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Atualizado: 19 de jan.

Gielton


Criança brincando com baldinho na praia


Subimos sós as dunas. Apesar do sol firme no céu, a areia fina nem tão quente estava. Do alto, no horizonte, os olhos encontram o mar, lá ao fundo em degradê de verdes.


Apesar de crescido, é uma criança. Seus bracinhos ainda não envolvem a prancha, por isso ela vem comigo. Levo a mais na mochila o baldinho com pazinhas e moldes. Vim preparado para entreter o menino. Enquanto isso, pulula para lá e para cá. Corre, rola na areia, se levanta, corre de novo, volta e pergunta…


— Vô, o que é duna?


Nem precisei explicar. Estava ali, diante de nós, a experiência pura: aquele areal ondulado em cumes e vales das dunas de Itaúnas.


Minha ansiedade crescia à medida que a praia se aproximava. Queria ensinar meu neto a pegar ondas como fiz com os filhos. Nada de surf, jacaré mesmo. Coisa que só mineiro, amante do mar, conhece.


Alguns passos a mais, no tempo lento e entregue de criança, e alcançamos a praia. Sentou-se na areia, distante da água e com a pazinha começou a cavar.


Fui até o mar averiguar. No raso, marolas fraquinhas faziam cócegas nos pés. Voltei apressado.


— Vamos, José, pegar ondas?


— Não, vô, vamos brincar na areia um pouco.


— Mas o mar está gostoso, sô! Vamos lá! Vai ser legal!


Topou, mas o franzido de sua testa estampava certo temor Notei sua apreensão quando não deixou as águas ultrapassarem a canela. Respeitei. Fui cuidadoso.


Senti sua aflição com o aproximar da onda quebrada. De mãos dadas, avançamos só um pouquinho. Naquele dia, mesmo com medo, deitou-se sobre a prancha; roçando a areia, deslizou muito devagar. Mesmo assim, curtiu.


Dois dias depois, da janela aberta para o mar o vi, com seu pai, à vontade, livre e solto, mergulhando, socando, pulando... Senti o prazer do meu filho orientando o dele a deslizar junto à espuma das ondas.


Como se faz nas primeiras pedaladas, o empurrou por cima da ondinha e soltou a prancha, que escorregou sobre as águas com a criança em urros de satisfação. Os sorrisos refletiam o entusiasmo e júbilo de ambos. O menino parou, desceu, segurou a prancha com as duas mãozinhas e retornou correndo ao mar. Era o ato de “quero mais”...


Voltei no tempo! Assim fruía com os meus, anos atrás. A mesma alegria, o mesmo gozo. Agora é a vez deles com os seus.


De longe, o peito inflado e o nó na garganta despem a emoção. Como um passarinho, ela voa longe, e traz de volta ao ninho o repouso da compreensão. De olhos encharcados encontro a paz do meu lugar de avô!


Assim, a vida. Incitando o esbarrar na gente mesmo.



 
  • Foto do escritor: Gielton
    Gielton

Gielton





Estava com meus vinte e poucos anos quando nossa primogênita chorou pela primeira vez. Jovem demais para os dias de hoje, mas, para a época, nem tanto.


A vida atribulada, a labuta pela sobrevivência, o "provedor" introjetado e as frágeis ferramentas psicológicas não me permitiam vislumbrar um futuro tão próximo. Questão de pouco menos de quarenta anos. O tempo voa!


Meu pai não teve a chance de conviver com nenhum dos oito netos. Minha mãe experimentou dois bisnetos. Não dá para saber muito além disso. O que habita a alma de cada um é algo muito particular. No máximo, posso dizer de mim.


Nesse último fim semana nos reunimos em Casa Branca. Um encontro inesperado com os três filhos, noras, genros e netos. Uma grande família!


Dizem que a felicidade é feita de pequenos momentos. Digo, então, sou feliz! Por horas e horas a fio... Ela se manifesta nos detalhes, no amor que derrama, no abraço de aperto imensurável, na palavra de conforto.


Nadar com os dois netos na piscininha do clube. Rolar na água, pular, mergulhar a “pequetita” - como sua bisavó a chamava - imaginar navios, peixes, submarinos e o que mais vier na mente criativa do mais velho é jeito de avizinhar a tal felicidade. Na espreguiçadeira, conectar meu pai e oferecer-lhe esse momento. Agradecer por vivê-lo.


À mesa farta do café saborear cada migalha de pão como palavra trocada. O pedaço de queijo vem com o beijo de quem acaba de chegar. Aquela lasca de bolo de fubá tem o gosto do afeto que rodeia a mesa. Tantas delícias entre gentes, tantos prazeres, tantos amores. Lembrar de minha mãe que participava até pouco tempo.


Em meio à confusão a mão sobre a coxa da mulher amada gera conexão. Sentimos a filharada como fruto maduro daquilo que cultivamos juntos. A felicidade vem agora em forma de orgulho dessa construção tijolo a tijolo.


O clima é leve! Cada um pode ser, simples, o que quiser. O indivíduo compõe o todo, deixando-se ser parte de algo que parece maior do que nós mesmos. Talvez venha de outros tempos, de outras formas de espaço, de outras formas de estar.


Malas prontas apontam para um fim. Ao encontro segue a despedida. É hora de seguir adiante. Só que, o pranto doído do neto comove. Das profundezas, os soluços dizem sobre o desejo de perpetuar. Agarrar a tal felicidade e não soltar nunca mais... Seria medo de soltar os laços?


Na rápida estiagem, mesmo entre nuvens cor de cinza, a ternura do grande abraço familiar trouxe alento. Foi tão espontâneo, tão meigo! Leve como plainar em sonho! Um instante de poucos segundos, mas de querenças eternas.


O choro se foi...


— O que houve?


— Nada vô. Fiquei feliz!


Assim, a vida!



 

Gielton



Passava em frente ao sacolão, na avenida perto de casa, quando algo me acometeu. Uma espécie de tristeza descabida. Uma sensação de vazio. Uma falta inesperada.


Havia cruzado a pouco com ela desapercebidamente, como a muitos transeuntes de forma corriqueira. Sabe quando, em meio à multidão, à beira do trilho do metrô, entre o roçar de ombros no espremer da porta, alguém, do nada, te nota? Sem saber o porquê, sente um olhar não identificado?


Foi assim! Só entendi que era ela, aquele dia no sacolão, tempos depois. Na calçada, entre a loja de pets e o ponto de ônibus, estonteei repentinamente. Perdi a lógica. Desbaratei! Era eu, aéreo como o ar que pulula em redemoinhos num vai e vem frenético. Não sabia se ia ou continuava. Se voltava ou permanecia.


Quando retomei fração da lucidez, meus olhos marejados embaçavam a iris. Não entendi aquele choro. Segurei, afinal estava no meio da avenida. Imagens vagas pipocaram na minha mente em flashes como um filme sem nexo. Impossível reproduzir. Na verdade, nem me lembro. Como traduzir? No máximo, a sensação de desvario. Essa desconexão entre o presente e o que talvez já tenha ido. A dor do desconhecido.


Cargas desceram sobre mim. No chão, os pés fincaram em uma espécie de fio terra, espalhando para longe aquele estado de temor e delírio. O sangue desgovernado reencontrou sua rota em artérias e veias ramificadas. No cérebro, as sinapses, até então descontroladas, se organizaram na confusão peculiar. O pulmão aflito espremeu-se no tórax e logo relaxou deixando o ar invadi-lo sem restrições.


Uma melancolia confortante, sem razões aparentes, envolveu minha áurea. Fui abraçado por uma serenidade em tons de calma. "A paz invadiu o meu coração" (Gil).


Era sobre o transcendente. O além erigindo o presente. Dizem que temos cinco sentidos. Acho pouco pelos arrepios do corpo.


Interpretei. A saudade passou tão perto e tão rápida que nem reparei. Seu rastro atordoou o entorno de mim, mas o perfume que exalou trouxe-me de volta. Meu corpo e minha alma leram a falta que sentia dela: minha mãe, que partira a menos de um mês.


Assim, a vida. Do nada, acontece!


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Textos - Gielton e Lorene / Projeto gráfico - Dânia Lima

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