bola salva, a cada desavença compreendida. Damos as mãos para seguirmos juntos, apesar dos percalços.


Permitimos errar. Rimos quando a pelota ricocheteia na beirada da raquete e mergulha na água. As ondas a trazem de volta, boiando. Sem pressa, recomeçamos a lida cotidiana da intimidade.


Mas, aos poucos, as pernas fraquejam, os músculos do antebraço perdem força, a bola escapa facilmente para os lados. A flexibilidade para corrigir os lançamentos tortos se esgota. Então, mesmo que segundos antes a emoção tenha movido o desejo do encontro, é hora de parar. Dar tempo para reiniciar a trama do fio da vida com novo fôlego.


Lucidamente, trocamos o jogo pela liquidez da água do mar, que nos tira da terra e coloca nossos sonhos a flutuar.


Assim, a vida! Um jogo com ritmo, pausa e retomada.

 

Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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