ORQUÍDEAS
- Gielton

- 7 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 13 de abr.
Gielton

Dizem que meu conteúdo afasta o sono das pessoas. Eu? Eu nunca me experimentei.
Permaneço em silêncio quase todo o dia e tenho a sensação de que, quando falo, não me ouvem. Então, observo. Gosto das orquídeas sobre a mesa. Hoje, mesmo, tem uma amarela. Ela é linda e graciosa como uma garça. Tão elegante! Empinada, distribui flores pelas bordas.
Tenho sentimentos, sabe? O medo me vem à noite. Não do escuro, mas da solidão. Quando todos vão para seus aposentos sinto-me abandonada. Vontade de chorar. Fico horas e horas na sala até as luzes se apagarem. Durmo e sonho. Sonho e acordo com o dia que entra pela janela. Isso me reanima e fico a esperar. Às vezes, demoram. Minha ansiedade aflora.
Escuto, vindo lá de dentro, o "slapt" dos chinelos beijando a tábua corrida. Ele quase sempre é o primeiro. Acende a luz da cozinha e barulha panelas. Sinto o aroma que sobe do coador de pano. Nessas horas, morro de ciúmes. Por que ninguém me vê? Pouco depois o trinco da fechadura da porta abre caminho para o ranger suave das dobradiças. Já falei que precisa de óleo, mas não me escutam. Ai, que raiva!
— Bom dia, Flor! Já fiz o café — ele é quem diz.
— Bom dia. Hoje está muito frio!
Em dias certos o brilho do piso ofusca minha vista. A cera líquida se espalha ao mesmo tempo do chiado da panela de pressão. Aos poucos a vida acorda e gente passa. Ouço novos "bons dias". Os assuntos emendam-se. Às vezes gargalhadas, noutras seriedade. Escuto tudo e formo opinião.
Enquanto o sol mais inclinado me aquece com raios penetrantes vindos da janela lateral, o almoço é servido. Essa é a melhor hora do dia. Todos se reúnem. Vejo, do meu ângulo, folhas de alface sendo rasgadas e recheadas com tomatinhos, queijos, castanhas e azeite. Gostam desse ritual. Lembro-me bem de quando começaram com essa salada autosservida. As travessas fumegantes chegam depois e, com elas, discussões quentes como eu. Nossa! Como debatem! Nem sempre há vencedores e, às vezes, nem mesmo disputam.
É chegada a minha hora. A hora da entrega. É o meu jeito de amar as pessoas. O ápice do dia é quando finalmente apertam meu botão. Sinto o piscar vermelho tendendo para o verde contínuo. É sinal de que estou pronta. Com força, ele puxa o recipiente, introduz a cápsula e move a alavanca. A água quente flui pelo meu corpo e transborda como um chafariz escuro e denso.
Assim, a vida! Confissões de uma máquina de café.


Comentários