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A NAMORADA

  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton
  • 9 de jun. de 2021
  • 2 min de leitura

Atualizado: 12 de ago.

Em homenagem ao meu filho Davi Santos Lima


Gielton






Desciam a Paulo Afonso quando viram a silhueta de um jovem sobre sua bicicleta recostado ao tronco de uma mangueira. A escuridão da noite prevalecia, pois as copas das árvores obstruíam as luzes dos postes. Mesmo assim, perceberam que o jovem parado gesticulava com os braços abertos olhando para cima.

Nesse relance se entreolharam. O motorista disse:


— Você viu? O que ele está fazendo?


— Sei lá, porra!


— Deve estar doidão. Certamente tem drogas...


— Branquinho de classe média. Deixa pra lá.


— Não, não... Vamos abordá-lo.


— Que isso, ficou louco? Vai acabar dando problemas. E se for filho de juiz?


Pararam a viatura na esquina. Pelo retrovisor, o motorista vigiava o ciclista que se aproximava com seus dreads loiros ao vento. Parecia flutuar, meio no mundo da lua. O volume da mochila pendurada sobre os ombros guardava alguma promessa?


O motorista abriu a porta, saltou para fora e bradou cortando o silêncio da rua:


— Parado. Desça da bike. Mãos para cima.


O jovem acionou os freios e desceu..


— Na parede. Encoste na parede mantendo as mãos no alto. Abra as pernas.


Por detrás revistou-o, passando suas mãos pelo dorso, entre as pernas, até alcançar a panturrilha. Enquanto isso, o outro, com os olhos, filmava seu perfil.


— Tire as drogas de dentro da mochila.


— Não tenho droga, seu guarda.


— Abra a mochila.


Uma garrafinha foi o primeiro objeto a pular da bolsa.


— Que bebida é essa? Cachaça?


— Não, seu guarda. É água.


— Deixa ver.


Com um solavanco, o motorista puxou a garrafa da mão do jovem, abriu e cheirou. Descartou sobre a calçada.


Em seguida, retirou uma pasta vermelha, dessas de elástico nas pontas.


— Que escritos são esses?


— Partituras.


— Para que servem? Ah, deixa pra lá.


Ao fundo da mochila, dentro de uma vidrinho, encontrou bolinhas brancas miúdas como alpistes.


— Que droga é essa?


— Não, seu guarda. Isso é remédio homeopático.


O outro diz:


— É para stress. Minha mulher usa.


O jovem completa.


— Exato, serve para stress também. Mas, nesse caso...


Foi interrompido pelo motorista que, de veias estufadas, pronunciou.


— E a droga? Onde está?


— Não tenho droga, seu guarda.


— Vamos, cadê o baseado? Sei que está doidão. Te vi conversando com a árvore ali em cima.


— Eu, conversando com a árvore?


— Isso mesmo, vi com meus próprios olhos, quase agarrado ao tronco daquela árvore na esquina.


— Não, seu guarda, eu estava me despedindo da minha namorada na janela do primeiro andar.


Assim, a vida! Há corpos que passam, outros… não.


Imagem do post em <https://pin.it/3vDX73P>

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Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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